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TELEVISÃO

 
Fox Filmes
A Van: confusões na Irlanda

A Van (quinta às 22h, na Fox) – As primeiras cenas de A Van parecem o prenúncio de um dramalhão. Num balcão de bar, um pai de família que acaba de perder o emprego chora as mágoas na frente de seu melhor amigo. Mas guarde seu lenço: nesta espirituosa comédia do inglês Stephen Frears, a tristeza logo dá lugar a uma esperta combinação de humor e crítica social. Quando os dois camaradas (Donal O'Kelly e Colm Meaney) juntam forças para transformar um furgão caindo aos pedaços em lanchonete ambulante, o resultado é só encrenca. Baseada em romance do irlandês Roddy Doyle, a fita tem por cenário uma Dublin cinzenta, mas de alto-astral.

 

LIVROS

Bandeiras Pálidas, de Michael Ondaatje (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 348 páginas; 29,50 reais) – Nascido no Sri Lanka e criado na Inglaterra e no Canadá, o autor do celebrado romance O Paciente Inglês escreve pela primeira vez sobre sua terra natal. Bandeiras Pálidas tem como pano de fundo a guerra civil que, em vinte anos, já matou mais de 50.000 pessoas naquele país. O livro é protagonizado pela antropóloga Anil Tissera, jovem que retorna ao Sri Lanka depois de mais de dez anos na Europa. Ela é designada pela Comissão de Direitos Humanos em Genebra para investigar crimes de guerra ao lado de Sarath, arqueólogo escalado pelo governo local. "Não quis fazer um livro panfletário. Mas um estudo sobre como as pessoas se comportam em meio a uma guerra", disse o autor numa entrevista recente. Ondaatje, sem dúvida, atingiu seu objetivo.

Charles Bukowski: Vida e Loucuras de um Velho Safado, de Howard Sounes (tradução de Tatiana Antunes; Conrad; 344 páginas; 34 reais) – Charles Bukowski (1920-1994) dizia que o conteúdo de seus livros era 93% autobiográfico. Nesta obra, o jornalista inglês Howard Sounes não apenas traz à tona aqueles 7% que ficaram faltando, como ainda desfaz mitos que o próprio Bukowski ajudou a disseminar. Ele aponta os pendores bissexuais do escritor beatnik, mostra que ele era menos pobretão do que aparentava e que mentia muito sobre seus abusos com drogas. Amparado em extensa pesquisa, Sounes faz um retrato divertido desse sujeito desbocado e beberrão, que envergou como ninguém o figurino de autor maldito e foi herói para uma ou duas gerações.

 

DISCOS
Dilmar Cavalher/Strana
Lulu Santos: hits que grudam na memória

Acústico, Lulu Santos (BMG) – Lulu Santos é um artista capaz de produzir melodias que grudam inapelavelmente na memória. A lista acumulada em mais de duas décadas de carreira não deixa dúvidas: Tempos Modernos, Aviso aos Navegantes, Assim Caminha a Humanidade e muitas outras. Aos 47 anos, Lulu viu-se diante de um problemão quando resolveu gravar seu especial Acústico para a MTV. Com tantas músicas no currículo, foi preciso dividir a retrospectiva em dois CDs. O lançamento, que traz ainda cinco inéditas, como o hit Made in Brazil, está disponível em três versões. Pode-se comprar o disco duplo, com todas as 23 faixas, ou cada um em separado.

Dois Momentos, Novos Baianos (Continental) – Concebida pelo baterista dos Titãs, Charles Gavin, a série Dois Momentos é um bem-cuidado resgate de obras dos anos 70 que estavam fora de catálogo. Cada lançamento reúne, em um só CD, dois títulos de um mesmo artista. Boa parte dos originais foi encontrada num velho depósito da gravadora Continental e recuperada em estúdio. Os lançamentos vêm acompanhados de encarte com fotos raras. O melhor dos treze discos saiu meses atrás: a coletânea do grupo Secos & Molhados – aquele em que Ney Matogrosso estreou seu visual de plumas e paetês. Agora, está chegando às lojas o CD dos Novos Baianos, a banda-comunidade hippie de Pepeu Gomes, Moraes Moreira e companhia. É um item precioso para os fãs. Especialmente porque traz a íntegra de Novos Baianos F. C. (1973), segundo trabalho dessa turma animada – um disco ensolarado, rico em suingue e achados melódicos.




LITERATURA BRASILEIRA

Inferno

Patrícia Melo
Companhia das Letras;
367 páginas;
29 reais

O lançamento de Inferno é uma redenção para Patrícia Melo. Seu livro anterior, Elogio da Mentira (1998), havia sido um clangoroso fracasso. Confuso e mal-acabado, ele não fazia jus à fama da escritora, considerada pela crítica uma das mais promissoras a estrear nos anos 90. O novo romance, entretanto, reafirma que ela tem talento. Patrícia explora um assunto que o carioca Paulo Lins teve o mérito de trazer à tona na ficção brasileira: as "neofavelas" do Rio de Janeiro, que não são mais habitadas pelos veneráveis malandros de outrora, e sim por traficantes de drogas armados até os dentes. Inferno acompanha a trajetória de Reizinho, uma criança do morro que vai galgando degraus na hierarquia do tráfico. Mas muitos outros personagens contribuem para que um painel social bastante amplo seja traçado: funkeiros, policiais, evangélicos, prostitutas e assim por diante. Patrícia se mostra afiada ao lidar com detalhes como vestuário ou gostos musicais, que ajudam a compor um personagem. Quanto à narrativa, tem andamento acelerado, e realmente segura o leitor.

Inferno, contudo, não é um romance perfeito. Há momentos em que a obra sai do tom. Patrícia optou por observar o universo dos favelados a partir de dentro. Todo seu esforço é no sentido de mostrar como funciona esse universo, de entendê-lo, de observá-lo de maneira objetiva e neutra. É claro que há figuras "boas" e "ruins", mas os critérios para julgá-las nascem da própria história. Às vezes, no entanto, ocorrem deslizes. Isso é bastante visível na descrição de Carolaine, a irmã fútil, glutona e preguiçosa de Reizinho. Patrícia não consegue esconder a antipatia que nutre pela personagem – ou pelo "tipo social", como talvez se pudesse dizer. Atenção: o problema não está no fato de a autora se mostrar politicamente incorreta ao escarnecer de uma moça pobre. O problema está no fato de Patrícia Melo trair o ideal de neutralidade que rege sua narrativa. Há um ponto esgarçado no tecido de sua ficção.

Outra dificuldade de Inferno tem a ver com a forma de escrever da autora. Seu texto está repleto de onomatopéias, de plocs, crashes e tóins. "Pi pi pi, apitou o mestre da bateria": há algo de ridículo aqui. Além disso, Patrícia tem cultivado as frases curtas desde que estreou, com Acqua Toffana, em 1994. Frases curtíssimas, para ser mais preciso. Em Inferno, um número impressionante delas é composto de uma única palavra. Talvez a autora considere que está construindo um "estilo" único dessa maneira. Na verdade, está cedendo apenas a um maneirismo, que faria bem em controlar.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.

 

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