Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Diogo Mainardi
Gustavo Franco
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Mônica Dallari
"Eduardo destravou"

A namorada de Eduardo Suplicy diz
que o senador mudou para melhor
após a separação – mas que o mesmo
não aconteceu com Marta


Cynara Menezes

Roberto Setton

"O Eduardo está até falando melhor. O Suplicy de 1985 tinha de gravar a propaganda eleitoral vinte vezes. Agora, é diferente"

Vem de berço a ligação da jornalista Mônica Dallari com a política. Filha do jurista Dalmo de Abreu Dallari – militante na área dos direitos humanos na época do regime militar e amigo do presidente Lula desde quando ele era um líder operário –, ela começou a freqüentar o ambiente de esquerda ainda criança. Aos 8 anos, perdeu a mãe e passou a acompanhar o pai em suas andanças. Soa natural, portanto, que se arrisque a analisar – e criticar – os rumos da campanha (para ela "equivocada") da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, ex-mulher de seu atual namorado, o senador Eduardo Suplicy. Divorciada, 40 anos e mãe de três filhos, Mônica – uma morena bonita, esbelta, gentil e educada – conheceu o senador quando era ainda estudante. Hoje, um ano e meio após o início do namoro, deixa claro que tem por Suplicy, além de paixão, profunda admiração. Acha lindo, por exemplo, e dá "o maior apoio", quando ele se põe a cantar sua música preferida, Blowin' in the Wind – um costume que irritava a prefeita. Mônica recebeu VEJA em sua casa, em São Paulo, para a seguinte entrevista.

Veja – A senhora e o senador Eduardo Suplicy mantiveram o namoro em sigilo por algum tempo. É verdade que o presidente Lula pediu a ele que assumisse o romance para não prejudicar a candidatura da prefeita Marta Suplicy?
Mônica – Existem algumas histórias que, embora não sejam verdadeiras, viram verdade, e não adianta brigar contra elas. Posso falar duzentas vezes que não é verdade que não adianta. O que o Lula pediu foi que o Eduardo ajudasse a Marta no que fosse preciso. Outra história que andou circulando é a de que teria havido uma briga entre o Supla (filho do senador e da prefeita) e o Favre (Luis Favre, o atual marido de Marta). Volta e meia esse boato ressurge, e não adianta desmentir.

Veja – A senhora pensou em votar em Luiza Erundina no primeiro turno. Por quê?
Mônica – Meu pai e meu irmão foram secretários dela. Pensei em votar na Luiza pelo que ela representava, mas não gostei do acordo com o PMDB e das críticas que ela faz ao governo Lula, que acho muito rancorosas. Votei na Marta e vou votar nela no segundo turno absolutamente convicta de que é a melhor candidata.

Veja – A senhora acha que Marta vai ganhar?
Mônica – Está bem difícil, mas não é impossível. O problema é que a campanha do PT no segundo turno está equivocada, privilegiando ataques, e não propostas.

Veja – Se ela perder, terá sido por causa dessa campanha equivocada?
Mônica – Se perder, acho que terá sido pela campanha equivocada e também por algumas posturas adotadas por ela durante o governo, que criaram essa imagem de arrogância.

Veja – Que posturas são essas?
Mônica – O relacionamento com a imprensa, por exemplo. Episódios como a discussão que ela teve com aquela dentista na época da enchente cristalizaram uma imagem de que ela não estava aberta a críticas. Foi péssimo. Acho que houve também uma mudança muito radical da figura dela em relação ao que era antes de 2000.

Veja – Que mudanças?
Mônica – O comportamento, os lugares que passou a freqüentar, as roupas que passou a vestir. Uma mudança que não foi bem digerida.

Veja – Acha que ela passou a se vestir com mais ostentação?
Mônica – Muito mais. Passou a ter outras amizades, transformou o Antiquarius – um dos cinco restaurantes mais caros da cidade – em seu ponto de encontro. Tudo isso conta.

Veja – Há influência do atual marido, Luis Favre, nisso?
Mônica – Acho que sim. Parece que ele quer transformá-la em uma Evita.

Veja – A senhora acha que Favre contribui para o alto índice de rejeição de Marta entre os eleitores?
Mônica – Acho que ele fica numa posição em que, inevitavelmente, acaba sendo muito comparado ao Eduardo – uma pessoa muito querida, que tem história, uma confiança das pessoas muito grande. É uma comparação em que o Favre perde, não tem a menor dúvida. Eu diria que ele perde em todos os quesitos.

