Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Eleições
"Dona Marta"
e o "Nefasto"

Marta e Maluf resolvem esquecer o
passado. Mas no presente as coisas
estão difíceis: a prefeita não decola
nas pesquisas, seu novo aliado vira
réu e seu marqueteiro é preso no Rio


Monica Weinberg e André Rizek


Alex Silva/AE
Carro de campanha com foto de Marta e Maluf: só Shakespeare para explicar isso


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Siga a trilha de Maluf

EXCLUSIVO ON-LINE
Especial Eleições 2004

A semana passada terminou mal para a candidata à reeleição para a prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy. Dez pontos atrás do tucano José Serra, segundo pesquisa do Datafolha – ou 14, de acordo com o Ibope –, a petista ainda teve de assistir a seu principal aliado ser atingido por um caminhão de denúncias e seu marqueteiro ir parar atrás das grades. O publicitário Duda Mendonça foi preso pela Polícia Federal na quinta-feira, no Rio de Janeiro, quando participava de uma rinha de galos – jogo de apostas que até 1998 configurava contravenção e que, a partir deste ano, passou a ser considerado crime ambiental. Dias antes, o ex-prefeito Paulo Maluf, agora aliado de Marta, havia sido oficialmente comunicado de que terá de responder a mais dois processos na Justiça, além dos 37 que já existem contra ele: um por improbidade administrativa, pelo qual poderá ser condenado a pagar a multa recorde de 5 bilhões de reais, e outro por evasão de divisas – este criminal, e que pode, portanto, levá-lo à cadeia (veja quadro). Por causa da ação de improbidade, Maluf e cinco familiares tiveram seus bens bloqueados, inclusive as ações da empresa Eucatex. A aterrissagem do duplo réu Maluf no palanque do PT foi recebida pelo partido com um misto de constrangimento e cinismo. Marta Suplicy chegou a declarar-se "surpresa" com o apoio do ex-prefeito – e ex-nefasto, ex-cafajeste, ex-rato, ex-pinóquio, como ela costumava chamar Maluf na campanha de 2000.


Nilton Fukuda/AE
Um caminhão de denúncias: processos contra Maluf reúnem mais de 130 000 documentos

Pode-se dizer que os eleitores também ficaram surpresos – mas sem aspas – com a parceria. Está certo que alianças entre partidos, no Brasil, sempre foram fruto muito mais de convergências de interesses do que de coincidências ideológicas. A união entre Paulo Maluf e Marta Suplicy, no entanto, extrapola os limites da tolerância por dois motivos. O primeiro é que o PT sempre se apresentou como exceção no festival de fisiologismo que assola a cena político-partidária nacional. O segundo é que a aliança dos dois adversários figadais ocorre em meio a boatos de que ela seria fruto de um trato firmado entre as duas partes ainda durante a campanha, segundo o qual Maluf pouparia os ataques a Marta e, em troca, contaria com a mãozinha do PT para suavizar sua situação na CPI do Banestado, em que também está sendo investigado. "O PT está dando um colete à prova de balas àquilo que simboliza o que há de mais ultrapassado na política brasileira: o malufismo", diz o cientista político Rubens Figueiredo. "É a aliança mais imoral da história democrática brasileira desde o fim da ditadura militar", acrescenta o filósofo Denis Rosenfield. A discrição envergonhada com que a militância do PT encarou a entrada de Maluf na campanha contrastou com o empenho com que o ex-prefeito resolveu cumprir seu papel de aliado. Ele participou de eventos de apoio à petista e espalhou por São Paulo uma frota de Kombis com fotos suas ao lado da prefeita – a ex-"Dona Marta", como Maluf a fustigava para deleite dos machistas. O esforço, no entanto, não alterou a preferência do seu eleitorado. A última pesquisa Datafolha mostra que 66% dos que votaram em Maluf no primeiro turno pretendem agora votar em Serra. Apenas 21% ficarão com Marta. A maior parte do eleitorado malufista também declarou desaprovar a aliança: 60% disseram que Maluf agiu mal. Ou seja, não foi só o PT que traiu o petismo ao buscar o apoio de Maluf – ao abraçar Marta, o próprio Maluf traiu o malufismo. Como escreveu Shakespeare em A Tempestade: "A miséria dá a conhecer aos homens estranhos aliados".

Não bastasse o pacto com Maluf, a prefeita petista voltou a fazer terrorismo eleitoral. Reafirmou nos palanques que o governo federal deixaria São Paulo à míngua na hipótese de uma vitória de Serra. O Planalto, mais uma vez, apressou-se em desmentir Marta. O fato é que a campanha da prefeita deixou as estratégias de marketing de lado para cair no pugilato puro e simples – de preferência, abaixo da linha da cintura. Mas, até o momento, nada dá resultado. As pesquisas divulgadas ao longo da semana mostraram que o reinício do horário eleitoral gratuito na TV não alterou o quadro em São Paulo: Serra mantém vantagem folgada sobre Marta. No comitê da petista, o baixo-astral provocado pelos números aumentou na quinta-feira, com a notícia da prisão de Duda Mendonça, no Rio de Janeiro. O marqueteiro é um dos sócios da rinha Clube Privé Cinco Estrelas, localizada no bairro carioca de Jacarepaguá e considerada a maior arena de brigas de galo do Brasil, com um movimento de apostas de quase 2 milhões de reais por evento (cada um deles pode durar três dias). No Clube Privé Cinco Estrelas, além de marqueteiros, marcam presença bicheiros e outras figuras da contravenção.

 

Marcelo Régua/AE
Jorge William/Ag. O Globo
"O Abominável Babu das Neves": o vereador petista foi preso com Duda (à direita, de barba)

À chegada da Polícia Federal, a rinha abrigava mais de 200 pessoas, entre fazendeiros, empresários e o policial civil e vereador do PT do Rio, o inacreditável Jorge Babu – mais conhecido como "O Abominável Babu das Neves" (a foto acima dispensa explicações). Não é a primeira vez que o marqueteiro do PT é flagrado numa rinha. Há cerca de três anos, o senador petista Aloizio Mercadante, sempre prestativo, ligou para o então governador Itamar Franco para liberá-lo de uma delegacia em Minas Gerais, onde o publicitário se encontrava detido pelo mesmo motivo. Desta vez, Duda também tomou a iniciativa de procurar os amigos ao ser flagrado em sua diversão favorita – não sem antes tentar uma carteirada, apresentando-se aos policiais como "assessor do presidente Lula". Da rinha, ligou para o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e para o secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Fernando Corrêa. Pouco adiantou. O ministro respondeu-lhe que a PF estava agindo dentro da lei. Duda descobriu, então, que lei é lei até para os amigos do rei. O segundo recomendou-lhe que procurasse um advogado. Depois de passar uma noite detido, o marqueteiro conseguiu ser solto mediante pagamento de fiança, mas deixou a delegacia indiciado por três crimes: formação de quadrilha, apologia ao crime e maus-tratos aos animais. E Marta viu-se obrigada a divulgar um comunicado surrealista, em que diz que "pessoalmente, sou contra a briga de galos". Foi realmente uma semana penosa.

Com reportagem de Marcelo Carneiro

 
 
 
 
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