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Entrevista:
Roberto Lent Não
é mais ficção O
neurocientista diz que os riscos dos avanços do mapeamento cerebral
podem ser grande ameaça à privacidade das pessoas
 Daniela
Pinheiro
Oscar Cabral
 | "O
debate sobre a neuroética é até mais vital que o da genética porque envolve a
mente humana" | |
Está em curso uma revolução silenciosa da qual poucos se
deram conta. As chamadas neurotecnologias, que são as técnicas de
mapeamento cerebral, de desenvolvimento de drogas ou implantação
de chips que alteram o comportamento humano, sempre estiveram restritas à
medicina para o tratamento e a prevenção de doenças. No entanto,
elas passaram a ser usadas no cotidiano das pessoas sem que exista um questionamento
ético sobre o assunto. Empresas testam o gosto de um refrigerante com base
nas reações de prazer no cérebro de um indivíduo.
Estúdios cinematográficos monitoram o cérebro humano para
saber quais cenas de um filme são mais excitantes e merecem fazer parte
do trailer. Nos tribunais, o uso da neuroimagem como detector de mentiras é
tido como uma grande promessa. Contudo, não há regras nem limites
éticos para lidar com o assunto. É o que alerta o cientista Roberto
Lent. Carioca, pai de quatro filhos, Lent, de 58 anos, divide seu tempo entre
a literatura (escreveu livros sobre o funcionamento do cérebro que viraram
peça de teatro infantil) e o laboratório de neuroplasticidade da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Após participar de uma conferência
internacional sobre neurociências e sociedade contemporânea, no Rio,
ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Por que estabelecer limites para o uso das informações
sobre o cérebro? Lent As pessoas tendem a imaginar que as
descobertas feitas com base nas técnicas de mapeamento e registro cerebral
são coisa de ficção científica. Eram, mas não
são mais. Já está disponível a tecnologia para que
uma empresa possa recrutar profissionais baseando-se em como o cérebro
dos candidatos reage diante de um problema que, por exemplo, envolva um julgamento
moral. Discutem-se muito os limites éticos da genética porque o
assunto está na ordem do dia. No entanto, a neuroética é
tão ou mais vital porque envolve a mente humana. Prever com segurança
a possibilidade de alguém ter uma doença neurodegenerativa como
Alzheimer aos 60 anos ou identificar precocemente a propensão de um jovem
à violência é um avanço, mas representa também
novos desafios éticos. Veja Quais as conseqüências disso? Lent Informações
privadas como essas podem vazar para terceiros. Imagine uma companhia de seguros
que consiga os dados sobre a propensão de uma pessoa a ter a doença
de Huntington, que é incapacitante e mortal. Quem vai querer fazer uma
apólice para essa pessoa? Ou ainda: que escola receberia tranqüilamente
um adolescente que apresentasse um marcador cerebral indicando predisposição
para se tornar psicopata? Além disso, há um debate ainda mais complicado:
quem deveria ter acesso a essas informações? A família? O
paciente? A escola? O empregador? Vamos supor que se consiga identificar com muita
chance de acerto um marcador cerebral alguma característica morfológica
ou funcional que aponte a possibilidade real de um garoto de 15 anos cometer
um ato violento, um assassinato até, aos 30. Trata-se de algo que ainda
não é possível, mas os pesquisadores estão a caminho
disso. O que fará o profissional em um caso desses? Diz para a família?
Armazena a informação em um órgão de Estado para vigiar
o garoto ou passa a medicá-lo preventivamente? Temos de nos preparar para
dar essas respostas.
Veja Mas não é sempre bom saber com antecipação
os riscos que se vai correr? Lent Ao lidarmos com o cérebro,
estamos falando daquilo que é mais humano e individual nas pessoas. Envolve
um profundo debate filosófico e existencial. Se sou alérgico e meu
filho herda isso, é bom saber antes para que possa tomar minhas providências.
Mas, se descubro que meu filho tem propensão fortíssima a se tornar
um assassino, isso traz questões éticas muito mais graves. Nós,
cientistas, temos o dever de investigar a natureza e informar ao público
o que está sendo descoberto, mas é a sociedade que deve discutir
os limites éticos da questão.
