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Carta ao leitor
A CPI e a chantagem
Claudio Versiani
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| CPI do caso Collor, em 1992: uma arma institucional
ameaçada de desmoralização |
As comissões parlamentares de inquérito
(CPIs) não são uma invenção brasileira
mas foram aqui instrumentos de aprimoramento institucional. Na década
passada, o trabalho de CPIs ajudou a apear do governo um presidente
acusado de corrupção, Fernando Collor, e a limpar
o Congresso de deputados federais dedicados a assaltar o Erário,
uma facção que ficou conhecida como "os anões
do Orçamento". Infelizmente, as CPIs muitas vezes se prestam
apenas ao teatro de parlamentares que as utilizam para defender
os próprios interesses como se advogassem pela causa pública.
Recentemente a CPI do Banestado se transformou em arma de chantagem.
Membros daquela CPI tiveram acesso a 400.000
operações de câmbio registradas no Banco Central.
Eles foram acusados de utilizar essas informações,
a imensa maioria referente a operações absolutamente
legais, para montar dossiês contra adversários políticos.
Uma reportagem de VEJA desta semana relata
outro assombroso caso de degeneração de uma CPI. O
trabalho jornalístico feito pelo repórter Policarpo
Junior, respaldado em mais de cinco horas de gravações,
mostra que deputados fluminenses vinham negociando a venda de indulgências
a um dos principais acusados da CPI da Loterj, formada na Assembléia
Legislativa do Rio de Janeiro para investigar as relações
entre Waldomiro Diniz e o empresário da jogatina Carlos Augusto
Ramos, conhecido como "Carlinhos Cachoeira", dono de máquinas
de apostas lotéricas on-line. Em 2002, quando Waldomiro Diniz
presidia a empresa de loterias estaduais do Rio de Janeiro, a Loterj,
pediu a Cachoeira dinheiro para campanhas eleitorais e para ele
próprio. A revelação do escândalo, oito
meses atrás, levou à demissão de Diniz do cargo
que ocupava no Palácio do Planalto, respondendo diretamente
a José Dirceu, ministro da Casa Civil. A reportagem mostra
que os deputados tentaram arrancar 1 milhão de dólares
para não incluir o nome de Cachoeira no relatório
final da investigação e, mais tarde, outros 4 milhões
para retirar o pedido de prisão preventiva contra ele. O
episódio é ainda mais vergonhoso pelo uso de uma CPI
não apenas para fins políticos escusos mas para obtenção
de ganho financeiro direto.
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