A
vida depois da medalha
Uma
conquista olímpica traz fama
e dinheiro, mas só para alguns
Maurício
Cardoso
Antonio Milena
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AP

ESPORTES
OLÍMPICOS
Depois de uma semana de competições de natação que consagraram
o holandês Pieter Van Den Hoogenband (acima) como o grande
herói das piscinas em Sydney, começa a fase de disputas do atletismo,
o outro esporte nobre das Olimpíadas. O brasileiro Sanderlei
Parrela corre em busca de medalha nos 400 metros, mas sua vitória
já está garantida: foi absolvido na última hora da acusação
de doping |
Na
semana passada, quem quisesse passar por entendido em natação
precisou aprender rápido o nome de Pieter Van Den Hoogenband,
o homem que tirou do australiano Ian Thorpe a aura de fenômeno.
Além de derrotar o australiano nos 200 metros nado livre,
Pieter também emergiu das águas de Sydney como o homem
que derrotou o antes invencível russo Alexander Popov nos
100 metros. De quebra, baixou o recorde mundial das duas provas
e ganhou outras duas medalhas de bronze (nos 50 metros, e no revezamento
4 x 200). Com Popov sentado a seu lado durante uma entrevista coletiva
final, quase se desculpou pela audácia: "Ele é uma
lenda, eu sou apenas o melhor nadador do momento". Popov, contrariando
a norma olímpica de que todo atleta a subir ao pódio
deve comparecer à entrevista oficial vestindo a medalha,
escondia a sua no bolso era apenas de prata. "Não
posso vencer todas", concluiu, "nem posso nadar pelo resto da minha
vida." Vai completar 29 anos em novembro. Teria recusado uma oferta
de 2 milhões de dólares para trocar de marca de sunga
às vésperas dos Jogos de Sydney.
AP
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AS
SUPER-HEROÍNAS
Na
falta de astros masculinos, a velocista americana Marion Jones
e a australiana Cathy Freeman são as mais fortes candidatas
a estrelas da festa
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Na hierarquia não declarada de uma Olimpíada, as provas
masculinas dos dois esportes mais nobres dos Jogos natação
e atletismo costumam ter peso de marketing e de mídia
ligeiramente maior. Tanto é assim que as duas medalhas de
ouro, além de uma provável terceira, e uma de prata
da nadadora Inge de Bruijn, também holandesa, não
tiveram o mesmo efeito eletrizante das vitórias de seu compatriota.
Em Sydney, à falta de estrelas maiores e novas
no atletismo masculino, tudo aponta para a celebração
de atletas mulheres, como a americana Marion Jones e a australiana
Cathy Freeman. Uma das presenças mais esperadas na pista
do Estádio Austrália, desde sexta-feira passada, deveria
ser a da francesa Marie-José Perec, duas vezes vencedora
olímpica dos 400 metros rasos. Mas Perec "quebrou" diante
das pressões de sua fama, de seu público, dela mesma.
Tomada de pânico, simplesmente fugiu de Sydney 48 horas antes
de pisar na pista, e voltou para a França. Viagem em sentido
contrário, também às pressas, fez o atleta
santista Sanderlei Parrela, forte candidato brasileiro a uma medalha
nos 400 metros rasos. Suspenso das corridas e impedido de disputar
as Olimpíadas sob a acusação de doping, Sanderlei
recebeu na terça-feira a notícia de que a pena havia
sido revogada. Vice-campeão mundial na modalidade
perdeu apenas para o campeoníssimo Michael Johnson ,
ele treina em San Diego, nos Estados Unidos, e vai tentar dar uma
arrancada para a fama.
