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Brasil A
PF finge que investiga... ...enquanto
o PT tenta achar alguém para assumir a titularidade do 1,7 milhão
de reais apreendidos  Marcio
Aith e Giuliano Guandalini* Antonio
Milena
 | INVESTIGAÇÃO
DE FACHADA A PF vazou a informação
de que havia interrogado funcionários dessa agência do BankBoston,
na Lapa, em São Paulo, e era de lá que tinha saído parte
do dinheiro apreendido com os petistas. Na verdade, a agência nunca foi
investigada |
Em
velocidade incomum para os padrões morosos da burocracia brasileira, o
Coaf (órgão que fiscaliza movimentações financeiras)
forneceu em apenas três dias à PF todos os dados bancários
de Francenildo Costa, o caseiro que revelara as idas do então ministro
da Fazenda, Antonio Palocci, à mansão brasiliense na qual seus amigos
de Ribeirão Preto faziam negócios. Isso foi em março passado,
quando interessava ao governo o uso célere e eficiente dos instrumentos
do Estado. Naquela ocasião, os dados bancários do caseiro vazaram
ainda mais rápido, numa tentativa do governo petista de desmoralizá-lo.
Não se vê tal rapidez e tal publicidade agora, na investigação
sobre a origem dos 1.168.000 reais e dos 248.800 dólares usados pelo esgoto
sindical do Partido dos Trabalhadores para comprar um dossiê falso contra
o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra. A lógica
é apertar o pé no breque e proteger o governo de qualquer revelação
comprometedora, como explicou na última sexta-feira, à sua maneira,
o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos: "Não se pode
condicionar uma investigação policial à lógica e ao
tempo de uma campanha eleitoral. Não se pode prejudicar uma investigação
para obter um efeito eleitoral". De
fato, as investigações sobre a origem da dinheirama caminham de
forma hermética, lenta e errática. Tão errática que
a PF chegou a escantear das investigações a equipe de delegados
que prendeu o ex-policial Gedimar Passos e conseguiu obter dele as únicas
informações válidas nessa investigação, sem
as quais esse escândalo nunca teria sido descoberto a confissão
de que a dinheirama ilegal vinha da direção nacional do PT e o envolvimento
no caso de Freud Godoy, o assessor especial do presidente Lula. Desde o afastamento
dessa equipe, revelado pela Folha de S.Paulo, a PF proibiu a divulgação
das imagens do dinheiro apreendido e das gravações do circuito interno
do hotel Ibis, onde as prisões foram feitas. Em entrevista na última
sexta-feira, o delegado Edmilson Bruno, um dos policiais escanteados pela PF,
deu pistas sobre o motivo de seu afastamento. "O Gedimar disse que o dossiê
era muito maior, envolveria todos os partidos políticos e o próprio
PT. Em nenhum momento o senhor Gedimar disse que era um dossiê contra o
PSDB. Se vocês tiverem acesso aos meus autos, no futuro, verão que
ele não fala do PSDB", afirmou. J.
Richards/AFP
 | AS
LIÇÕES DE WATERGATE Nixon e H.R.
Haldeman, seu chefe da Casa Civil (à esq.), e o material apreendido
com os invasores da sede democrata: o dinheiro levou a investigação
para a Casa Branca |
Na prática, a PF mais esfumaça o cenário do que investiga.
Na última sexta-feira, por exemplo, divulgou a blogueiros amigos ter descoberto
de onde foi sacado 1 milhão do 1,168 milhão de reais apreendidos.
A PF teria chegado a tal descoberta com base num recibo de saque. No entanto,
o documento encontrado pela polícia não era um recibo de saque propriamente
dito. Não continha o nome do sacador, não era o papel oficial de
um banco nem indicava claramente a quantia, que poderia ser de 1.000 reais ou
de 1 milhão de reais, dependendo do freguês. Os policiais chegaram
a confundir o número do escritório central de uma agência
transportadora de valores com o de uma agência bancária do Bradesco.
Há mais. Com base nas cintas que envolvem os maços de reais apreendidos,
por exemplo, a PF diz ter identificado três bancos de onde a dinheirama
teria sido sacada: BankBoston (atual Itaú Personalité), Bradesco
e Safra. No entanto, executivos financeiros ouvidos por VEJA dizem ser impossível
detectar a origem do dinheiro apenas pelas cintas que prendem os maços
de cédulas. Isso porque as instituições financeiras privadas
costumam emprestar diariamente dinheiro entre si (no chamado mercado interbancário),
por meio de transportadoras, sem que as cintas sejam removidas. Portanto, quando
os saques são vultosos, bancos podem entregar a clientes maços de
dinheiro envoltos por cintas de outras instituições. É possível
que a PF ainda nem tenha descoberto os bancos de onde saíram os saques.
