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Ambiente
A agonia dos oceanos
Cinco situações-limite mostram o nível alarmante de deterioração
dos mares causada pela ação humana
 Leoleli
Camargo
Durante muito tempo, acreditou-se
que a vastidão dos oceanos seria capaz de anular as agressões que
a ação humana lhes impõe. Vazamentos de óleo e de
produtos químicos, por exemplo, ocorrem com freqüência e produzem
imagens chocantes. Mas sempre pareceram uma gota na imensidão, de forma
que se avaliava que o mar acabaria por anular os efeitos rapidamente. Agora, diante
de uma série de fenômenos recentes e inesperados, os biólogos
alertam para uma situação muitíssimo mais grave: os oceanos
estão doentes e, em muitos casos, ultrapassou-se a capacidade de auto-regeneração.
Evidentemente, a ação do homem é decisiva para a deterioração
das águas. Nos atóis do Pacífico e no norte da Europa, observa-se
a queda abismal dos cardumes de peixes, dos mamíferos marinhos e dos bancos
de corais, enquanto cresce a quantidade de algas tóxicas e águas-vivas.
Focas, leões-marinhos e golfinhos morrem aos milhares na costa da Califórnia,
fulminados por toxinas que até pouco tempo atrás não existiam
na região. No Golfo do México, as marés vermelhas, que matam
os peixes e lançam no ar substâncias que atacam o sistema respiratório
de seres humanos, são cada vez mais freqüentes. Para espanto dos cientistas,
algas venenosas que habitavam os mares nos tempos dos dinossauros voltaram a proliferar
em uma dúzia de pontos do planeta.
Há várias causas para esses desastres naturais, mas todas têm
uma origem em comum: a quantidade cada vez maior de resíduos da atividade
humana que vão parar nos oceanos. O conteúdo das fossas e tubulações
de esgoto doméstico, os dejetos industriais, os fertilizantes e as substâncias
químicas usadas na agricultura e na pecuária todos esses
elementos são ricos em nutrientes básicos, compostos de nitrogênio,
carbono, ferro e fósforo, que alteram a composição química
dos mares. Eles favorecem a proliferação de algas e bactérias
que, em excesso, consomem boa parte do oxigênio da água, sufocam
os corais, comprometem a cadeia alimentar dos oceanos e, por extensão,
a sobrevivência dos animais.
As emissões de dióxido de carbono (CO2) pela queima de combustíveis
fósseis também colaboram para a degradação dos mares.
Parte dessas emissões vai para a atmosfera e forma o chamado efeito estufa.
Outra parte vai parar nos oceanos e torna a água cada vez mais ácida.
Para completar, os materiais plásticos lançados como lixo nos mares,
que antes apenas enfeavam as praias, hoje são responsáveis pela
morte em massa de pássaros que vivem nos litorais. "A composição
química dos oceanos mudou mais rapidamente no século XX do que nos
últimos 650.000 anos", disse a VEJA o oceanógrafo Richard Feely,
do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), órgão
do governo americano. A dimensão negativa dessas mudanças e o que
se pode fazer para evitá-las são o assunto desta reportagem, que
se concentra na análise de cinco pontos indicados pelos especialistas como
os mais críticos.
1 A ÁGUA ESTA CADA VEZ MAIS ÁCIDA
Tornou-se consenso que o dióxido de carbono (CO2) produzido pela queima
de combustíveis fósseis é o responsável pelo aquecimento
global. Menos conhecidos são seus efeitos nos oceanos, que absorvem boa
parte do dióxido de carbono produzido pela ação humana. Quando
o CO2 chega aos mares, o poluente se transforma em ácido carbônico,
alterando o nível de acidez o chamado pH da água.
Nas últimas décadas, o pH dos mares vem diminuindo a um ritmo cada
vez mais acelerado. Os pesquisadores prevêem que, no fim deste século,
caso se mantenha essa diminuição, o pH chegará a 7,9, o que
tornará os oceanos vinte vezes mais ácidos do que hoje. Nesse cenário,
muitos peixes e animais marinhos terão dificuldade para respirar. O sistema
reprodutivo de algumas espécies também será afetado. Estudos
feitos em laboratório com água apresentando pH de 7,9 mostram que,
sob essas condições, as estruturas de alguns tipos de zooplâncton,
compostas de carbonato de cálcio, são corroídas rapidamente
hoje, esse processo já ocorre, embora de forma lenta. Essa não
é uma boa notícia, já que o zooplâncton é a
base da cadeia alimentar de muitos peixes e mamíferos aquáticos.
