|
|
Medicina Trocas
mais garantidas Novas técnicas de transplante
permitem o compartilhamento de um único órgão e
diminuem os riscos de rejeição 
Giuliana Bergamo
Fotos Carol do Valle  | Fotos
Carol do Valle  |
| A aposentada Maria das Graças, de 54 anos,
recebeu 70% do fígado de uma jovem morta num acidente, enquanto Emylli dos Santos,
de 2 anos, recebeu os outros 30% do mesmo órgão: a fila deve andar mais rápido
| Passava das 2 horas
da madrugada de 1º de setembro quando tocou o celular da mãe de Emylli
dos Santos, de 2 anos. Do outro lado da linha, uma enfermeira anunciava: "Já
temos um fígado, Emylli pode ser operada". A menina era a primeira na fila
da Central de Transplantes de São Paulo. Vítima de uma doença
que leva à falência hepática, estava à espera de um
órgão desde o início do ano. Se Emylli não tivesse
se submetido a um transplante, dificilmente chegaria aos 3 anos. Ainda naquela
madrugada, quase ao mesmo tempo, foi a vez de a aposentada Maria das Graças
Costa, de 54, receber a notícia de que havia um fígado à
sua disposição. Uma hepatite C levou-a para a lista de transplantes
em julho de 2004. Durante a manhã, Maria das Graças e Emylli foram
para a mesa de cirurgia para receber partes de um mesmo fígado o
de uma jovem de 22 anos, morta num acidente de carro dias antes. Maria das Graças
ficou com 70% do órgão e Emylli, com os outros 30%. Conhecida como
split (dividir, em inglês), a partilha de um único fígado
entre dois receptores é um procedimento novo no Brasil. Graças a
ele, Emylli não teve de esperar pelo órgão de uma criança
(o que é raro), e a operação de Maria das Graças foi
realizada três meses antes do previsto o que não só
trouxe alívio para as pacientes e sua família como acelerou a fila
de espera por um transplante de fígado.
Emylli e Maria das Graças são beneficiárias de uma área
de medicina a de transplantes que caminha a passos largos. "Já
vencemos o desafio de garantir a vida dos transplantados", diz a nefrologista
Maria Cristina Castro, presidente da Associação Brasileira de Transplantes
de Órgãos (ABTO). Atualmente, 80% dos pacientes que recebem um novo
coração, por exemplo, estão vivos passados três anos
da cirurgia (veja
quadro). Esse progresso deu-se sobretudo graças ao desenvolvimento
de medicamentos imunossupressores que evitam a rejeição do órgão
transplantado. Hoje, eles são mais específicos: atuam diretamente
no mecanismo imunológico responsável por deflagrar o ataque do organismo
contra o novo órgão. Nos anos 90, de cada 100 transplantes, cinco
resultavam na perda do órgão por rejeição. Índice
que cai para apenas 1% nos dias que correm.
O objetivo, agora, é reduzir drasticamente o tempo de espera dos pacientes.
O compartilhamento de órgãos é um caminho fantástico
nesse sentido. A expectativa é que, com o split, aumente em 14%
a quantidade de transplantes hepáticos a curto prazo. Ainda na área
do transplante de fígado, uma das inovações mais notáveis
é uma máquina chamada Mars. Ela se destina aos portadores de hepatite
fulminante. Depois de instalada, a doença pode levar à morte em
até uma semana. Como se fosse uma máquina de hemodiálise,
a Mars filtra as toxinas do sangue, o que permite que esses doentes se mantenham
vivos até a cirurgia. Essas
novidades, descritas em seus aspectos principais ao longo desta reportagem, são
especialmente importantes num país como o Brasil. Aqui, o maior entrave
a um programa decente de transplantes não é a falta de doadores,
e sim falhas no sistema de captação e distribuição
de órgãos. Só para se ter uma idéia, se todas as mortes
encefálicas de potenciais doadores fossem registradas, o número
de transplantes duplicaria. Há 64 000 brasileiros na fila por um órgão
10% a mais do que em 2005. Nos primeiros seis meses deste ano, no entanto,
foram realizadas cerca de 8 500 cirurgias. Ou seja, apenas 13% dos pacientes foram
atendidos.
RIM E PÂNCREAS
 |
| Mara Rossilho, de 41 anos, era uma paciente "intransplantável",
mas, graças à limpeza dos anticorpos de seu organismo, ela pôde
receber o rim de sua mãe |
Até 10% dos pacientes à espera de um rim possuem anticorpos contra
a maioria dos doadores. No jargão médico, eles são considerados
como quase "intransplantáveis". Em caso de cirurgia, o novo órgão
entra em falência ainda com o receptor na mesa de operação.
A rotina imposta a esses doentes é penosa. Eles são submetidos a
hemodiálise várias vezes por semana, têm uma série
de restrições alimentares e não podem beber nenhum tipo de
líquido para mitigar a sede, molham os lábios. Dois novos
procedimentos fazem uma espécie de faxina no sistema imunológico
dos "intransplantáveis" a fim de remover os anticorpos e, dessa forma,
habilitá-los para o transplante. Um deles consiste em filtrar o sangue
do doente numa máquina até remover a maior parte dos anticorpos.
Pela outra técnica, o paciente recebe injeções de imunoglobulinas
polivalentes, substâncias que inibem a produção de anticorpos.
Desenvolvidas há cinco anos por pesquisadores americanos, essas medidas
fazem com que um paciente refratário a 95% dos doadores em potencial passe
a ter anticorpos contra apenas 30% deles aumentando, assim, a sua chance
de receber um novo rim. Depois de
quatro anos em hemodiálise, vítima de insuficiência renal,
a paulista Mara Rossilho, de 41 anos, já tinha perdido a esperança.