Tem mais. Foi divulgado que a PF conversou com gerentes e funcionários
da agência do BankBoston em São Paulo, quando, na verdade, nenhum
agente esteve na agência. Aliás, a PF ainda não entrou em
contato formal (nem informal) com nenhuma das três instituições
financeiras cujos nomes deixou vazar. E o que é mais grave: o mesmo Coaf
que tentou esmagar o caseiro Francenildo ainda não forneceu dados às
investigações. "A PF, que sempre foi uma parceira nas investigações,
neste caso específico, no que tange a buscar a origem do dinheiro, já
teria elementos para fazê-lo e não fez. Não teve a agilidade
que lhe é peculiar", diz o deputado Carlos Sampaio, do PSDB.
Por que tanta diferença no tratamento e na velocidade no caso do caseiro
e do dossiê falso? Podem existir, claro, desafios técnicos diferentes
nas duas situações. Mas não se pode descartar que estejam
sendo levados em conta interesses eleitorais do presidente-candidato. No fim da
semana passada, a direção nacional do PT exasperava-se na tentativa
de encontrar um petista ou um empresário amigo que se dispusesse a assumir
a titularidade do dinheiro apreendido sem que a verdadeira origem fosse revelada.
Parece que as investigações não avançam para dar tempo
de criar uma espécie de "Operação Uruguai" o falso
empréstimo criado pela equipe do ex-presidente Fernando Collor para justificar
a origem de 5 milhões de dólares. Numa reunião em Brasília,
na semana passada, petistas mencionavam como possível candidato a financiador
do esquema o empresário André Bittar De Noce, que é sócio
de uma construtora em São Paulo e foi participante da Cives (Associação
Brasileira de Empresários pela Cidadania). A VEJA, De Noce confirma conhecer
vários dirigentes petistas, mas diz que não recebeu nenhuma proposta
e que, se a houvesse recebido, não a teria aceito. "Eu afirmo categoricamente
que não tenho nem teria nada a ver com essa história. Conheço
muita gente ligada ao PT e a outros partidos, como o PSDB e o PFL", disse De Noce,
esclarecendo nem ter contas nos bancos de onde, segundo a PF, o dinheiro teria
sido sacado. Foi seguindo o rastro
dos dólares que o escândalo de Watergate chegou à Casa Branca
e forçou a renúncia do presidente Richard Nixon, do Partido Republicano.
Na madrugada do dia 17 de junho de 1972, cinco homens foram presos no edifício
Watergate, em Washington, depois de terem arrombado o Comitê Nacional do
Partido Democrata. Os homens tinham os bolsos recheados de notas de 100 dólares,
num total de 2.300 dólares. Um trocado perto do mais recente escândalo
brasileiro. Valdebran Padilha portava consigo 109.800 dólares e 758.000
reais. Já Gedimar Passos foi preso com 139.000 dólares e 410.000
reais. No total, foram apreendidos 248.800 dólares e mais 1,168 milhão
de reais somando tudo, algo em torno de 1,7 milhão de reais. Há
fortes indícios de que ao menos parte dos dólares encontrados com
os petistas entrou no país de maneira ilegal. Dos 139.000 dólares
apreendidos, 30.000 eram notas novinhas em folha, que nunca haviam circulado.
Eram três maços com 100 cédulas de 100 dólares, num
total de 10.000 dólares em cada pacote. Os maços ainda estavam atados
pela cinta de papel Bureau of Engraving and Printing (BEP, a casa da moeda dos
Estados Unidos). Além disso, as notas eram seqüenciais e fazem parte
de um lote de cédulas impressas recentemente, em abril deste ano, que abasteceram
agências bancárias dos estados da Flórida e de Nova York.
Foi de uma agência bancária de um desses estados americanos que saíram
os dólares petistas que comprariam os serviços dos Vedoin.
Notas como essas são uma raridade fora dos Estados Unidos. O presidente
de um grande banco brasileiro contou a VEJA só ter visto cédulas
assim nas negociações para pôr fim ao seqüestro de um
cliente. "Sua família trouxe o dinheiro diretamente de uma conta nos EUA.
O saque foi solicitado a um grande banco americano, que pediu os recursos diretamente
ao Fed. O trâmite foi acelerado pelo governo dos Estados Unidos, e o dinheiro
chegou num jato particular." Diante de tais circunstâncias, há duas
opções para esses recursos terem entrado no Brasil. A via legal
só pode ser feita por bancos credenciados e precisa ser registrada na Receita
Federal. Não foi o que ocorreu com a dinheirama do PT, segundo dados do
governo. Outro meio de os dólares entrarem no país é o ilegal,
dentro de malas, possivelmente em aviões particulares. Nos Estados Unidos,
os saques de notas novas e seqüenciais como as apreendidas pela PF são
facilmente identificáveis. Sua origem ilícita pode resultar na impugnação
da candidatura de Lula. Essa é a razão pela qual a oposição
insiste em bater na tecla do dinheiro encontrado. *Colaborou
Chrystiane Silva |