A acidez também ataca os corais, que se formam mais lentamente ou se deterioram,
num fenômeno conhecido como branqueamento. Calcula-se que 60% dos corais
do mundo já foram afetados pela diminuição do pH da água
salgada. Os especialistas suspeitam
que o aumento da acidez dos oceanos terá outro efeito perverso o
de amplificar o aquecimento global. Os eocolitoforídeos, um tipo de fitoplâncton
formado por carbonato de cálcio e também suscetível à
acidez, brilham e refletem de volta para o céu parte dos raios solares
que incidem sobre o mar. Sem eles, os raios não fariam o caminho de volta
e o mar se tornaria mais quente. Através das eras geológicas, os
oceanos sempre absorveram o excesso de CO2 da atmosfera, evitando o superaquecimento
do planeta. Não fosse por eles, a temperatura da Terra teria aumentado
2 graus, em vez de apenas 1, no último século. Com o excesso de
CO2 produzido pelo homem, eles hoje absorvem dez vezes mais esse gás venenoso.
No próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudança
Climática das Nações Unidas, a ser divulgado em 2007, a crescente
acidez dos mares pela primeira vez será apontada como um problema grave.
2 CRESCE O NÚMERO
DE ZONAS MORTAS Metade da população
do globo mora e trabalha em regiões costeiras calcula-se que 2.000
famílias se instalem diariamente em áreas próximas aos litorais.
A ocupação dessas áreas faz com que um fluxo crescente de
água doce contaminada por resíduos de insumos agrícolas,
dejetos de gado e esgotos doméstico e industrial seja despejado nos oceanos.
Todos esses materiais descartados são ricos em nutrientes, que favorecem
a proliferação de algas de vários tipos. As algas são
parte da vida marinha, mas, em excesso, transformam-se numa ameaça para
todas as outras espécies vegetais e animais. Ao morrerem, elas se depositam
no fundo do mar, onde são degradadas por bactérias. Quando há
algas demais, a ação desses microrganismos consome a maior parte
do oxigênio da água, fazendo com que todas as formas de vida entrem
em colapso. O resultado são as zonas mortas, inabitáveis para a
maioria das espécies, salvo organismos que vivem com pouco oxigênio,
como algumas bactérias. Nos anos 50, havia no mundo três zonas mortas
reconhecidas pelas entidades que estudam os oceanos. Hoje, existem 150
uma delas no entorno da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
O excesso de algas decorrente dos resíduos da ação humana
também é mortal para os corais. Mesmo antes de se decomporem, as
algas formam um escudo que bloqueia a luz do sol, fundamental para a sobrevivência
dos corais. A ocupação acelerada, nas últimas décadas,
de uma das regiões turísticas americanas mais conhecidas dos brasileiros,
as Florida Keys, provocou um aumento tão intenso no lançamento de
esgotos no mar que os quase 350 quilômetros de corais da região estão
desaparecendo, vítimas de algas e de bactérias. Embora os recifes
de coral cubram menos de 1% do solo dos oceanos, eles servem de abrigo para 2
milhões de espécies, ou 25% da vida marinha. "Cerca de 95% dos recifes
de coral do mundo já não abrigam mais uma quantidade de peixes suficientemente
variada e numerosa para mantê-los saudáveis", disse a VEJA John McManus,
diretor do National Center for Caribbean Coral Reef Research, nos Estados Unidos.
3 ALGAS TÓXICAS
MATAM OS SERES MARINHOS Os mamíferos
marinhos são vistos pelos oceanógrafos como um bom indicador da
saúde dos oceanos. Quando há alterações no comportamento
ou no ciclo de vida desses animais, é porque algo vai mal no ambiente em
que vivem. Na última década, mais de 14.000 focas, leões-marinhos
e golfinhos apareceram mortos ou doentes nas praias da Califórnia. Muitos
deles, examinados por veterinários e biólogos marinhos, mostravam
evidências de envenenamento por toxinas produzidas por tipos de alga que
recentemente encontraram condições propícias para se reproduzir
de forma descontrolada. Os animais se intoxicaram ao comer sardinhas e anchovas
que se alimentam dessas algas. Uma
das algas tóxicas mais comuns é a pseudonízschia, que produz
ácido domóico, substância que afeta o sistema nervoso. Nos
leões-marinhos, essa toxina provoca tremores, convulsões e comportamento
agressivo. As fêmeas, normalmente dotadas de forte instinto maternal, agridem
e chegam a matar seus filhotes logo após o nascimento. Estudos geológicos
feitos no Golfo do México, onde desemboca o Rio Mississippi, mostram que
a pseudonítzschia não existia no local até os anos 50. Nessa
época, difundiu-se largamente o uso de fertilizantes químicos nas
fazendas às margens do rio. Estudos atribuem aos fertilizantes, utilizados
desde então, a multiplicação acelerada da alga. As mudanças
climáticas também afetam a proliferação de algas tóxicas,
fazendo com que elas se reproduzam em locais que antes eram muito frios para a
espécie. Outros tipos de alga
tóxica que recentemente passaram a se reproduzir de forma descontrolada
enfraquecem o sistema imunológico dos animais marinhos, tornando-os mais
vulneráveis a parasitas, vírus e bactérias. No Havaí
já foram encontradas tartarugas marinhas com tumores do tamanho de uma
maçã em volta dos olhos, na boca e atrás das nadadeiras.
