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Ponto
de vista: Stephen Kanitz A
derrota dos intelectuais
"Corremos o risco
de o povo, os políticos, os governantes não mais
acreditarem na manutenção da classe
intelectual" A grande derrotada nestas
eleições presidenciais foi a classe dos intelectuais deste país,
que nitidamente perdeu espaço e poder. Os intelectuais criticaram Lula
com sua política econômica de juros altos, dizendo que estava tudo
errado, inclusive companheiros de partido, advertindo que com essa política
ele jamais seria reeleito. Lula contrariou a todos. Apostou em manter a inflação
baixa, e o resultado nas pesquisas está aí.
Os intelectuais agora terão tempo suficiente para responder à seguinte
questão: se os juros altos beneficiam os ricos e prejudicam os pobres,
por que a grande maioria dos ricos e a classe média estão preferindo
Alckmin e os pobres, Lula? O próprio PSDB
se cansou de sua ala intelectual ao escolher Geraldo Alckmin. Os intelectuais
que sobraram no PSDB não conseguiram alinhavar um plano de governo até
quatro dias atrás, quinze dias antes das eleições. Ultimamente,
o que caracterizou nossos intelectuais foi o silêncio. Eles mesmos admitiram
essa constatação. Os mais independentes se limitaram a manifestar
sua indignação diante da corrupção sem ao menos apresentar
um esboço de solução. Não vi ninguém sugerir
aumento das verbas para cursos superiores de contabilidade, auditoria e fiscalização,
dizimadas durante o governo militar.
Ilustração
Atomica Studio
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Todo
país precisa de pessoas pensantes de várias disciplinas para, juntas,
encontrar soluções para suas aflições. Os Estados
Unidos devem muito a seus think tanks, como Brookings Institute, NBER,
Russell Sage Foundation, muitos criados em 1910 e que contribuíram para
o desenvolvimento do país. Leiam The Idea Brokers, de James A. Smith.
Talvez seja por isso que o Brasil está à deriva, sem rumo e sem
projeto. Pesquisem os sites de nossas principais universidades e procurem as "soluções
para a corrupção", "soluções para os juros altos",
"soluções para a questão da previdência", "soluções
para fazer o Brasil crescer".
Quando muito encontraremos
papers de um professor ou outro, raramente uma solução multidisciplinar
incluindo direito, economia, administração, demografia, sociologia,
medicina, atuária, só para citar as áreas que deveriam se
reunir para achar uma saída para a previdência, por exemplo.
Nossos planos de combate à inflação não foram criados
por universidades com o concurso de psicólogos, contadores de custos, administradores,
advogados, publicitários, economistas de várias escolas, como deveria
ter ocorrido. O mais drástico dos planos, o Plano Collor, foi elaborado
às pressas por três economistas enfurnados num hotel.
O cerne do conceito de universidade é justamente congregar intelectuais
num mesmo lugar ou "universo", para que eles pesquisem e proponham soluções
em conjunto. Se fosse para todos ficarem enfurnados em suas faculdades, não
necessitaríamos de universidades. Quando eles assinam algo em conjunto,
são muitas vezes abaixo-assinados ou artigos que não vão
além da crítica, destrutiva de preferência, ou platitudes
como "precisamos aumentar os gastos com a educação".
Nossos intelectuais, com notórias exceções, têm muita
dificuldade para desenvolver trabalhos em grupo. A grande maioria é no
fundo individualista, egocêntrica, vaidosa e persegue seus interesses pessoais
de pesquisa. Muitas das qualidades que eles próprios criticam e odeiam.
No setor privado, quem não sabe trabalhar
em equipe ou em grupo não mantém o emprego nem um dia sequer. Não
é esse o tipo de intelectual de que o Brasil desesperadamente necessita.
Intelectuais custam caro. Sustentá-los para que fiquem pensando por nós
nas faculdades é um luxo que somente países desenvolvidos têm
condições de custear. Nossos intelectuais têm de mostrar mais
eficiência e capacidade de cooperação entre si. Num país
pobre, eles precisam justificar cada centavo que o povo neles deposita. Um recente
estudo da OCDE mostra que o Brasil é o país que mais gasta com universidades
e não tem o retorno que deveria. Esse silêncio,
essa flagrante omissão no especificar soluções multidisciplinares,
em entrar nos detalhes, a tendência de ser simplesmente contra alguma coisa,
não justifica o salário. Corremos o risco de o povo, os políticos,
os governantes não mais acreditarem na manutenção da classe
intelectual. Stephen Kanitz é
formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)
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