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Edição 1975 . 27 de setembro de 2006

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Medicina
Trocas mais garantidas

Novas técnicas de transplante permitem
o compartilhamento de um único órgão
e diminuem os riscos de rejeição


Giuliana Bergamo


Fotos Carol do Valle
Fotos Carol do Valle
A aposentada Maria das Graças, de 54 anos, recebeu 70% do fígado de uma jovem morta num acidente, enquanto Emylli dos Santos, de 2 anos, recebeu os outros 30% do mesmo órgão: a fila deve andar mais rápido


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Eles vivem mais

EXCLUSIVO ON-LINE
Mais sobre transplantes em VEJA Saúde

Passava das 2 horas da madrugada de 1º de setembro quando tocou o celular da mãe de Emylli dos Santos, de 2 anos. Do outro lado da linha, uma enfermeira anunciava: "Já temos um fígado, Emylli pode ser operada". A menina era a primeira na fila da Central de Transplantes de São Paulo. Vítima de uma doença que leva à falência hepática, estava à espera de um órgão desde o início do ano. Se Emylli não tivesse se submetido a um transplante, dificilmente chegaria aos 3 anos. Ainda naquela madrugada, quase ao mesmo tempo, foi a vez de a aposentada Maria das Graças Costa, de 54, receber a notícia de que havia um fígado à sua disposição. Uma hepatite C levou-a para a lista de transplantes em julho de 2004. Durante a manhã, Maria das Graças e Emylli foram para a mesa de cirurgia para receber partes de um mesmo fígado – o de uma jovem de 22 anos, morta num acidente de carro dias antes. Maria das Graças ficou com 70% do órgão e Emylli, com os outros 30%. Conhecida como split (dividir, em inglês), a partilha de um único fígado entre dois receptores é um procedimento novo no Brasil. Graças a ele, Emylli não teve de esperar pelo órgão de uma criança (o que é raro), e a operação de Maria das Graças foi realizada três meses antes do previsto – o que não só trouxe alívio para as pacientes e sua família como acelerou a fila de espera por um transplante de fígado.

Emylli e Maria das Graças são beneficiárias de uma área de medicina – a de transplantes – que caminha a passos largos. "Já vencemos o desafio de garantir a vida dos transplantados", diz a nefrologista Maria Cristina Castro, presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Atualmente, 80% dos pacientes que recebem um novo coração, por exemplo, estão vivos passados três anos da cirurgia (veja quadro). Esse progresso deu-se sobretudo graças ao desenvolvimento de medicamentos imunossupressores que evitam a rejeição do órgão transplantado. Hoje, eles são mais específicos: atuam diretamente no mecanismo imunológico responsável por deflagrar o ataque do organismo contra o novo órgão. Nos anos 90, de cada 100 transplantes, cinco resultavam na perda do órgão por rejeição. Índice que cai para apenas 1% nos dias que correm.

O objetivo, agora, é reduzir drasticamente o tempo de espera dos pacientes. O compartilhamento de órgãos é um caminho fantástico nesse sentido. A expectativa é que, com o split, aumente em 14% a quantidade de transplantes hepáticos a curto prazo. Ainda na área do transplante de fígado, uma das inovações mais notáveis é uma máquina chamada Mars. Ela se destina aos portadores de hepatite fulminante. Depois de instalada, a doença pode levar à morte em até uma semana. Como se fosse uma máquina de hemodiálise, a Mars filtra as toxinas do sangue, o que permite que esses doentes se mantenham vivos até a cirurgia.

Essas novidades, descritas em seus aspectos principais ao longo desta reportagem, são especialmente importantes num país como o Brasil. Aqui, o maior entrave a um programa decente de transplantes não é a falta de doadores, e sim falhas no sistema de captação e distribuição de órgãos. Só para se ter uma idéia, se todas as mortes encefálicas de potenciais doadores fossem registradas, o número de transplantes duplicaria. Há 64 000 brasileiros na fila por um órgão – 10% a mais do que em 2005. Nos primeiros seis meses deste ano, no entanto, foram realizadas cerca de 8 500 cirurgias. Ou seja, apenas 13% dos pacientes foram atendidos.

 

RIM E PÂNCREAS

Mara Rossilho, de 41 anos, era uma paciente "intransplantável", mas, graças à limpeza dos anticorpos de seu organismo, ela pôde receber o rim de sua mãe

Até 10% dos pacientes à espera de um rim possuem anticorpos contra a maioria dos doadores. No jargão médico, eles são considerados como quase "intransplantáveis". Em caso de cirurgia, o novo órgão entra em falência ainda com o receptor na mesa de operação. A rotina imposta a esses doentes é penosa. Eles são submetidos a hemodiálise várias vezes por semana, têm uma série de restrições alimentares e não podem beber nenhum tipo de líquido – para mitigar a sede, molham os lábios. Dois novos procedimentos fazem uma espécie de faxina no sistema imunológico dos "intransplantáveis" a fim de remover os anticorpos e, dessa forma, habilitá-los para o transplante. Um deles consiste em filtrar o sangue do doente numa máquina até remover a maior parte dos anticorpos. Pela outra técnica, o paciente recebe injeções de imunoglobulinas polivalentes, substâncias que inibem a produção de anticorpos. Desenvolvidas há cinco anos por pesquisadores americanos, essas medidas fazem com que um paciente refratário a 95% dos doadores em potencial passe a ter anticorpos contra apenas 30% deles – aumentando, assim, a sua chance de receber um novo rim.

