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Cinema Chapeuzinho
se vinga Aflitivo e original, MeninaMá.com
vira de cabeça para baixo e do avesso um cenário de abuso
infantil 
Isabela Boscov
No inusitado MeninaMá.com
(Hard Candy, Estados Unidos, 2005), desde sexta-feira em cartaz
no país, Hayley, de 14 anos, troca mensagens apimentadas pela internet
com Jeff, um fotógrafo de 32 anos. Uma coisa leva à outra, e os
dois combinam um encontro em terreno neutro e respeitável um café.
Hayley é miúda e frágil, mas surpreendentemente articulada
para sua idade. Jeff se mantém no limite entre o flerte e a cautela. Depois
de relutar, acaba concordando em levar a garota para conhecer sua casa. Lá,
serve suco de laranja à convidada, mas não a impede de adicionar
vodca à bebida. Diz que suas fotos de ninfetas espalhadas pelas paredes
são estritamente profissionais, mas ainda assim deixa que Hayley comece
a se despir para sua câmera. E nada do que se segue é o que se espera.
O diretor David Slade e o roteirista Brian Nelson viram do avesso esse cenário
sugestivo de pedofilia, colocam-no de ponta-cabeça, chacoalham-no um pouco
mais e, em duas horas de provocação e tensão ininterruptas,
põem o espectador frente a frente com todas as emoções mais
obscuras associadas à sexualização precoce.
Hayley, enfim, é uma Chapeuzinho Vermelho com fúria de vingança,
e está mais no controle da situação do que se poderia supor.
É ela quem acrescenta uma droga ao drinque do fotógrafo, e não
o contrário. Quando ele acorda, amarrado a uma cadeira, descobre que a
garota está convencida de que, em algum lugar da casa, ele esconde pornografia
infantil e, portanto, oculta também sua própria perversão.
O pânico a que Jeff é submetido culmina numa cena longa e aflitiva,
envolvendo um bisturi, que provocou reações extremas por parte da
platéia masculina durante a exibição de MeninaMá.com
no Festival de Sundance (sem dúvida, exacerbadas pelas atuações
intrépidas de Ellen Page e Patrick Wilson). "Inúmeros filmes mostram
um homem ameaçando uma mulher com uma faca, e eles nunca despertam esse
tipo de resposta. Se uma mulher ameaça um homem, porém, a testosterona
ferve", pondera o diretor. Há muito mais do que isso em jogo, no entanto,
entre Hayley e Jeff. A certa altura, fica impossível dizer quem aqui é
a vítima, do prisma psicológico, e quem é o algoz. O que
é certo é que, mesmo que esteja correta em suas suspeitas, a protagonista
sairá da experiência transformada em algo que não se quer
para uma adolescente, tanto quanto não se deseja que ela seja alvo de abuso.
O que, assim como ocorre em relação a Sobre Meninos e Lobos,
de Clint Eastwood, é uma demonstração aterradora dos ciclos
de violência que a pedofilia engendra. |