Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Nothas

O dramático aumento, no mundo inteiro, de assaltos a bancos, joalherias e museus, ou a qualquer lugar em que haja fortunas em jóias, quadros e outras preciosidades, é assustador. Mas tem também o efeito colateral – a vida dos receptadores tornou-se estressante. Nos tempos de Sherlock Holmes todos os assaltantes eram presos no fim da história, de modo que a solicitação ao esforço físico e psíquico dos interceptadores não era tão grande. Hoje, me disse um interceptador, aliás deputado sem fins lucrativos, há, entre os profissionais, sério problema de armazenagem. E ponderou: "Muitos, secretamente, acabam depositando tudo nos próprios bancos assaltados".

 

A toda hora vocês são admoestados (!) a não prejulgarem, esperarem que tudo seja apurado a respeito de alguns, ou muitos, cidadãos que nos dirigem e sobre quem, reiteradamente, caem suspeitas de tudo. Acho que o governo tem toda a razão. E dou mais razão ainda quando vejo Lula, impertérrito, e todo o PT, imperterritíssimo, sem pré ou pós-julgamento, trocarem beijos, abraços e figurinhas com Newton Cardoso, Maluf, Jefferson (que não se perca pelo nome) e Quércia, sobre os quais já há investigações, inquéritos, processos e indiciamentos há mais de dez anos. E nada ficou provado. Só não entendo o PT não ter incluído no grupo o Jader Barbalho no momento em que mais precisamos dele.

 

Pois é; a coisa anda preta, o mar tá brabo, o barco meio à deriva, ninguém sabe mais quem comanda e, como a natureza, quem não sabe?, abhorret vacuum, abomina o vazio, é preciso encontrar quem o preencha. Por isso consulto meu pequeno livro de códigos, sinais e comportamentos em caso de perigo, terremotos, maremotos e apagões. O código é complexo – não pensem que é simples não. Mas temos que enfrentá-lo. Folheio, enquanto me pergunto, atarantado, perdido nesse marzão de leis e ondas – como tem onda! tsunamis gigantescas, kanagawes traiçoeiras, capazes de engolir qualquer um – sobre qual é o meu dever, como cidadão e marinheiro (sou vice-campeão mundial da pesca do atum), e qual atitude a tomar. Curiosamente, na lei do mar, ainda que pareça incrível, o mais urgente não é salvar o barco nem enquadrar o comandante – medrou? foi incompetente?, relapso? bebeu mal? – mas avisar os acionistas, isto é, os donos, quase sempre de fora, alienígenas, absentee-landlords, shiplords – em suma, multinacionalmas. A lei do mar é, mais do que qualquer outra, a lei da selva. Líquida e certa. Quem manda, dentro e fora das águas, realística e metaforicamente, é o tubarão.

 

 
 
 
 
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