Depois de quatro anos em hemodiálise, vítima de insuficiência renal, a paulista Mara Rossilho, de 41 anos, já tinha perdido a esperança. "Um dia, aparei minhas sobrancelhas com medo de morrer feia", diz. Por causa das inúmeras transfusões que recebeu durante as sessões de diálise e de quatro gestações malsucedidas, Mara era uma paciente intransplantável. Em 2003, foi incorporada aos testes com injeções de imunoglobulina realizados pela equipe do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Depois de três aplicações, estava pronta para o transplante. Recebeu um dos rins de sua mãe e hoje leva uma vida normal. "No primeiro banho depois da cirurgia, fiquei emocionada: eu podia até engolir a água do chuveiro", diz Mara.


Adriano Alves (à dir.), de 30 anos, com Renato: diabético, ele recebeu um rim do irmão e o pâncreas, de um doador morto

Uma das doenças mais comuns para o desenvolvimento de insuficiência renal é o diabetes. Os doentes mais graves precisam de dois órgãos: rim e pâncreas. Tradicionalmente, esses pacientes ficavam à espera de um doador capaz de fornecer os dois órgãos ao mesmo tempo ou tinham de ser submetidos a duas cirurgias – uma para receber o pâncreas e a outra, o rim. A partir de 2001, para otimizar os transplantes, os médicos começaram a realizar, numa única cirurgia, o transplante de pâncreas (de um doador morto) e de rim (de um doador vivo). A medida chega a reduzir para um sexto o tempo de espera pelo transplante duplo, que hoje é de três anos, em média. "Com isso antecipamos a cirurgia em cerca de dois anos e meio", diz o médico Marcelo Perosa, diretor da Hepato, uma das maiores equipes brasileiras de transplante de órgãos do aparelho digestivo.

 

CORAÇÃO

No Brasil, dois em cada oito órgãos doados são desperdiçados por falhas logísticas. Incluem-se aí as perdas por falta de transporte em tempo hábil. Uma nova medida ainda em fase experimental visa resolver parte desse grande problema. Foi realizado recentemente por médicos alemães o primeiro transplante feito com o coração do doador em atividade. A técnica prolonga o tempo de sobrevivência do órgão fora do corpo para até dez horas. Essa cirurgia é parte de um experimento que prevê outros dezenove transplantes desse tipo na Europa. Desde janeiro, já foram realizados onze. Se, ao final do estudo, a técnica comprovar o sucesso obtido até agora, será o início de uma nova revolução no transplante de coração.

A técnica convencional consiste em resfriar o coração assim que ele é extraído do corpo do doador. Dessa forma, o órgão começa a morrer depois de quatro horas. Com o novo método, o coração é armazenado numa caixa especial. Para que o órgão continue batendo, a caixa dispõe de uma máquina que mantém a freqüência cardíaca num grau mínimo. Computadores monitoram a pressão arterial, o fluxo de sangue na artéria coronária e a temperatura sanguínea. "Dessa forma, é possível levar um coração a regiões muito distantes e, com isso, ampliar o número de órgãos disponíveis e de pacientes beneficiados", disse a VEJA o médico alemão Reiner Körfer.

 

CÓRNEA


Lucas de Miranda, de 16 anos: visão esquerda recuperada, com menor risco de rejeição da nova córnea

O primeiro órgão a ser transplantado com sucesso na história da medicina foi a córnea. O mérito coube ao oftalmologista austríaco Edward Zirm, em 1905. Embora a cirurgia tenha registrado grandes avanços ao longo do último século, a técnica mais comum hoje em dia ainda é bastante invasiva. Ela exige que se removam 80% do diâmetro da córnea do receptor e que se troquem todas as camadas do órgão. A remoção da mais profunda delas, o endotélio, é o procedimento que apresenta o maior risco de rejeição – 30% dos pacientes submetidos a um transplante perdem a nova córnea por causa disso. Além disso, a substituição das camadas externas pode levar ao surgimento de astigmatismo em até quatro de cada dez pacientes. "Embora esse seja um problema pequeno se comparado à perda da visão, o ideal é que não ocorra", diz o oftalmologista Elcio Sato, de São Paulo.

Foram desenvolvidas duas maneiras de evitar essas complicações. Uma delas é o transplante lamelar anterior. Trata-se do implante da córnea sem o endotélio. Essa técnica é recomendada sobretudo aos portadores da doença ceratocone. As vítimas desse mal apresentam uma deformidade na córnea que, aos poucos, leva à cegueira. Com a nova técnica, é possível que elas recuperem até 100% da capacidade visual com pouco risco de rejeição. O estudante Lucas de Miranda, de 16 anos, beneficiou-se dela. Desde muito pequeno, ele tinha grande dificuldade para enxergar com o olho esquerdo. Aos poucos, foi perdendo a visão até ficar cego. No dia 8 de agosto, Lucas foi submetido ao novo transplante. "Hoje a minha visão ainda está embaçada, mas já consigo enxergar", diz ele. A outra inovação é o transplante lamelar posterior. Indicada para doenças que afetam o endotélio, a nova técnica não elimina o risco de rejeição, mas evita o astigmatismo. Ambas as técnicas, além de diminuir as complicações cirúrgicas, permitem o aproveitamento de partes de uma única córnea para o transplante em dois pacientes.

 
 
 
 
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