"Um dia, aparei minhas sobrancelhas com medo de morrer feia", diz. Por causa das
inúmeras transfusões que recebeu durante as sessões de diálise
e de quatro gestações malsucedidas, Mara era uma paciente intransplantável.
Em 2003, foi incorporada aos testes com injeções de imunoglobulina
realizados pela equipe do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Depois
de três aplicações, estava pronta para o transplante. Recebeu
um dos rins de sua mãe e hoje leva uma vida normal. "No primeiro banho
depois da cirurgia, fiquei emocionada: eu podia até engolir a água
do chuveiro", diz Mara.
 |
| Adriano Alves (à dir.), de 30 anos, com Renato:
diabético, ele recebeu um rim do irmão e o pâncreas, de um doador morto |
Uma
das doenças mais comuns para o desenvolvimento de insuficiência renal
é o diabetes. Os doentes mais graves precisam de dois órgãos:
rim e pâncreas. Tradicionalmente, esses pacientes ficavam à espera
de um doador capaz de fornecer os dois órgãos ao mesmo tempo ou
tinham de ser submetidos a duas cirurgias uma para receber o pâncreas
e a outra, o rim. A partir de 2001, para otimizar os transplantes, os médicos
começaram a realizar, numa única cirurgia, o transplante de pâncreas
(de um doador morto) e de rim (de um doador vivo). A medida chega a reduzir para
um sexto o tempo de espera pelo transplante duplo, que hoje é de três
anos, em média. "Com isso antecipamos a cirurgia em cerca de dois anos
e meio", diz o médico Marcelo Perosa, diretor da Hepato, uma das maiores
equipes brasileiras de transplante de órgãos do aparelho digestivo.
CORAÇÃO
No Brasil, dois em cada oito órgãos
doados são desperdiçados por falhas logísticas. Incluem-se
aí as perdas por falta de transporte em tempo hábil. Uma nova medida
ainda em fase experimental visa resolver parte desse grande problema. Foi realizado
recentemente por médicos alemães o primeiro transplante feito com
o coração do doador em atividade. A técnica prolonga o tempo
de sobrevivência do órgão fora do corpo para até dez
horas. Essa cirurgia é parte de um experimento que prevê outros dezenove
transplantes desse tipo na Europa. Desde janeiro, já foram realizados onze.
Se, ao final do estudo, a técnica comprovar o sucesso obtido até
agora, será o início de uma nova revolução no transplante
de coração. A
técnica convencional consiste em resfriar o coração assim
que ele é extraído do corpo do doador. Dessa forma, o órgão
começa a morrer depois de quatro horas. Com o novo método, o coração
é armazenado numa caixa especial. Para que o órgão continue
batendo, a caixa dispõe de uma máquina que mantém a freqüência
cardíaca num grau mínimo. Computadores monitoram a pressão
arterial, o fluxo de sangue na artéria coronária e a temperatura
sanguínea. "Dessa forma, é possível levar um coração
a regiões muito distantes e, com isso, ampliar o número de órgãos
disponíveis e de pacientes beneficiados", disse a VEJA o médico
alemão Reiner Körfer. CÓRNEA
 |
| Lucas de Miranda, de 16 anos: visão esquerda recuperada,
com menor risco de rejeição da nova córnea | O
primeiro órgão a ser transplantado com sucesso na história
da medicina foi a córnea. O mérito coube ao oftalmologista austríaco
Edward Zirm, em 1905. Embora a cirurgia tenha registrado grandes avanços
ao longo do último século, a técnica mais comum hoje em dia
ainda é bastante invasiva. Ela exige que se removam 80% do diâmetro
da córnea do receptor e que se troquem todas as camadas do órgão.
A remoção da mais profunda delas, o endotélio, é o
procedimento que apresenta o maior risco de rejeição 30%
dos pacientes submetidos a um transplante perdem a nova córnea por causa
disso. Além disso, a substituição das camadas externas pode
levar ao surgimento de astigmatismo em até quatro de cada dez pacientes.
"Embora esse seja um problema pequeno se comparado à perda da visão,
o ideal é que não ocorra", diz o oftalmologista Elcio Sato, de São
Paulo. Foram
desenvolvidas duas maneiras de evitar essas complicações. Uma delas
é o transplante lamelar anterior. Trata-se do implante da córnea
sem o endotélio. Essa técnica é recomendada sobretudo aos
portadores da doença ceratocone. As vítimas desse mal apresentam
uma deformidade na córnea que, aos poucos, leva à cegueira. Com
a nova técnica, é possível que elas recuperem até
100% da capacidade visual com pouco risco de rejeição. O estudante
Lucas de Miranda, de 16 anos, beneficiou-se dela. Desde muito pequeno, ele tinha
grande dificuldade para enxergar com o olho esquerdo. Aos poucos, foi perdendo
a visão até ficar cego. No dia 8 de agosto, Lucas foi submetido
ao novo transplante. "Hoje a minha visão ainda está embaçada,
mas já consigo enxergar", diz ele. A outra inovação é
o transplante lamelar posterior. Indicada para doenças que afetam o endotélio,
a nova técnica não elimina o risco de rejeição, mas
evita o astigmatismo. Ambas as técnicas, além de diminuir as complicações
cirúrgicas, permitem o aproveitamento de partes de uma única córnea
para o transplante em dois pacientes. |