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Eleições
"Dona Marta" e o "Nefasto"
Marta
e Maluf resolvem esquecer o passado. Mas no presente as coisas estão
difíceis: a prefeita não decola nas pesquisas, seu novo aliado
vira réu e seu marqueteiro é preso no Rio 
Monica Weinberg e André Rizek
Alex Silva/AE  |
| Carro de campanha com foto de Marta e Maluf: só
Shakespeare para explicar isso | A semana passada terminou mal para a candidata
à reeleição para a prefeitura de São Paulo, Marta
Suplicy. Dez pontos atrás do tucano José Serra, segundo pesquisa
do Datafolha ou 14, de acordo com o Ibope , a petista ainda teve
de assistir a seu principal aliado ser atingido por um caminhão de denúncias
e seu marqueteiro ir parar atrás das grades. O publicitário Duda
Mendonça foi preso pela Polícia Federal na quinta-feira, no Rio
de Janeiro, quando participava de uma rinha de galos jogo de apostas que
até 1998 configurava contravenção e que, a partir deste ano,
passou a ser considerado crime ambiental. Dias antes, o ex-prefeito Paulo Maluf,
agora aliado de Marta, havia sido oficialmente comunicado de que terá de
responder a mais dois processos na Justiça, além dos 37 que já
existem contra ele: um por improbidade administrativa, pelo qual poderá
ser condenado a pagar a multa recorde de 5 bilhões de reais, e outro por
evasão de divisas este criminal, e que pode, portanto, levá-lo
à cadeia (veja
quadro). Por causa da ação de improbidade, Maluf
e cinco familiares tiveram seus bens bloqueados, inclusive as ações
da empresa Eucatex. A aterrissagem do duplo réu Maluf no palanque do PT
foi recebida pelo partido com um misto de constrangimento e cinismo. Marta Suplicy
chegou a declarar-se "surpresa" com o apoio do ex-prefeito e ex-nefasto,
ex-cafajeste, ex-rato, ex-pinóquio, como ela costumava chamar Maluf na
campanha de 2000.
Nilton Fukuda/AE  |
| Um caminhão de denúncias: processos contra
Maluf reúnem mais de 130 000 documentos | Pode-se
dizer que os eleitores também ficaram surpresos mas sem aspas
com a parceria. Está certo que alianças entre partidos, no Brasil,
sempre foram fruto muito mais de convergências de interesses do que de coincidências
ideológicas. A união entre Paulo Maluf e Marta Suplicy, no entanto,
extrapola os limites da tolerância por dois motivos. O primeiro é
que o PT sempre se apresentou como exceção no festival de fisiologismo
que assola a cena político-partidária nacional. O segundo é
que a aliança dos dois adversários figadais ocorre em meio a boatos
de que ela seria fruto de um trato firmado entre as duas partes ainda durante
a campanha, segundo o qual Maluf pouparia os ataques a Marta e, em troca, contaria
com a mãozinha do PT para suavizar sua situação na CPI do
Banestado, em que também está sendo investigado. "O PT está
dando um colete à prova de balas àquilo que simboliza o que há
de mais ultrapassado na política brasileira: o malufismo", diz o cientista
político Rubens Figueiredo. "É a aliança mais imoral da história
democrática brasileira desde o fim da ditadura militar", acrescenta o filósofo
Denis Rosenfield. A discrição envergonhada com que a militância
do PT encarou a entrada de Maluf na campanha contrastou com o empenho com que
o ex-prefeito resolveu cumprir seu papel de aliado. Ele participou de eventos
de apoio à petista e espalhou por São Paulo uma frota de Kombis
com fotos suas ao lado da prefeita a ex-"Dona Marta", como Maluf a fustigava
para deleite dos machistas. O esforço, no entanto, não alterou a
preferência do seu eleitorado. A última pesquisa Datafolha mostra
que 66% dos que votaram em Maluf no primeiro turno pretendem agora votar em Serra.
Apenas 21% ficarão com Marta. A maior parte do eleitorado malufista também
declarou desaprovar a aliança: 60% disseram que Maluf agiu mal. Ou seja,
não foi só o PT que traiu o petismo ao buscar o apoio de Maluf
ao abraçar Marta, o próprio Maluf traiu o malufismo. Como escreveu
Shakespeare em A Tempestade: "A miséria dá a conhecer aos
homens estranhos aliados". Não
bastasse o pacto com Maluf, a prefeita petista voltou a fazer terrorismo eleitoral.
Reafirmou nos palanques que o governo federal deixaria São Paulo à
míngua na hipótese de uma vitória de Serra. O Planalto, mais
uma vez, apressou-se em desmentir Marta. O fato é que a campanha da prefeita
deixou as estratégias de marketing de lado para cair no pugilato puro e
simples de preferência, abaixo da linha da cintura. Mas, até
o momento, nada dá resultado. As pesquisas divulgadas ao longo da semana
mostraram que o reinício do horário eleitoral gratuito na TV não
alterou o quadro em São Paulo: Serra mantém vantagem folgada sobre
Marta. No comitê da petista, o baixo-astral provocado pelos números
aumentou na quinta-feira, com a notícia da prisão de Duda Mendonça,
no Rio de Janeiro. O marqueteiro é um dos sócios da rinha Clube
Privé Cinco Estrelas, localizada no bairro carioca de Jacarepaguá
e considerada a maior arena de brigas de galo do Brasil, com um movimento de apostas
de quase 2 milhões de reais por evento (cada um deles pode durar três
dias). No Clube Privé Cinco Estrelas, além de marqueteiros, marcam
presença bicheiros e outras figuras da contravenção.
Marcelo Régua/AE  | Jorge
William/Ag. O Globo  |
| "O Abominável Babu das Neves":
o vereador petista foi preso com Duda (à direita, de barba) |
À chegada da Polícia Federal, a rinha
abrigava mais de 200 pessoas, entre fazendeiros, empresários e o policial
civil e vereador do PT do Rio, o inacreditável Jorge Babu mais conhecido
como "O Abominável Babu das Neves" (a foto acima dispensa explicações).
Não é a primeira vez que o marqueteiro do PT é flagrado numa
rinha. Há cerca de três anos, o senador petista Aloizio Mercadante,
sempre prestativo, ligou para o então governador Itamar Franco para liberá-lo
de uma delegacia em Minas Gerais, onde o publicitário se encontrava detido
pelo mesmo motivo. Desta vez, Duda também tomou a iniciativa de procurar
os amigos ao ser flagrado em sua diversão favorita não sem
antes tentar uma carteirada, apresentando-se aos policiais como "assessor do presidente
Lula". Da rinha, ligou para o ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, e para o secretário nacional de Segurança Pública,
Luiz Fernando Corrêa. Pouco adiantou. O ministro respondeu-lhe que a PF
estava agindo dentro da lei. Duda descobriu, então, que lei é lei
até para os amigos do rei. O segundo recomendou-lhe que procurasse um advogado.
Depois de passar uma noite detido, o marqueteiro conseguiu ser solto mediante
pagamento de fiança, mas deixou a delegacia indiciado por três crimes:
formação de quadrilha, apologia ao crime e maus-tratos aos animais.
E Marta viu-se obrigada a divulgar um comunicado surrealista, em que diz que "pessoalmente,
sou contra a briga de galos". Foi realmente uma semana penosa. Com
reportagem de Marcelo Carneiro
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