Tarefa ainda mais difícil para quem atua numa modalidade
esportiva como o judô. Tiago Camilo viveu o mais desconcertante
momento de sua vida na última segunda-feira, durante os quinze
minutos que separaram o final da disputa e a cerimônia de
premiação dos vencedores da categoria dos leves no
judô olímpico. Camilo terminou sua primeira participação
nas Olimpíadas, estirado no dojô, com a cara na lona,
derrotado com um humilhante ypon, o equivalente no judô a
um nocaute, aplicado pelo italiano Giuseppe Maddaloni. Terminava
ali o sonho de se tornar campeão olímpico alimentado
em mais de dois anos de treinamentos e dedicação.
Arrasado, Tiago não chorou, mas deixou transparecer no rosto
toda sua decepção. Quando voltou ao tatame alguns
minutos mais tarde para receber a medalha de prata de vice-campeão,
sua expressão já era outra, quase de euforia. Ele
se dera conta do feito notável que realizara. Ganhar uma
medalha olímpica é uma façanha para pouquíssimos
seres humanos. No Brasil, depois de oitenta anos de participação,
os medalhados podem ser contados facilmente. Antes de Tiago se incorporar
à lista, eles eram 158 homens e 28 mulheres. "Fiquei muito
abalado com a derrota, mas logo caiu a ficha e entendi que uma medalha
numa Olimpíada é um privilégio reservado para
poucos", disse Tiago.
Antonio Milena
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O
VÔLEI SONHA ALTO
O jovem atacante Dante sobe para marcar um de seus
24 pontos na vitória de 3 a 0 contra a Holanda e se apresenta
ao mundo ao reafirmar a posição brasileira de forte concorrente
às medalhas do vôlei de quadra
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Com 18 anos de idade completados em maio, Tiago Camilo é
o mais jovem ganhador de medalha do judô nestas Olimpíadas.
Dono de um talento natural para a luta que impressiona os especialistas,
ele tem pela frente uma ampla e iluminada avenida para fazer sucesso
no esporte. Só não tem certeza sobre o dia de amanhã.
O judô, praticado por 2,5 milhões de brasileiros, não
costuma fazer milionários ou transformar desconhecidos em
ídolos, o que acontece em outros esportes como o futebol
ou o tênis. Desde 1964, quando passou a integrar o programa
dos Jogos, deu dez medalhas ao Brasil. O único brasileiro
que conseguiu faturar alguma fama e dinheiro no tatame foi o meio-pesado
Aurélio Miguel Fernandez. Campeão olímpico
em 1988 e medalha de bronze em 1996, Miguel ainda atua e por pouco
não viajou a Sydney para as Olimpíadas. Com talento
tanto para a luta como para o marketing, não ficou rico como
um jogador de futebol, mas é um nome conhecido em todo o
país e fatura com isso. É um dos raros judocas que
vivem do judô mesmo sem ter aberto uma academia, como fez
o outro medalhista dourado da categoria, o santista Rogério
Sampaio.
Miguel é uma exceção. A regra é o que
ocorre com Carlos Honorato, 25 anos, o peso médio que ganhou
a segunda medalha de prata em Sydney, dois dias depois de Tiago
Camilo. Em 1994, quando foi disputar o Campeonato Mundial Júnior,
na Europa, Honorato só conseguiu viajar graças à
ação entre amigos dos alunos da Academia de Judô
Vila Sônia, de São Paulo, onde treinava na época.
"Meus companheiros fizeram festas e rifas para levantar o dinheiro
da viagem", lembra-se Honorato, filho de um mecânico de aviação
aposentado. O judô é, ainda, um dos raros esportes
que em vez de dar, tira dinheiro de seus atletas. Até pouco
tempo atrás, judoca que quisesse participar de competições
internacionais tinha de pagar a própria passagem, e ainda
ratear com os colegas os custos de viagem do técnico e outros
agregados. "Se fosse por dinheiro eu nunca faria o que fiz na tentativa
de ganhar uma medalha", diz a judoca Vânia Ishii, que voltou
para casa na semana passada com um sétimo lugar nas Olimpíadas,
mas com a frustração de ver sua medalha escapar no
ypon que recebeu da belga Gella Vandecaveye.