Os tumores impedem as tartarugas de enxergar, comer e nadar. 4
AS MARÉS VERMELHAS SÃO MAIS FREQÜENTES
Bill
Curtsinger/National Geographic/Getty Images
 | A
MARÉ VERMELHA INVADE OS LITORAIS A proliferação
de algas tóxicas tinge o mar e mata os peixes e outras espécies.
Nos seres humanos, causa alergias na pele e problemas respiratórios. Na
foto, a maré vermelha nas costas do Alasca. |
Sempre
que o verão começa, o Mar Báltico fica com a aparência
de lama malcheirosa em partes do litoral da Suécia. Os peixes morrem e
bóiam na superfície. Quem chega muito perto fica com os olhos ardendo
e algumas pessoas têm dificuldade para respirar. Esses são alguns
dos efeitos das marés vermelhas, como são chamadas as concentrações
de algas tóxicas em águas próximas ao litoral. Até
uma década atrás, no Golfo do México esse fenômeno
acontecia em média a cada dez anos hoje, ele ocorre todo ano e chega
a durar meses. Marés vermelhas são sinal de oceanos doentes. Elas
se devem a uma conjunção de fatores. Entre eles estão a destruição
dos pântanos e manguezais próximos à costa e a poluição
causada pelo assentamento humano cada vez mais intenso nas regiões litorâneas.
Esse cenário diminui a quantidade de peixes e outras espécies marinhas
que vivem junto à costa, abrindo caminho para a multiplicação
das algas.
Algumas algas produzem
toxinas que, além de matar os peixes, são levadas pela brisa marinha
até a costa. Em seres humanos, as toxinas provocam incômodo pelo
mau cheiro e causam desde reações alérgicas na pele até
problemas respiratórios como bronquite e crises de asma. Durante as marés
vermelhas, as toxinas produzidas pelas algas podem chegar à mesa do almoço,
absorvidas por mexilhões, ostras e outros frutos do mar. A intoxicação
por esses alimentos contaminados provoca infecções intestinais e
até convulsões e desmaios.
As marés vermelhas também causam perdas financeiras às áreas
afetadas. Em diversas regiões da China, onde o fenômeno vem acontecendo
com maior freqüência, a pesca comercial fica suspensa enquanto duram
as marés. Em regiões turísticas como a Flórida e a
Califórnia, as reservas de hotéis são canceladas assim que
os alertas de maré vermelha são divulgados. 5
O LIXO PLÁSTICO INVADE OS LITORAIS
Há décadas os ambientalistas insistem que os materiais plásticos
descartados no mar representam uma das maiores ameaças ao meio ambiente
para a maioria das pessoas, esse discurso parecia mais folclórico
do que real. Pois bem, os ecologistas sempre tiveram razão. Cerca de 90%
do lixo que bóia nos oceanos é formado por materiais plásticos.
O programa ambiental das Nações Unidas estima que 46 000 peças
de lixo plástico flutuam em cada 2,5 quilômetros quadrados dos oceanos.
Desse total, quatro quintos chegam até o mar varridos pelo vento ou levados
pela água da chuva, pelos esgotos e rios. Um quinto é lançado
pelos navios. O Atol de Midway, localizado
próximo ao Havaí, simboliza o drama da poluição causada
pelos plásticos. Situado no meio do Oceano Pacífico, ele recebe
diariamente o entulho plástico trazido do Japão e da costa oeste
dos Estados Unidos por duas correntes que convergem para suas praias. O lixo de
Midway causa a morte de quase metade dos 500.000 albatrozes que a cada ano nascem
na ilha. Os albatrozes alimentam os filhotes com pedaços de plástico,
que confundem com comida. Tartarugas, focas e leões-marinhos também
comem as peças plásticas, e muitos deles morrem por asfixia ou lesões
internas. Nem mesmo peixes de pequeno
e médio portes escapam da praga dos plásticos. Muitas vezes eles
ingerem os pellets como são chamadas as pequenas bolinhas
plásticas com 1 centímetro de diâmetro , usados pela
indústria para produzir os mais variados objetos. Além de poluírem
as praias, os pellets podem absorver substâncias tóxicas que
não se dissolvem facilmente na água e afetar o ciclo reprodutivo
dos peixes. Eles estão presentes também na costa brasileira. "Já
encontrei pellets em Santos, em Ubatuba e no Guarujá", diz Alexander
Turra, biólogo do Instituto Oceanográfico da Universidade de São
Paulo. |