Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Sociedade
O que querem as mulheres

Pesquisas mostram que brasileiras se
acham pouco atraentes e sonham com
uma vida que concilie sucesso profissional
com tempo para cuidar da família


Cynara Menezes

EXCLUSIVO ON-LINE
Outros dados das pesquisas
Abril/Ibope
Unilever

Ter sucesso profissional, colher os benefícios materiais da ascensão na carreira, mas ao mesmo tempo ser uma figura presente no dia-a-dia dos filhos e manter-se jovem, atraente e, não menos importante, equilibrada do ponto de vista emocional. Esses são os objetivos prioritários da porção feminina do Brasil, segundo uma pesquisa que ouviu 2.000 mulheres entre 18 e 49 anos, realizada pelo Ibope a pedido da Editora Abril. Trata-se de uma radiografia interessante pelo que mostra do presente e também pelo que projeta para o futuro imediato. Quando perguntadas sobre o que mais sonham ter nos próximos dez anos, nenhuma meta profissional aparece como prioridade. As mulheres dizem querer amadurecer esbanjando saúde, tendo mais tempo para os programas familiares e usufruindo uma vida sexual mais ativa (veja quadro ao lado). É um retrato bem diferente dos que emergiram nas duas décadas passadas, em pesquisas semelhantes, quando as mulheres desembarcavam no mercado de trabalho com apetite para conquistar espaço e respeito profissional – e colocavam a vida pessoal em segundo plano. "O trabalho continua valorizado, mas elas descobriram que não é excludente ao casamento e às relações familiares", diz a socióloga Sílvia Borelli, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

Retrato feminino

A pesquisa ajuda a desvendar – e a confirmar – outros aspectos da mentalidade feminina. Um deles é que as mulheres vislumbram um horizonte menos cor-de-rosa do que no passado. Elas acham que os casamentos vão durar menos e que haverá cada vez mais pessoas solitárias e sem filhos. Isso não as impede, no entanto, de nutrir o mesmo sonho de suas avós: oito de cada dez entrevistadas afirmam querer um bom casamento. Na hora de descrever o parceiro ideal, dizem estar em busca de um "companheiro" que dê provas de ser "responsável" e "fiel". Como as pioneiras que lutavam pela emancipação feminina na década de 60, as mulheres do início do século XXI continuam a usar os mesmos adjetivos para descrever os homens: autoritários, egoístas e exigentes.

As mulheres brasileiras, aponta a pesquisa feita pelo Ibope, também são muito vaidosas. Entre as suas prioridades, está a de "conquistar tempo para cuidar da aparência". A obsessão das brasileiras pelo físico fica ainda mais evidente quando se examinam os dados de uma segunda pesquisa, encomendada pela Unilever e conduzida pelas psicólogas Nancy Etcoff, da Universidade Harvard, e Susie Orbach, da London School of Economics. Dos dez países investigados, entre eles Estados Unidos, Inglaterra e França, o Brasil desponta como aquele em que as mulheres declaram estar mais preocupadas em ter um rosto bonito, a pele bem-cuidada, o corpo em forma e uma imagem sexy. É também o país campeão em consumo de produtos para unhas, tinturas de cabelo e hidratantes para o corpo. Outro número que impressiona: nada menos do que 58% das brasileiras afirmam que, caso a cirurgia plástica fosse gratuita, recorreriam imediatamente ao bisturi. "Considero esse dado chocante. A preocupação com a aparência é tão importante para as brasileiras que a cirurgia plástica virou parte do cotidiano", diz Susie Orbach, que tratou da princesa Diana quando ela sofria de bulimia. Compreende-se, assim, por que o Brasil se tornou o segundo país do mundo em número de plásticas, perdendo apenas para os Estados Unidos, onde as mulheres têm renda catorze vezes maior que as brasileiras.

Campeãs de vaidade
A comparação internacional mostra que as brasileiras são as mais preocupadas com a estética

O excesso de preocupação com a forma provoca um efeito colateral incômodo para as mulheres no Brasil. Segundo revela a pesquisa, elas vivem queixosas em relação ao que vêem no espelho. São as que mais se enxergam "gordinhas" e "pouco sexy", entre as mulheres nos dez países observados. Apenas 2% das brasileiras dizem achar-se bonitas, só ficando atrás do Japão nesse quesito (veja quadro na pág. ao lado). "Elas perseguem um ideal estético perfeito, que é irreal, e por isso estão insatisfeitas", observa Susie Orbach. A psicóloga inglesa está se referindo ao padrão de beleza das modelos que desfilam nas passarelas: magricelas de quadris estreitos, cabelo esticado e pele impecável. Uma sondagem recente feita entre jovens de 12 a 20 anos no Rio de Janeiro trouxe um dado inquietante sobre o assunto. Sete de cada dez meninas declaram fazer algum tipo de dieta para emagrecer, mesmo não tendo nenhum problema objetivo com a balança. As entrevistadas na pesquisa sobre a auto-imagem da mulher dizem não se sentir em nada identificadas com as mulheres glamourosas e de aparência perfeita que são exibidas nas propagandas da televisão. Se isso pode mudar? Dificilmente. A frustração feminina com a própria imagem e a conseqüente busca por uma aparência mais próxima dos padrões inculcados pela mídia alimentam uma indústria poderosa. Só no ano passado as brasileiras gastaram 17 bilhões de reais na compra de produtos cosméticos e de perfumaria. Não é fácil – e é bem caro – ser uma mulher moderna.

 

JAPONESAS: CAMPEÃS DA MODÉSTIA

Uma olhada superficial no estudo sobre a auto-imagem das mulheres conduzido pelas psicólogas Nancy Etcoff e Susie Orbach poderá levar à errônea conclusão de que as japonesas são as mulheres com a mais baixa auto-estima do mundo. Entrevistadas, nenhuma se define como "bonita" ou "bela" e apenas 23% afirmam estar felizes com sua "atratividade física" (nos demais países, a média de satisfação é de 71%). As japonesas também surgem como as mais descontentes em relação ao peso e à forma do próprio corpo (20%). Ocorre que, por trás desse aparente conflito com a imagem que as orientais vêem refletida no espelho, se esconde um fenômeno cultural. No Japão, a discrição é requisito obrigatório quando se trata de beleza feminina. Auto-elogios são considerados de mau gosto, enquanto a autodepreciação é tida como uma atitude elegante. Isso significa que, quando uma mulher nas ruas de Tóquio é perguntada se se considera "bela", tenderá a dizer que não – mesmo que pense o contrário. "Recorrer à autodepreciação para se esquivar de um elogio é uma característica da cultura japonesa", afirma Leiko Matsubara, professora de línguas orientais da Universidade de São Paulo. "Não dá para levar as conclusões do estudo ao pé da letra porque esse tipo de atitude faz parte do manual de boas maneiras local", diz. Um conhecido provérbio japonês tenta resumir a idéia: "Iwanu ga hana", algo como "Não falar é flor". Esse excesso de zelo na auto-avaliação da aparência não significa que as japonesas sejam despidas de vaidade. O interesse que elas demonstram pelas promessas da indústria da estética é prova disso. Na comparação entre dez países, as orientais surgem como campeãs no consumo de maquiagem. No ano passado, só o mercado de cremes para clarear a pele (para os japoneses, a alvura do rosto é um dos principais componentes da beleza feminina) movimentou 5 bilhões de dólares. Como se vê, sobra vaidade.

 

 
 
 
 
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