Veja Quais seriam esses limites? Lent Não há
problema ético quando se desenvolve uma técnica para tratar uma
doença neurológica ou psiquiátrica. O problema ético
surge com a possibilidade de utilizá-la para aprimorar o que é normal,
uniformizar o que é diverso, enfim, mudar a natureza humana. Tratando a
questão em seu limite, eu diria que não podemos cair no abismo de
ressuscitar práticas condenáveis como a eugenia, que foi uma das
aberrações éticas dos nazistas. Também existe um risco
enorme de fazer generalizações perigosas e errôneas.
Veja O senhor pode dar um
exemplo desse erro? Lent Há um grande debate sobre o uso
da ressonância magnética funcional como detector de mentiras. O método
tradicional de detectar mentiras mede alterações na resistência
elétrica da pele através da sudorese resultante de uma situação
de stress. No caso, do ato de mentir. Mas um psicopata desprovido de emoções
de natureza moral consegue enganar os detectores tradicionais. A idéia
prevalente é que com o uso da neuroimagem fornecida pela ressonância
magnética nem os psicopatas escapam da detecção. No caso
de um assassinato, a foto da cena do crime é exibida a um suspeito, enquanto
seu cérebro é monitorado. O pressuposto é o de que, ao reconhecer
a cena, o cérebro emitirá um sinal específico. Esse sinal
seria a prova de que o suspeito esteve no local do crime. Ora, o que se tem visto
é que a detecção de mentira pela ressonância é
sem dúvida um método mais complexo, mas não menos superficial
e falho do que o tradicional. O sinal denunciador do criminoso pode ter sido produzido
por uma lembrança inocente ou decorrente de um fato traumático mas
totalmente dissociado da cena do crime. Injustiças terríveis podem
ser cometidas se esse método for entronizado como infalível.
Veja Existe um método
seguro para saber se alguém está mentindo? Lent Não.
Os métodos funcionam estatisticamente. Isso significa que eles podem indicar
corretamente a função cognitiva ou emocional mais esperada em um
grupo de pessoas. Mas é uma temeridade considerar que se poderá
atingir uma precisão válida para cada pessoa individualmente. Esse
é o ponto. Generalizar, quando se trata do cérebro humano, é
um risco imenso. Cada indivíduo é diferente do outro.
Veja Pouquíssimas
pessoas têm ou tiveram o cérebro monitorado, e essas práticas
não devem se popularizar tão cedo. Onde está o perigo maior?
Lent Da mesma forma que os casais não resistem a ver imagens
precoces de seus bebês pelo ultra-som, é natural que, em havendo
a possibilidade, vão querer saber se seus filhos tendem a ter alguma doença
no futuro. Quem não quer saber se o filho ou filha tem propensão
para se envolver com drogas e ficar viciado? Já existem tecnologia e conhecimento
para satisfazer essas curiosidades dos pais. Como ainda não se tem definidas
as balizas éticas desses procedimentos, estamos no escuro. O filme Brilho
Eterno de uma Mente sem Lembranças, com o ator Jim Carrey, não
é muito distante da realidade. No longa, uma empresa usa a neuroimagem
para orientar uma cirurgia cerebral destinada a fazer com que o personagem esqueça
a namorada. A neuroimagem localizava as regiões do cérebro ativadas
quando o rapaz se via diante de um objeto que o fazia lembrar-se da moça,
e o técnico cauterizava essas regiões para apagar lembranças
relacionadas a ela. Do ponto de vista técnico, nada impede que um centro
hospitalar se proponha a liberar cirurgicamente as pessoas de más lembranças
e emoções amargas. Embora não se faça isso sem efeitos
colaterais graves, a verdade é que não há nenhuma norma a
respeito. Veja
A linha a separar a técnica de melhoria da vida das pessoas da técnica
perigosa para a sociedade é tênue. Como distingui-la? Lent Não há limite porque não há regras, e não
há regras porque a sociedade não discute a questão. Não
se pode depender de decisões individuais. Um bom exemplo é o da
pesquisa sobre interfaces entre o cérebro e máquinas. Um de seus
expoentes é Miguel Nicolelis, brasileiro radicado nos Estados Unidos. A
equipe dele já conseguiu fazer computadores controlar seus braços
mecânicos usando os impulsos nervosos produzidos pelos neurônios de
um macaco. A promessa médica embutida nisso é a de que, um dia,
será possível movimentar um membro artificial ou uma cadeira de
rodas apenas pela "vontade" do indivíduo. Isso seria uma excelente solução
para deficientes físicos. Mas está claro que a possibilidade se
abriria também para pessoas normais. Começam aí os problemas.
