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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Indignidades... e uma
relação cheia de dedos
A reação do
Exército às supostas
fotos
de Vladimir Herzog trai problemas que
vão do humano ao institucional
A primeira nota divulgada pelo Exército
a propósito da publicação das fotos que se
acreditava fossem do jornalista Vladimir Herzog na prisão
do DOI-Codi de São Paulo, poucas horas antes de morrer, no
dia 25 de outubro de 1975, é (1) um desrespeito ao sofrimento
de um ser humano, (2) um atentado à inteligência alheia,
(3) um sintoma de problemas de comando no interior da instituição
e (4) uma evidência de que o Ministério da Defesa ainda
não pegou. As razões disso, item por item:
1) A nota afirma que as "Forças Legais"
assim, pretensiosamente em maiúsculas , no intuito
de trazer a "pacificação" do país, tomaram
medidas que se constituíram em "legítima resposta
à violência dos que recusaram o diálogo, optaram
pelo radicalismo e pela ilegalidade e tomaram a iniciativa de pegar
em armas e desencadear ações criminosas". Imaginemos
a cena. O redator ou redatores da nota tinha diante
dos olhos as fotos de um homem nu, as mãos à cabeça,
no último grau do desamparo e ainda por cima fotografado
naquela situação. São imagens de um prisioneiro
no limite do sofrimento e da humilhação. E ao redator,
ou redatores, o que ocorre? "Legítima resposta." Entre todos
os adjetivos e substantivos disponíveis, esses são
o que vai (vão) buscar, para a ocasião. A referência
aos que optaram pelo radicalismo, pegaram em armas e praticaram
crimes não se aplica a Herzog. Visa a confundir.
2) Não há "documentos históricos",
diz a nota, que comprovem as mortes ocorridas "durante as operações"
contra os adversários do regime. Insinua-se com isso uma
volta à história da carochinha de que Herzog se teria
suicidado. Ele foi o 38º "suicida" produzido nos desvãos
do regime, sendo o 18º "por enforcamento", e não seria
o último: no total, segundo contabilidade apresentada no
livro A Ditadura Encurralada, de Elio Gaspari, as Forças
Ilegais este o título que efetivamente lhes cabe
incrustadas no aparelho governamental produziriam 41 "suicidas",
vinte dos quais pela mesma modalidade do enforcamento. Dos vinte
que se "enforcaram", onze o teriam feito sem a ajuda de um vão
livre. Foi o caso de Herzog. A grade do cárcere onde se teria
pendurado ficava a 1,63 metro do chão. O instrumento utilizado
teria sido a "cinta do macacão que usava", sendo que os macacões
do DOI-Codi não tinham cinta.
3) As manifestações de indignação
pela nota do Exército, a começar pela do presidente
Lula, desencadearam explicações que desaguaram num
pântano de confusão e irresponsabilidade. O ministro
da Defesa não foi sequer consultado. O comandante do Exército
estava em viagem e também foi mantido à margem da
questão. A nota foi obra do Centro de Comunicação
Social do Exército. Mas não... não é
que se quis realmente dizer o que está ali dito... O Centro
de Comunicação limitou-se a uma resposta-padrão
para esses casos. Pronto. Eis-nos reduzidos a um ministro que não
ministra, um comandante que não comanda e um departamento
do Exército que reage com respostas-padrão, como se
fosse o serviço de atendimento ao consumidor de uma loja
de eletrodomésticos. Voltamos aos tempos que o já
citado Elio Gaspari, em seus livros sobre a ditadura, batizou de
"anarquia militar".
4) O fato de a nota ter sido produzida na
vigência do governo do PT, formado por opositores do regime
militar, não configura uma agravante, ao contrário
do que se poderia julgar à primeira vista. Seria igualmente
impertinente num governo do PFL. Grave é a nuvem de desconfiança
que espalha com respeito à completa adesão do Exército
ao regime democrático. Não que a arma abrigue golpistas
ou conspiradores. Nem que interfira no debate político como
era seu hábito no passado. Seu comportamento nesse sentido
tem sido exemplar. Mas moldar-se à democracia é também
submeter-se à primazia incontrastável do poder civil
simbolizado, no atual quadro institucional, pelo ministro
da Defesa. No caso da nota, ficou claro o que episódios anteriores
já deixavam entrever: o ministro da Defesa e o problema
não é este ou aquele titular do cargo ainda
é café-com-leite, nas brincadeiras dos profissionais
da farda.
Em resposta aos protestos do presidente, o
Exército divulgou uma segunda nota, desta vez assinada pelo
comandante, em que "lamenta" a morte de Herzog e afirma que a nota
anterior pecou pela "ausência de uma discussão interna
mais profunda". Era uma nota frouxa. Em vez de condenar de maneira
aberta a anterior, considerou-a apenas "não condizente com
o momento histórico atual". O governo deu-se por satisfeito.
Cabeças deveriam ter rolado, mas continuaram nos respectivos
pescoços. Tal desfecho mostrou que o passado ainda perturba
e que entre civis e militares prevalece, em prejuízo do funcionamento
pleno das instituições democráticas, uma relação
cheia de dedos.
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