Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Cinema
Choque cultural

Uma americana e um iraniano se
enfrentam com resultados trágicos
em Casa de Areia e Névoa


Isabela Boscov

Kathy (Jennifer Connelly) está tão deprimida que nem abre mais sua correspondência. Por causa disso, deixa de tomar conhecimento de um erro burocrático da prefeitura e é despejada da casa que herdou do pai, seu único bem. Já o ex-coronel da Força Aérea iraniana Massoud Behrani (Ben Kingsley) se arruinou deliberadamente, para preservar a fachada de prosperidade e garantir um bom casamento para a filha. Assim que a festa termina, ele usa seus últimos 40 000 dólares para arrematar uma casa – a de Kathy – num leilão. O plano de Behrani é vendê-la com algum lucro, para pôr a família no prumo e mandar seu filho para a universidade. O bangalô nos arredores de São Francisco, portanto, é tudo o que resta para Kathy e para Behrani. Por causa dele, a ex-viciada que sobrevive como faxineira e o imigrante iraniano que trabalha escondido na construção civil e numa loja de conveniência irão se envolver numa tragédia de dimensões gregas em Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog, Estados Unidos, 2003), a impressionante estréia na direção do ucraniano Vadim Perelman, em cartaz a partir de sexta-feira em São Paulo.

Essa tragédia é selada no momento em que, no escritório de sua advogada, Kathy diz que a casa foi comprada por "um tal de Bohmeeny, ou Buhmany": o estrangeiro que nem sequer tem um nome pronunciável passa imediatamente a ser o usurpador. Vadim Perelman, que emigrou para a Itália e depois para o Canadá ao ficar órfão de pai, aos 9 anos, foi menino de rua e ganhou uma ficha por pequenos furtos antes de se tornar um bem-sucedido diretor de comerciais. Seria natural que ele tomasse o partido do iraniano. Mas o que torna seu filme tão forte é justamente a maneira como ele desperta todo tipo de solidariedade e antipatia tanto pela fragilidade de Kathy quanto pelo desespero implosivo de Behrani. Todos aqui têm razão e a perdem, e essa é uma história que não pode acabar bem. Exceto para Kingsley, na mais antológica de suas atuações, para a excelente Shohreh Aghdashloo, que faz a mulher de Behrani, e para Perelman, cuja arrogância e capacidade de fazer inimigos (Kingsley o comparou a um tanque soviético, como os que tomaram Berlim) já foram perdoadas por uma indústria tão carente de talentos verdadeiramente originais.

 
 
 
 
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