Vamos supor que uma grande empresa, como a Petrobras, adotasse uma política
de recrutar apenas operários que concordassem em implantar um chip no cérebro
capaz de, por exemplo, comandar robôs submarinos com alta precisão.
Apresentam-se 300 candidatos, e quem não quiser implantar o chip está
fora. É aceitável exigir dos trabalhadores o risco de se submeterem
a uma intervenção cerebral dessa magnitude?
Veja Isso também é futuro? Lent Não.
Os jornais já noticiaram empresas recrutando voluntários para medir
a ativação de seu cérebro enquanto assistem a um filme publicitário.
As cenas mais vibrantes, as que ativam mais fortemente as áreas cerebrais
ligadas à percepção do produto, são escolhidas para
ser usadas nas peças publicitárias. Mas o fato é que padrões
de comportamento já estão sendo alterados. A medicina está
deixando de ser curativa para ser cosmética. Isso fez com que o conceito
de melhorar o desempenho individual se tornasse aceito pela sociedade. Tome-se
o exemplo do Viagra, do Prozac e do Botox, remédios criados com fins terapêuticos
para resolver o problema da disfunção erétil, da depressão
e das alterações de tônus muscular na face. Hoje, são
ferramentas cosméticas. Veja O que podemos esperar de novo? Lent Estamos muito perto
de desenvolver medicamentos que possam melhorar a memória. Seria uma maravilha
para ajudar a vida de pacientes com Alzheimer. Mas e se alguns estudantes decidissem
utilizar tais medicamentos para melhorar seu desempenho acadêmico enquanto
outros se recusassem a fazer o mesmo? Temos um problema ético sério.
Acho difícil responder a isso com segurança. É o mesmo dilema
que a sociedade teria ao decidir se autorizaria jovens normais a fazer uso de
uma pílula da memória para disputar uma vaga de trabalho ou na universidade.
Disputar com outros que não recorreram ao auxílio químico...
Veja Se a
pílula da memória for para todos, isso não é uma boa
idéia? Lent Poderia ser uma ótima idéia, mas
insisto que é preciso que a sociedade debata essa possibilidade. Existe
enorme pressão para que se comercializem as neurotecnologias porque elas
tendem a dar muito lucro. Empresas querem patentear as técnicas e comercializá-las.
Imagine quanto dinheiro se ganharia com a pílula da memória. Dei
uma conferência recentemente, em que mostrei um catálogo com algumas
técnicas distribuído a médicos nos Estados Unidos. Era um
livro que listava empresas americanas que oferecem seus produtos, desde remédios
até chips cerebrais. Eles já estão altamente organizados.
Veja Padronizar
aparências e comportamentos é um mal em si mesmo? Lent
Quando se tem um diagnóstico preciso de uma criança com déficit
de atenção e hiperatividade, o remédio é necessário
sim. No entanto, há um limite mal definido entre as crianças com
esse transtorno e as que são apenas mais rebeldes, mais inquietas, mais
críticas, e não propriamente doentes. Pouco se sabe sobre o que
separa os doentes dos apenas rebeldes. O rebelde chateia a mãe, chateia
o pai, ele é crítico, ele se mexe demais. Então, Ritalina
nele, e todo mundo fica feliz. A mensagem que se passa é exatamente essa:
você precisa mudar para se adequar. O erro está aí. Veja Na avaliação do senhor, o que deve ser feito? Lent Tendo a achar que as neurotecnologias poderiam ficar restritas ao uso médico,
mas com a possibilidade de ser utilizadas para problemas de outra natureza se
uma junta de pessoas idôneas, não necessariamente médicos,
concordasse. Algo que salvaguardasse uma decisão individual para que ela
não fosse errada ou injusta. Seria uma maneira de a sociedade circunscrever
o problema. A questão principal no fundo é definir se o cérebro
é causa ou conseqüência das propriedades da mente humana. O
cérebro produz as capacidades mentais fortemente influenciado pelo ambiente.
Então, é ao mesmo tempo causa e conseqüência. Estamos
tentando entender melhor não só as doenças mentais, mas as
propriedades mentais dos indivíduos normais. Isso é fascinante.
Decifrar o mistério do que nos torna humanos é o primeiro passo
para impedir que um dia possamos ser desumanizados. |