'
 


    

 
Edição 1975 . 27 de setembro de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
Veja.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

André Petry
Um domingo espanhol

"Quando o eleitor percebe que está sendo
vítima de manipulação, que o governante é
um enganador, levanta-se – e usa as urnas
para mandar seu recado. Num bordel, isso não existe"

Em março de 2004, faltando poucos dias para a eleição na Espanha, aconteceu um terrível atentado que matou 191 pessoas em Madri. Logo o governo conservador de José María Aznar tentou manipular o episódio eleitoralmente – já sabia que as bombas eram obra do terrorismo islâmico, mas mesmo assim difundiu a falsa informação de que eram coisa de terroristas bascos. Achava que, sendo o atentado obra dos separatistas bascos, seu rival, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, sofreria prejuízos eleitorais. Antes do atentado, as pesquisas, inclusive, davam vantagem aos partidários de Aznar. O mundo lhe parecia perfeito. Mas a tática de ludibriar o eleitorado espanhol revelou-se um rombo pela culatra: os espanhóis descobriram a manobra e viraram as pesquisas. Zapatero foi eleito. Está no poder até hoje.

O episódio serve para mostrar a diferença entre um país e um bordel. Um país é assim: quando seu eleitorado percebe que está sendo vítima de manipulação, quando tem evidências de que o governante é um enganador, levanta-se – e usa as urnas para mandar seu recado. Num bordel, isso não existe.

O escândalo do dossiê é uma excelente oportunidade para o eleitorado brasileiro mostrar que vive num país. Nem precisa virar a eleição. Basta que, com seu voto, provoque a realização de um segundo turno na eleição presidencial. Basta que os eleitores envergonhados, aquela massa com pleno acesso à informação que vota em Lula mas não conta a ninguém, façam uma concessão ao tempo e uma homenagem ao debate. A esta altura, é o mínimo que um país, um país de verdade, poderia fazer.

Isso não significa que Lula não possa ser reeleito. Pelas regras do jogo, é claro que pode, desde que tenha mais votos que seu adversário. Talvez até venha mesmo a ser reeleito, a julgar pelo que informam as pesquisas. A questão é que um segundo turno, mesmo que não mude o resultado final da eleição, mesmo que acabe dando vitória a Lula e sacramentando a derrota de Geraldo Alckmin, mesmo assim, ajudaria a deixar o Brasil mais parecido com um país decente, no qual a sociedade pergunta e o candidato responde.

O segundo turno é entre dois candidatos e, nessas condições, fica mais difícil para qualquer um deles negar-se aos debates na televisão. Assim, vira uma chance de diálogo com o país: o presidente poderia explicar muitas coisas do passado e algumas coisas do presente. Se quisesse, numa resposta só, falar do passado e do presente, poderia explicar por que todo escândalo produzido pelo gangsterismo petista sempre chega às vizinhanças de seu gabinete no Palácio do Planalto. Por quê?

O segundo turno ainda tem a vantagem de evitar o triunfo da arrogância. Resolvendo a parada já no próximo domingo, Lula talvez se sinta revigorado para retomar a defesa da tese de que tudo – o mensalão, os bingos, o lixo, o caseiro, as cartilhas, o dossiê... – não passou de conspirata da elite.

O Brasil ganharia se fizesse um domingo espanhol.

 
 
 
 
topovoltar