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Edição 1975 . 27 de setembro de 2006

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Carta ao leitor
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Capa de VEJA de setembro do ano passado: narrativa do processo de autodestruição ética do PT

O Brasil está a uma semana do primeiro turno da eleição presidencial. Mas o que deveria ser a celebração da democracia ocorrerá sob a sombra de um escândalo cuja conseqüência mais trágica pode ser até a anulação do resultado das urnas. Fala-se aqui do episódio batizado pela imprensa de "dossiêgate". Um grupo de petistas sem escrúpulos e estúpidos, integrantes do comitê eleitoral de Lula e do núcleo íntimo do Planalto, negociou com o chefe da máfia dos sanguessugas a entrega do que seriam provas contra o ex-ministro da Saúde José Serra. A intenção era destruir sua reputação e minar sua candidatura ao governo de São Paulo, em benefício do candidato do PT, Aloizio Mercadante.

O plano foi abortado graças à Polícia Federal, que prendeu os meliantes no fim da semana passada. Um deles, ao ser indagado de onde provinham os milhares de reais e dólares que portavam em dinheiro vivo – um total equivalente a 1,7 milhão de reais –, respondeu que "do PT". Desde então, o quadro só fez piorar, com a descoberta de que da quadrilha faziam parte peixes graúdos do petismo. Entre eles, o presidente nacional do partido, Ricardo Berzoini, que foi obrigado a se afastar do cargo de coordenador da campanha eleitoral de Lula.

O quadro piora e o espanto aumenta na mesma proporção. Como é possível que o PT e Lula não tenham aprendido a lição depois de tudo o que fizeram no ano passado? Mensalão, dólares na cueca, desvio de dinheiro público... Será que nada daquilo foi suficiente para afastar a escumalha do partido e do próprio círculo íntimo do presidente? Até quando isso continuará a ocorrer? Entre tantas perplexidades e dúvidas, há duas certezas. A primeira delas é que o Partido dos Trabalhadores é hoje uma agremiação em frangalhos, sem credibilidade, resultado de um processo de autodestruição ética já apontado por uma reportagem de capa de VEJA de setembro do ano passado. A outra certeza é que, desta vez, a crise não poderá ser contida nos círculos eminentemente políticos. A negociata que redundou no "dossiêgate" é objeto de um processo conduzido pelo Tribunal Superior Eleitoral que poderá, em última instância, levar até à impugnação da candidatura de Lula ou à cassação de seu diploma de presidente, caso venha a ser reeleito. A lei eleitoral não deixa dúvida: o candidato é o responsável por todas as ilicitudes financeiras cometidas por seu comitê de campanha. À luz da lei eleitoral não adianta alegar que não sabia ou que afastou o companheiro depois do crime cometido.

 
 
 
 
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