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Cinema Choque
cultural Uma americana e um iraniano se enfrentam
com resultados trágicos em Casa de Areia e Névoa 
Isabela Boscov
Kathy
(Jennifer Connelly) está tão deprimida que nem abre mais sua correspondência.
Por causa disso, deixa de tomar conhecimento de um erro burocrático da
prefeitura e é despejada da casa que herdou do pai, seu único bem.
Já o ex-coronel da Força Aérea iraniana Massoud Behrani (Ben
Kingsley) se arruinou deliberadamente, para preservar a fachada de prosperidade
e garantir um bom casamento para a filha. Assim que a festa termina, ele usa seus
últimos 40 000 dólares para arrematar uma casa a de Kathy
num leilão. O plano de Behrani é vendê-la com algum
lucro, para pôr a família no prumo e mandar seu filho para a universidade.
O bangalô nos arredores de São Francisco, portanto, é tudo
o que resta para Kathy e para Behrani. Por causa dele, a ex-viciada que sobrevive
como faxineira e o imigrante iraniano que trabalha escondido na construção
civil e numa loja de conveniência irão se envolver numa tragédia
de dimensões gregas em Casa de Areia e Névoa (House
of Sand and Fog, Estados Unidos, 2003), a impressionante estréia na
direção do ucraniano Vadim Perelman, em cartaz a partir de sexta-feira
em São Paulo. Essa tragédia é
selada no momento em que, no escritório de sua advogada, Kathy diz que
a casa foi comprada por "um tal de Bohmeeny, ou Buhmany": o estrangeiro que nem
sequer tem um nome pronunciável passa imediatamente a ser o usurpador.
Vadim Perelman, que emigrou para a Itália e depois para o Canadá
ao ficar órfão de pai, aos 9 anos, foi menino de rua e ganhou uma
ficha por pequenos furtos antes de se tornar um bem-sucedido diretor de comerciais.
Seria natural que ele tomasse o partido do iraniano. Mas o que torna seu filme
tão forte é justamente a maneira como ele desperta todo tipo de
solidariedade e antipatia tanto pela fragilidade de Kathy quanto pelo desespero
implosivo de Behrani. Todos aqui têm razão e a perdem, e essa é
uma história que não pode acabar bem. Exceto para Kingsley, na mais
antológica de suas atuações, para a excelente Shohreh Aghdashloo,
que faz a mulher de Behrani, e para Perelman, cuja arrogância e capacidade
de fazer inimigos (Kingsley o comparou a um tanque soviético, como os que
tomaram Berlim) já foram perdoadas por uma indústria tão
carente de talentos verdadeiramente originais. |