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Roberto
Pompeu de Toledo
Doces
aprendizes
da crueldade
Duas
semanas depois do PM mirim de Brasília, entram em cena as
crianças malhadoras do MST
Malhava-se o judas e brincava-se de soldado sem nenhuma vergonha.
Vergonha por quê?, vergonha de quê? Presentear os meninos
com revólveres de espoleta, ou mesmo espingardinhas de chumbo,
era tão inocente quanto oferecer bonecas às meninas.
E impedir as crianças de arrebentar a pauladas um boneco
de pano ou papel, no Sábado de Aleluia, soaria tão
aberrante quanto proibi-las de brincar de amarelinha. A festa de
malhação do judas, para ser completa, compreendia
as pauladas, o enforcamento numa árvore e, por fim, a queima
numa fogueira. Era a imitação de um auto-de-fé
da Inquisição. Ou, para recorrer a comparação
contemporânea, de uma sessão do DOI-Codi. Permitia-se,
ainda que com a matéria inerte de um boneco, a delícia
de torturar. Mas para que se preocupar com isso? Eram crianças.
Não tinham maldade. Protegia-as a imunidade de sua inocência
de anjos.
Foi, salvo engano, na década de 60, no rastro do geral questionamento
de hábitos e valores que caracterizou o período, que
se começou a desconfiar que dar revolverzinhos às
crianças, ou facilitar-lhes atos de sadismo como a malhação
do judas, podia não se encaixar lá muito bem num plano
de educação saudável. Tais atividades foram
caindo em desuso. Se isso já não viesse acontecendo
desde então, certamente viria a acontecer quando estourou,
adiante, a onda do politicamente correto mas há exceções,
sempre há exceções. No Brasil há dois
lugares, ou duas instituições, onde se tolera festivamente
que crianças se fa&c torturadores.
Deixa-se que elas se lambuzem em situações de simulação
de violência como não se deixaria que se lambuzassem
com o bolo, na festa dos anos.
Esses dois lugares, ou instituições, são a
Polícia Militar de Brasília e o acampamento do Movimento
dos Sem Terra em frente da fazenda do presidente Fernando Henrique
Cardoso. A Polícia Militar de Brasília incluiu, na
formação com que se apresentou ao desfile do 7 de
Setembro, dias atrás, um garboso soldadinho de 4 anos, de
farda completa, capacete e, claro, metralhadora ao ombro. Uma gracinha,
devem ter pensado os idealizadores da cena. O MST promoveu em frente
da fazenda, na semana passada, por um grupo de crianças,
a malhação de um boneco que representava o presidente.
Em seguida, o que restou do boneco foi jogado numa cova, já
decorada com cruz e vela, numa simulação do enterro
do malvado. Muito divertido, devem ter pensado os idealizadores
do ato. Ou, ao menos, muito apropriado a crianças que, a
julgar pelo que disse um dos coordenadores do MST, Gilmar de Oliveira,
ao enviado da Folha de S. Paulo ao local, William França,
andavam necessitando de uma descarga catártica daquele tipo.
"As crianças não agüentam mais esse governo,
por isso estão fazendo essa demonstração",
explicou ele.
Um observador desavisado concluiria que os dois lados, Polícia
Militar e MST, preparam as respectivas futuras gerações
para a guerra civil. Um dia, o soldadinho da PM que desfilou em
Brasília ainda haverá de confrontar-se com os meninos
e meninas que tanto odeiam o governo. Na verdade, tanto um lado
como o outro não fazem senão repetir um ritual tão
velho, por estas bandas, quanto inútil. Os índios,
segundo conta Robert Southey, em sua clássica História
do Brasil, tinham o hábito de colocar ao lado do filho
recém-nascido um pequeno arco e uma pequena flecha. Então
murmuravam, como numa reza: "Quando cresceres, meu filho, sê
forte e vinga-te dos teus inimigos". Ainda se o ritual lhes tivesse
servido de alguma coisa... Como se sabe, porém, desde então
os índios só conheceram derrotas. Donde se conclui
que brincar de armas, ou incutir o ódio numa criança,
não apenas são práticas deseducativas, segundo
os padrões de hoje. Também não garantem o futuro.
As crianças do MST, eis o detalhe mais cruel da história,
enforcavam o boneco, ou, para ser mais fiel aos fatos, o matavam
a pauladas, enquanto ao mesmo tempo enforcavam as aulas. As cerca
de quarenta delas que acompanhavam os pais na ofensiva contra a
fazenda do presidente ficaram duas semanas sem ir à escola.
Estaria certo isso?, perguntou o repórter da Folha de
S. Paulo ao líder do grupo, Lucídio Ravanello.
Ravanello respondeu com outra pergunta: "E esta não é
uma boa escola?" Talvez. Mas as evidências indicam que tudo
o que deu certo, no mundo, teve início em outro tipo de sala
de aula. Se os militantes do MST abrem mão de exigir a presença
dos filhos na escola; se não se dão conta de que a
frente da educação, mais do que qualquer porteira
de fazenda, é onde se travará a batalha decisiva;
se não têm consciência de que a luta só
se definirá quando seus filhos souberem falar, fazer contas,
ler e administrar informações como os filhos dos doutores,
então... Então adeus. O futuro será o passado.
Arcaico e inconsciente da própria crueldade como uma malhação
de judas, patético em seus extremos de parvoíce como
o desfile, metralhadora ao ombro, de um soldadinho de 4 anos.
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