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Brasil "Pior
do que o Watergate" A frase sobre o novo
escândalo petista é do presidente do TSE, que julgará
um processo contra o candidato Lula  Juliana
Linhares e Camila Pereira Marcos
d`Pala/AE
 | GUERRA
JURÍDICA Tasso (à esq.)
e Jorge Bornhausen, do PFL, com o ministro Marco Aurélio: pedido aceito
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Com
a instauração do processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) destinado
a investigar a responsabilidade de Lula e assessores no dossiêgate, a crise
do governo salta do patamar político para o institucional e, do
alto desse novo degrau, a paisagem que se avista não parece nada tranqüilizadora.
O processo foi aberto a pedido de um bloco formado por políticos do PSDB
e do PFL. Na representação, a coligação alega que
Freud Godoy, Gedimar Passos e Ricardo Berzoini, assessores do presidente e do
candidato Lula, cometeram crimes de abuso de poder econômico ao utilizar
dinheiro não contabilizado para fins eleitorais o 1,7 milhão
que seria empregado na compra do dossiê contra José Serra. A acusação
se estende a Valdebran Padilha, empresário e filiado ao PT. Além
disso, a representação afirma que o ministro da Justiça,
Márcio Thomaz Bastos, cometeu crime de abuso de poder político ao
não permitir a divulgação da imagem desse dinheiro. O candidato
Lula entra no processo por dois motivos: por ter sido, segundo a representação
impetrada pela coligação, o principal beneficiário dos dois
supostos ilícitos eleitorais (de abuso de poder econômico e de poder
político, ambos previstos em lei complementar à Lei de Inelegibilidades)
e porque sua situação se enquadraria no segundo parágrafo
do artigo 30-A da Lei Eleitoral. Diz o trecho da lei: "Comprovados captação
ou gastos ilícitos de recursos para fins eleitorais, será negado
diploma ao candidato, ou cassado, se já houver sido outorgado". É
essa lei que, segundo especialistas ouvidos por VEJA, mais riscos oferece a Lula.
"Como já se sabe que ao menos a parte em dólares do dinheiro usado
para a compra do dossiê entrou no Brasil de forma clandestina, o ilícito
já está configurado", afirma Alberto Rollo, especialista em legislação
eleitoral. "Obviamente, há que esperar o final do processo para considerar
alguém culpado", acrescenta ele. Desde já, no entanto, os petistas
estão com os nervos à flor da pele. O novo coordenador da campanha
de Lula, Marco Aurélio Garcia, teve momentos de histeria ao longo da semana,
quando, por meio da imprensa, acusou o ministro Marco Aurélio Mello de
dar declarações "com conotação partidária".
O processo no TSE leva, no mínimo,
trinta dias para ser concluído, considerando-se os prazos que a lei estabelece
para que os acusados juntem documentos, reúnam testemunhas e apresentem
a sua defesa. É, portanto, impossível que se encerre até
a semana que vem, quando ocorre o primeiro turno das eleições, e
improvável que esteja concluído até 29 de outubro, data marcada
para um eventual segundo turno. Isso não significa, no entanto, que Lula
possa se livrar das conseqüências de uma condenação.
Se, como presidente, ele pode tentar "descolar-se" dos escândalos demitindo
os companheiros envolvidos, como candidato não tem saída. Atos administrativos
não o eximem de suas responsabilidades.
A lei é clara quando diz que, comprovado o uso de dinheiro ilícito
na campanha, o candidato ainda que já eleito terá
o seu diploma cassado. Em outras palavras: se Lula vencer as eleições
e, depois de empossado, for considerado culpado pelo tribunal, perderá
o mandato, assim como seu vice. Novas eleições serão convocadas
e o petista ficará inelegível por três anos. Antes disso,
há a possibilidade de recurso. Lula pode apelar para o Supremo Tribunal
Federal alegando inconstitucionalidade na decisão do TSE. Caso o STF viesse
a conceder o efeito suspensivo da sentença, não haveria novas eleições
e o presidente continuaria no cargo, pelo menos até o julgamento do mérito
do recurso o que poderia levar anos.
Alaor
Filho/AE
 | NA
BASE DO GRITO Garcia, do PT: declaração
do ministro do TSE deixou o petista com os nervos à flor da pele |
Lula, obviamente, também pode ser absolvido no processo do TSE. Mas,
se eleito, assumirá um governo que dará a largada sob o peso de
um monumental passivo ético resultado da soma de escândalos
que pontuaram toda a segunda metade do seu mandato. Para especialistas, esse desgaste
terá reflexos diretos na governabilidade. "Com o PT em frangalhos para
articular alianças na Câmara e no Senado, e a oposição
acirrando o embate político, os ventos não estarão favoráveis
para Lula como estiveram no primeiro mandato, quando ele conseguiu ampla maioria
em votações importantes para o governo", analisa o cientista político
Rubens Figueiredo. Esse ambiente desfavorável, na opinião de especialistas,
tornaria praticamente inviável a votação de reformas importantes,
como a tributária e a da Previdência. Por terem impacto direto nas
finanças do governo e no bolso da população ,
elas exigem um presidente forte e com cacife político para ser aprovadas.
Se esse presidente for Lula, antecipa o presidente do PSDB, Tasso Jereissati,
ele não contará com o apoio dos tucanos na tarefa. "Depois de toda
a gastança feita para ganhar a eleição, espero que ele não
queira que nós o ajudemos a pedir sacrifícios à sociedade",
diz. Um Congresso hostil ao governo
vai dificultar a votação de medidas. "Se isso ocorrer, Lula deverá
usar um número cada vez maior de medidas provisórias", diz o promotor
Thales Tácito, especialista em legislação eleitoral. Fora
do jogo partidário, acredita-se que o passivo ético que Lula carrega
deve reforçar seu perfil populista e dificultar a relação
do petista com os setores mais esclarecidos da sociedade. "Toda vez que é
cobrado e criticado, Lula volta à cantilena das elites golpistas, da imprensa
golpista e apela para a sustentação entre as massas e os movimentos
sociais", afirma Roberto Romano, filósofo da Unicamp. Atiçar a população
mais carente, beneficiária direta da bilionária caridade oficial,
é uma saída a que Lula poderá recorrer para tentar blindar-se
contra uma eventual ameaça de impeachment fantasma que continuará
a assombrá-lo em um provável segundo mandato. A ele e ao país,
infelizmente. Com reportagem de
Renato Piccinin |