Veja – Até nos físicos?
Mônica – Para mim, especialmente nos físicos. Em simpatia, ele também perde.

Veja – O que a senhora acha de a prefeita ter feito plástica, usar Botox?
Mônica – Às vezes até assusta, e as pessoas comentam muito: "Nossa, ela fez de novo". Ela sempre foi bonita, acho que não teria necessidade de fazer tantas coisas. Mas, se é feliz com isso, é o que vale.

Veja – A senhora faria?
Mônica – Não. É óbvio que a gente acorda com a cara amassada e pensa: "Poderia ter um nariz assim, o olho daquele jeito..." Depois de três filhos, tirar a barriguinha, as olheiras... Não vou falar que nunca vou fazer, mas ainda não pensei nisso. Vai saber o que pode acontecer daqui a cinco anos no ponto em que se aplicou Botox? Fica endurecido, enrijece a musculatura.

Veja – Quando a senhora conheceu o senador?
Mônica – No fim de 1984, há vinte anos, por meio de um amigo comum. O Eduardo estava começando a campanha para prefeito e precisava de alguém para ficar em casa atendendo ao telefone de manhã, sem remuneração. Eu estava no 2º ano de jornalismo e resolvi aceitar. De manhã, ficava na casa dele atendendo ao telefone e, de tarde, saía para fazer campanha.

Veja – A senhora já o achava um homem interessante?
Mônica – Não, não teve isso. Foi muito mais agora. Mas temos uma história parecida e uma facilidade imensa de entendimento: ele vem de uma família italiana tradicional, eu também. As irmãs dele estudaram no Des Oiseaux, assim como a Marta. Minha mãe já havia estudado nesse colégio, que é supertradicional aqui em São Paulo. É uma formação parecida. Minha família por parte de mãe é mineira, de sobrenome Pinheiro, que tem uma longa tradição de políticos. Meu pai teve uma militância muito forte na área de direitos humanos. Ficou viúvo cedo, eu tinha 8 anos quando minha mãe morreu. Desde pequena eu o acompanhava. Cresci no meio da política.

Veja – O senador já manifestou o desejo de concorrer à Presidência, assim como a prefeita. É uma situação complicada, não?
Mônica – Ambos têm idéias parecidas, mas a forma de fazer política é muito diferente. O cenário da campanha em São Paulo é um exemplo. A linha que está sendo adotada no segundo turno – de ataques a José Serra, de agressividade, de composição política –, isso é nitidamente o oposto do que o Eduardo faria. Ele trabalharia numa linha muito mais propositiva e seria mais crítico em relação a apoios como o do Maluf, que tem um histórico complicado. Eu vi uma foto no jornal que chama atenção: a Marta em uma Kombi com um cartaz "Marta e Maluf juntos". É uma coisa difícil de digerir. É assustador. E ela tem o que mostrar: o Eduardo levantou muitos números. Ela tem um trabalho de inclusão social que devia ser mostrado e não aparece na campanha.

Veja – O que a senhora acha da participação do senador na campanha?
Mônica – Não acho que ele tinha de estar em todos os cantos, 24 horas, mas tinha de participar. E uma coisa que tem de ser dita é que ele sofreu um desgaste por isso. Houve pessoas que admiraram esse comportamento, mas houve muita crítica também. Muita gente falou: não voto mais em você. Teve reclamação de eleitores que achavam que ela não merecia o apoio dele, a dedicação. É uma coisa impressionante a popularidade do Eduardo, como ele é querido. Estivemos em Fortaleza recentemente em um encontro com 3 000 pessoas e ele recebeu uma ovação de dois minutos ininterruptos na hora em que entrou, com as pessoas de pé. Na hora em que saiu, era uma aglomeração para tirar fotos. As mulheres ficam enlouquecidas.

Veja – O que o senador tem que agrada tanto?
Mônica – Eu perguntei a um amigo nosso: "O que será que as mulheres vêem nele? Vêem a figura de um pai ou de um filho?" E ele respondeu: "É a Santíssima Trindade – o pai, o filho e o Espírito Santo".

Veja – A senhora tem ciúme?
Mônica – Quando é alguma coisa que ele sabe que vai me chatear, normalmente conta antes, como foi o caso do beijo na (senadora) Heloísa Helena. Sei da importância que ela teve para ele no processo de separação, mas levei o maior susto assim mesmo. Disse: "Mas, Eduardo, você falou que era um beijinho e veio aquela foto enorme!" Pela posição da foto, foi difícil acreditar que não era um beijo de amor.

