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Edição 1975 . 27 de setembro de 2006

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Brasil
A costela de Lula

O churrasqueiro Lorenzetti ajuda a levar
a brasa do dossiê para dentro do Planalto


Fábio Portela


Daniel Conzi/Ag RBS/PAGOS
Celso Junior/AE
AS DUAS CARAS DE LORENZETTI
À esquerda, o amigo de Lula mostra, orgulhoso, o churrasco de costela que cativou o presidente. À direita, de cara fechada, admite na polícia que negociou o dossiê em nome do PT

NESTA EDIÇÃO
Os buracos negros
Freud e as malas
A costela de Lula
Mais um que nada viu
O dinheiro é a chave
"Pior que Watergate"
Ataque à democracia
Entrevista: Célio Borja

O negociador do dossiê antitucano é um amigo íntimo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A confiança do presidente no catarinense Jorge Lorenzetti, de 54 anos, é tão profunda que ele lhe atribuiu a tarefa de assistir e socorrer sua filha, Lurian, que mora em Florianópolis. No campo político, o presidente conferiu a Lorenzetti a chefia do Núcleo de Informações e Inteligência da sua campanha de reeleição. Nesse cargo, tornou-se um dos comandantes da guerra eleitoral suja do PT. Na semana passada, ele depôs sobre o caso na Polícia Federal. Como é regra no partido, eximiu seus superiores de qualquer culpa no episódio. Seu depoimento resguardou Lula e o presidente do PT, Ricardo Berzoini, mas chama atenção pelo que ele já confessou. Lorenzetti disse ter chefiado os entendimentos com o sanguessuga Luiz Antônio Vedoin para envolver o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na máfia das ambulâncias. Revelou ter despachado emissários para conversar com o criminoso em Mato Grosso e oferecido as informações – falsas – à revista Época. Negou apenas desconhecer a origem do 1,7 milhão de reais que seriam pagos ao sanguessuga – o calcanhar-de-aquiles do candidato Lula. Por último, lançou a autoria intelectual do crime a um petista de médio escalão, razoavelmente distante do Planalto, o coordenador da campanha de Aloizio Mercadante a governador de São Paulo, Hamilton Lacerda (veja reportagem).

Daniela Xu/Jornal de Santa Catarina/AE
CUIDANDO DA FILHA DE LULA
Desde 2003, Lorenzetti faz as vezes de babá de Lurian


É difícil acreditar que Lorenzetti tenha agido sem o conhecimento de Lula, com quem tem relações tão íntimas. Ele só passou a esconder sua intimidade com o presidente depois que foi envolvido no escândalo. Desde que o amigão chegou ao Planalto, Lorenzetti abastecia os jornais catarinenses com fotografias nas quais ele aparece mimando o presidente com churrascos. Lula adora a maneira como o catarinense assa costelas. Em 2003, Lorenzetti deu uma entrevista a uma revista holandesa na qual relata a camaradagem que o une a Lula. "Nossas famílias passam o réveillon juntas. Em 2000 e 2001 foi na minha casa. Em 2002, na casa de Lula", contou. À mesma revista, o petista revelou que só não foi ministro de Lula porque não quis. "Ofereceram-me um cargo de ministro, mas preferi assumir funções administrativas", afirma. A relação de Lorenzetti com Lula remonta a 1980. Naquele ano, o churrasqueiro era líder estudantil em Florianópolis e o presidente ainda comandava os metalúrgicos no ABC paulista. Desde que se conheceram, nunca mais se separaram no plano político. Fundaram juntos o PT e a CUT. Lorenzetti foi o primeiro candidato do partido à prefeitura de Florianópolis, em 1985. Em seguida, migrou para o movimento sindical e chegou a líder nacional da CUT.

Nesse período, tornou-se um especialista na obtenção de dinheiro no exterior. Recebia doações milionárias de sindicatos europeus em nome da CUT e trazia o dinheiro para o Brasil. Com esses recursos, construiu um hotel de quatro estrelas em Florianópolis, a Escola Sul da CUT. Deveria ser uma "escolinha" de líderes sindicais, mas, na prática, é uma espécie de resort para militantes de esquerda. Lula e Marisa foram seus hóspedes mais famosos. De sua base sindical, Lorenzetti lançou-se no maravilhoso mundo das ONGs. Criou a Unitrabalho, uma associação que recebe dinheiro público para tocar projetos sociais. No governo FHC, a ONG enfrentou dificuldades. Quando o PT chegou ao poder, a penúria acabou. Desde 2003 a Unitrabalho recebeu 18,5 milhões de reais da União.

A habilidade de Lorenzetti em captar recursos no exterior rendeu-lhe um novo emprego. Em 2001, tornou-se diretor de uma cooperativa de produtores de frutas no Pará, a Amafrutas. O negócio não decolava. Com Lula no poder, Lorenzetti levantou financiamentos de 20 milhões de reais em bancos públicos e arregimentou compradores para os produtos da fábrica entre seus contatos com sindicatos europeus. Com o dinheiro, a Amafrutas abriu uma nova fábrica. Já presidente, Lula foi à inauguração. Na ocasião, fez um discurso e recomendou aos funcionários da fábrica: "No Lorenzetti vocês podem confiar". Em junho de 2003, foi a vez de Lorenzetti retribuir. O presidente estava em apuros. Lurian abrira uma ONG em Santa Catarina, a Rede13, que recolhia alimentos para aquela peça de ficção chamada Fome Zero. Mal administrada, a instituição não conseguia distribuir o que arrecadava. Para piorar, Lurian aceitou dinheiro de donos de bingos. Lula decidiu fechar a Rede13 com discrição. Convocou Lorenzetti para a tarefa. Com carta branca, ele assumiu a direção da ONG da filha do presidente e encerrou suas atividades.

No ano passado, Lorenzetti quis deixar o emprego no Pará e voltar para Florianópolis. Falou com o amigo presidente. Lula demitiu um diretor do Banco do Estado de Santa Catarina e colocou Lorenzetti em seu lugar. Em agosto passado, o churrasqueiro recebeu uma nova missão de Lula. Deveria coordenar a campanha pela reeleição dele no estado. Lorenzetti criou um fórum suprapartidário para apoiar o amigo e organizou uma viagem dele a Santa Catarina. O presidente ficou tão satisfeito com o resultado que determinou que ele fosse destacado para o comando nacional da campanha, na chefia do Núcleo de Informações e Inteligência. No posto, Lorenzetti passou a cozinhar a montagem do dossiê contra os tucanos. Encomendou dados ao Banco do Brasil, coordenou negociações e participou de reuniões com jornalistas. Como ele mesmo disse, "extrapolou" suas funções. Flagrado, o churrasqueiro está perto de assar o presidente.

 

A ONG do amigão

No governo Lula, a Unitrabalho, uma ONG fundada por Jorge Lorenzetti, prosperou com o dinheiro enviado pela União

1996 a 1998
670 000 reais
1999 a 2002
170 000 reais
Total na gestão FHC
840 000 reais
Total na gestão Lula
18,5 milhões de reais

Fonte: Contas Abertas

 

 
 
 
 
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