Antonio Milena
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BRONZE
SUADO
Edvaldo Valério, Carlos Jayme,
Gustavo Borges, Fernando Scherer juntaram experiência
e sangue novo para manter a tradição
de
medalha da natação brasileira nas duas últimas
Olimpíadas e garantiro bronze no revezamento
4
x 100 livre. A vida dos
nadadores brasileiros fica cada dia mais difícil num
ambiente em que a
quebra de recordes acontece às dezenas
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Não
é por dinheiro que o último campeão do milionário
torneio de tênis de Roland Garros está enfrentando
o bandejão e os alojamentos modestos da Vila Olímpica.
Gustavo Kuerten está em Sydney por mero prazer. Em pouco
mais de cinco anos, ele usou sua raquete e talento para acumular
um patrimônio de 20 milhões de reais e foi o único
atleta brasileiro a discutir as condições contratuais
de patrocínio para vestir o uniforme da delegação.
Esse tipo de problema jamais preocupou um judoca. No judô,
os atletas competem descalços e de quimono, uma roupa que
só serve para lutar judô. Para eles, a possibilidade
de fazer publicidade de artigos ligados ao esporte é praticamente
nula. Para anunciar outros produtos, dependem exclusivamente da
habilidade e do carisma. Guga soube reunir as duas vantagens. Além
de ser um fenômeno empunhando uma raquete, ele irradia uma
simpatia que contagia tudo e todos a sua volta. Foi o que ocorreu
na Vila Olímpica, onde dividiu uma casa com judocas, nadadores
e o treinador do basquete feminino Antônio Carlos Barbosa.
"Ficamos alojados na mesma casa e ele sempre incentivou e brincou
com todo mundo lá", diz Carlos Honorato, maravilhado de poder
compartilhar a moradia com o maior ídolo do esporte brasileiro
no momento.
Evandro Teixeira/COB/Divulgação
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FORÇA
JOVEM
Carlos Honorato teve sua chance e a
agarrou com firmeza. Reserva da equipe brasileira de judô,
ele foi chamado a substituir um colega que se contundiu
e
colocou a prata no peito. A
mesma façanha que já
havia sido conquistada pelo mais jovem medalhista da modalidade,
Tiago Camilo, de 18 anos
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Se em alguns casos, como o de Guga, o pacote do sucesso já
vem pronto, em outros é preciso construí-lo. E aí
o que conta, mais do que as habilidades atléticas, é
a capacidade de vendedor de cada um. Tome-se como exemplos Gustavo
Borges e Fernando Scherer, o Xuxa, os dois suportes do êxito
da natação brasileira nos últimos tempos e
os responsáveis pelas duas primeiras etapas do revezamento
4 x 100 metros nado livre que ganhou a medalha de bronze no sábado
anterior, em Sydney. Gustavo Borges tem duas medalhas de prata e
duas de bronze, contra apenas duas de bronze de Xuxa. Mas para cada
real que Gustavo fatura em publicidade, Xuxa atrai um número
maior de contratos. Enquanto isso, Edvaldo Valério e Carlos
Jayme, os outros nadadores que completam a equipe de revezamento
e que só agora ganharam sua primeira medalha, continuam quase
anônimos como qualquer judoca. O que a medalha pode fazer
por eles, só o tempo dirá. Para o iatista Robert Scheidt,
o atleta com forte chance de se tornar o segundo brasileiro a conquistar
duas medalhas de ouro na história, ela fez muito. Praticamente
desconhecido, Scheidt teve sua carteira recheada com novos contratos
de patrocínio e de publicidade depois que a vitória
na classe Laser nas Olimpíadas de Atlanta o revelou para
o mundo. O moderno espírito olímpico, ainda que movido
por anseios de glória, não mais sobrevive se não
trouxer junto um bom contrato de publicidade. Carlos Honorato e
Tiago Camilo, os mais novos integrantes do rol de medalhados do
Brasil, aceitam propostas.
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