Veja – E ciúme da ex-mulher?
Mônica – Não. Também passei por um casamento que foi muito bom, a gente fica mais madura. Eu tenho noção da importância da Marta na vida do Eduardo, mas também estou certa de que isso passou. Tenho absoluta segurança do quanto ele gosta de mim e de que hoje a questão amorosa com ela está resolvida. Às vezes me irrito com ela, e com o PT também, nos momentos em que ele é tratado com desrespeito. Como naquele caso em que ela o mandou calar a boca num evento público. Fiquei profundamente irritada. Acho que ele não tinha se dado conta de que ia sair nos jornais e relevou. E talvez ela esteja tão acostumada a tratá-lo dessa maneira que também não se deu conta. Mas é algo que não aconteceu mais e que não vai acontecer mais. Ele tem de ser respeitado como pessoa, como senador. E é incapaz de fazer coisas como essa. Sempre foi de uma extrema gentileza para com Marta e deu muitas demonstrações de civilidade – inclusive quando enviou uma carta ao Lula para dizer que ele se sentisse à vontade para aceitar o convite dela de ser seu padrinho de casamento. Não tem nada que me irrite mais do que quando eu vejo que o Eduardo está sendo desrespeitado.

Veja – A senhora deu bronca nele nesse dia?
Mônica – Bronca, não, mas falei, irritada: "Como é que acontece uma coisa dessas? É um absurdo, não tem porquê esse tipo de comportamento deselegante com você".

Veja – Como é sua relação com os filhos dele?
Mônica – Eles já estão grandes. Nós nos relacionamos socialmente.

Veja – E a do senador com os seus?
Mônica – Agora estão convivendo mais. Ele já foi ver uma peça infantil conosco, fomos a um show de hip hop e ele deu um jogo de botão de presente aos meninos no Dia das Crianças. Outro dia ficou chutando bola com eles. Tem uma coisa de um apelo tremendo, que ajudou muito na escola: eles falam que agora são irmãos do Supla. Acham o máximo.

Veja – O senador, apesar de ser Matarazzo, não é um homem rico...
Mônica – É uma coisa incrível. As pessoas acham que o Eduardo é muito rico, mas ele vive numa pindaíba danada. Tem um patrimônio que é a casa deixada pelo pai, mas vive com o salário de senador. Não tem folga financeira nenhuma. A casa em que morava com a Marta foi posta à venda e ele está numa muito menor, pagando aluguel. Vive no vermelho.

Veja – Tem alguma coisa que a surpreendeu nele?
Mônica – Ao mesmo tempo que é superdistraído, avoado, é muito organizado. Por exemplo: quando vai tirar a roupa, põe direitinho no cabide.

Veja – Quem seduziu quem?
Mônica – Acho que foi ele. O Eduardo fala que sempre me achou muito bonita. A gente começou a sair, ir ao cinema, ele olhava e falava: "Acho que Deus fez você para mim". Achei tão bonito isso...

Veja – Pensam em se casar?
Mônica – Decidimos que não vamos nos casar. Eu tenho crianças pequenas, quero preservá-las. O Eduardo tem uma vida superagitada. A dinâmica de uma casa com criança é uma coisa, com político é outra: um entra-e-sai o tempo todo, telefone tocando. Não quero isso para os meus filhos. Namorar está ótimo.

Veja – Ele fala muito do projeto Renda Mínima com a senhora?
Mônica – Muito. Mas, quando exagera, dou um chilique, até porque tem tantas outras coisas que ele fez! Eu digo: "Parece que você só pensa nisso". Dou um toque, porque enche o saco.

Veja – Depois que passou a namorá-la, ele mudou em algum aspecto?
Mônica – Sinceramente, mudou muito. Hoje, percebo que escuta mais. Também é impressionante – e ele mesmo acha – como depois da separação está falando melhor. O Suplicy de 1985 tinha de gravar a propaganda eleitoral vinte vezes para falar no tempo previsto. Agora, é completamente diferente.

Veja – Por que isso aconteceu?
Mônica – Acho que ele destravou. Na questão de cantar, por exemplo. Aonde ele vai, pedem que cante Blowin' in the Wind – e ele canta. A impressão que eu tenho é que ele se sentia receoso de cantar por um excesso de crítica por parte da Marta e ficava se policiando. Hoje, ele tem mais tranqüilidade de ação. E eu dou o maior apoio.

 
 
 
 
topovoltar