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Brasil A
costela de Lula O churrasqueiro Lorenzetti ajuda
a levar a brasa do dossiê para dentro do Planalto 
Fábio Portela
Daniel Conzi/Ag RBS/PAGOS  | Celso
Junior/AE  |
AS DUAS CARAS
DE LORENZETTI À esquerda, o amigo de Lula mostra, orgulhoso, o churrasco
de costela que cativou o presidente. À direita, de cara fechada, admite
na polícia que negociou o dossiê em nome do PT |
O
negociador do dossiê antitucano é um amigo íntimo do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. A confiança do presidente no catarinense
Jorge Lorenzetti, de 54 anos, é tão profunda que ele lhe atribuiu
a tarefa de assistir e socorrer sua filha, Lurian, que mora em Florianópolis.
No campo político, o presidente conferiu a Lorenzetti a chefia do Núcleo
de Informações e Inteligência da sua campanha de reeleição.
Nesse cargo, tornou-se um dos comandantes da guerra eleitoral suja do PT. Na semana
passada, ele depôs sobre o caso na Polícia Federal. Como é
regra no partido, eximiu seus superiores de qualquer culpa no episódio.
Seu depoimento resguardou Lula e o presidente do PT, Ricardo Berzoini, mas chama
atenção pelo que ele já confessou. Lorenzetti disse ter chefiado
os entendimentos com o sanguessuga Luiz Antônio Vedoin para envolver o candidato
do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na máfia das
ambulâncias. Revelou ter despachado emissários para conversar com
o criminoso em Mato Grosso e oferecido as informações falsas
à revista Época. Negou apenas desconhecer a origem
do 1,7 milhão de reais que seriam pagos ao sanguessuga o calcanhar-de-aquiles
do candidato Lula. Por último, lançou a autoria intelectual do crime
a um petista de médio escalão, razoavelmente distante do Planalto,
o coordenador da campanha de Aloizio Mercadante a governador de São Paulo,
Hamilton Lacerda (veja reportagem).
Daniela Xu/Jornal de Santa Catarina/AE
 | CUIDANDO
DA FILHA DE LULA Desde 2003, Lorenzetti faz as vezes de babá
de Lurian | É
difícil acreditar que Lorenzetti tenha agido sem o conhecimento de Lula,
com quem tem relações tão íntimas. Ele só passou
a esconder sua intimidade com o presidente depois que foi envolvido no escândalo.
Desde que o amigão chegou ao Planalto, Lorenzetti abastecia os jornais
catarinenses com fotografias nas quais ele aparece mimando o presidente com churrascos.
Lula adora a maneira como o catarinense assa costelas. Em 2003, Lorenzetti deu
uma entrevista a uma revista holandesa na qual relata a camaradagem que o une
a Lula. "Nossas famílias passam o réveillon juntas. Em 2000 e 2001
foi na minha casa. Em 2002, na casa de Lula", contou. À mesma revista,
o petista revelou que só não foi ministro de Lula porque não
quis. "Ofereceram-me um cargo de ministro, mas preferi assumir funções
administrativas", afirma. A relação de Lorenzetti com Lula remonta
a 1980. Naquele ano, o churrasqueiro era líder estudantil em Florianópolis
e o presidente ainda comandava os metalúrgicos no ABC paulista. Desde que
se conheceram, nunca mais se separaram no plano político. Fundaram juntos
o PT e a CUT. Lorenzetti foi o primeiro candidato do partido à prefeitura
de Florianópolis, em 1985. Em seguida, migrou para o movimento sindical
e chegou a líder nacional da CUT.
Nesse período, tornou-se um especialista na obtenção de dinheiro
no exterior. Recebia doações milionárias de sindicatos europeus
em nome da CUT e trazia o dinheiro para o Brasil. Com esses recursos, construiu
um hotel de quatro estrelas em Florianópolis, a Escola Sul da CUT. Deveria
ser uma "escolinha" de líderes sindicais, mas, na prática, é
uma espécie de resort para militantes de esquerda. Lula e Marisa foram
seus hóspedes mais famosos. De sua base sindical, Lorenzetti lançou-se
no maravilhoso mundo das ONGs. Criou a Unitrabalho, uma associação
que recebe dinheiro público para tocar projetos sociais. No governo FHC,
a ONG enfrentou dificuldades. Quando o PT chegou ao poder, a penúria acabou.
Desde 2003 a Unitrabalho recebeu 18,5 milhões de reais da União.
A habilidade de Lorenzetti em captar
recursos no exterior rendeu-lhe um novo emprego. Em 2001, tornou-se diretor de
uma cooperativa de produtores de frutas no Pará, a Amafrutas. O negócio
não decolava. Com Lula no poder, Lorenzetti levantou financiamentos de
20 milhões de reais em bancos públicos e arregimentou compradores
para os produtos da fábrica entre seus contatos com sindicatos europeus.
Com o dinheiro, a Amafrutas abriu uma nova fábrica. Já presidente,
Lula foi à inauguração. Na ocasião, fez um discurso
e recomendou aos funcionários da fábrica: "No Lorenzetti vocês
podem confiar". Em junho de 2003, foi a vez de Lorenzetti retribuir. O presidente
estava em apuros. Lurian abrira uma ONG em Santa Catarina, a Rede13, que recolhia
alimentos para aquela peça de ficção chamada Fome Zero. Mal
administrada, a instituição não conseguia distribuir o que
arrecadava. Para piorar, Lurian aceitou dinheiro de donos de bingos. Lula decidiu
fechar a Rede13 com discrição. Convocou Lorenzetti para a tarefa.
Com carta branca, ele assumiu a direção da ONG da filha do presidente
e encerrou suas atividades. No ano
passado, Lorenzetti quis deixar o emprego no Pará e voltar para Florianópolis.
Falou com o amigo presidente. Lula demitiu um diretor do Banco do Estado de Santa
Catarina e colocou Lorenzetti em seu lugar. Em agosto passado, o churrasqueiro
recebeu uma nova missão de Lula. Deveria coordenar a campanha pela reeleição
dele no estado. Lorenzetti criou um fórum suprapartidário para apoiar
o amigo e organizou uma viagem dele a Santa Catarina. O presidente ficou tão
satisfeito com o resultado que determinou que ele fosse destacado para o comando
nacional da campanha, na chefia do Núcleo de Informações
e Inteligência. No posto, Lorenzetti passou a cozinhar a montagem do dossiê
contra os tucanos. Encomendou dados ao Banco do Brasil, coordenou negociações
e participou de reuniões com jornalistas. Como ele mesmo disse, "extrapolou"
suas funções. Flagrado, o churrasqueiro está perto de assar
o presidente.
| A ONG do amigão No
governo Lula, a Unitrabalho, uma ONG fundada por Jorge Lorenzetti, prosperou com
o dinheiro enviado pela União
| 1996 a 1998 | 670
000 reais | | 1999 a 2002 |
170 000 reais | | Total
na gestão FHC | 840 000 reais
| | Total na gestão Lula
| 18,5 milhões de reais |
Fonte: Contas Abertas |
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