Socorro,
mala sumida
Indenização de 300 000 reais dá
ânimo
aos passageiros que
não recuperam a
bagagem despachada
Silvia
Rogar
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| Do
aeroporto para o porão do avião: etiquetas e separação
manual |
Quem
já passou pela experiência sabe: o caminho certo para
uma pessoa se sentir a mais azarada do planeta é, ao final
de uma viagem aérea, ver todas as bagagens chegar e ser retiradas
da esteira, menos a sua. O trauma é terrível. Depois,
fica pior ainda, com a romaria a balcões de empresas aéreas,
cartas, listas, protocolos, tentativas de acordo e, em última
instância, um processo na Justiça para recuperar em
dinheiro o valor de objetos muitas vezes insubstituíveis.
É raro alguém sair da maratona satisfeito, mas às
vezes acontece. Em 1998, a médica carioca Marília
de Brito Gomes participou de um congresso em Pittsburgh, nos Estados
Unidos, e na volta deu uma parada em Nova York. Nunca mais encontrou
as duas malas que despachou, no vôo da United Airlines. Inconformada,
processou a companhia aérea e acaba de colher o resultado
da briga: a United foi condenada, ainda em primeira instância,
a pagar uma inusitada indenização de 302.000 reais
à médica, provavelmente a maior já fixada para
esses casos no Brasil. Em geral, esse tipo de ação
não rende mais que 4.000 dólares (cerca de 7000 reais)
ao reclamante.
A companhia aérea, naturalmente, já anunciou que vai
recorrer da decisão da Justiça. "É um valor
desproporcional à convenção que rege o tráfego
aéreo comercial", diz Ricardo Bernardi, advogado da United.
Trata-se de um documento mais do que favorável à empresa
aérea, única responsável pela entrega de cada
bagagem a seu proprietário no fim da viagem. A Convenção
de Varsóvia, assinada em 1929, fixa o pagamento de 20 dólares
por quilo de bagagem extraviada, o que dá, em média,
400 dólares. Por estar tão ultrapassada, muitos juízes,
no Brasil e em outros países, atualmente julgam os processos
dos sem-bagagem levando em consideração também
os prejuízos morais sofridos pelo passageiro. Além
de roupas e compras, a médica Marília alega ter perdido
o material que trazia do congresso e passado por enormes aborrecimentos
em Nova York. "A história dela não é diferente
das outras. A Justiça brasileira é que está
encarando os extravios de outra forma", analisa Antônio Mallet,
diretor jurídico da Associação de Proteção
e Assistência aos Direitos da Cidadania e do Consumidor (Apadic),
que conduziu a ação.
Calcula-se que 2 milhões de malas e objetos pessoais sejam
despachados diariamente nos aeroportos de todo o mundo. Desse total,
cerca de 20.000 volumes se extraviam, mas a maior parte retorna
às mãos do dono em uma semana no máximo. Mais
ou menos 400 volumes somem de vez numa espécie de Triângulo
das Bermudas dos aeroportos quantidade até pequena,
se se levar em conta os métodos primitivos de triagem e encaminhamento
da bagagem embarcada. Nessa hora, não há computador,
nem automação. Tudo é feito à mão,
por gente mesmo. Depois de receber a etiqueta no balcão de
embarque, a bagagem segue de esteira até um galpão.
Lá, funcionários da companhia aérea agrupam
as malas, no muque, de acordo com seu destino. Dentro de cada grupo
há subdivisões referentes às escalas que o
vôo possa ter. Assim ajeitados, os volumes são embarcados
no porão do avião. Aí, é cruzar os dedos
para tudo dar certo.
AP
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Selmy Yassuda
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| Mercadorias
chegam à loja de bagagens sem dono nos EUA: pechinchas
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Câmara:
roupas de frio perdidas |
Se
não der, prepare-se. Em vôos internacionais, as companhias
aéreas brasileiras dispõem-se a pagar, sem discutir,
até 400 dólares por mala extraviada. Nos vôos
nacionais, o teto é de 505 reais. Quem quiser mais, tem de
brigar. Já nos Estados Unidos, o berço das indenizações
milionárias, as companhias aéreas costumam negociar
com mais liberalidade e os acordos chegam a 3.000 dólares,
sem que se precise ir à Justiça. Importante, sempre,
é reclamar. Em 1998, a mala do agente de viagens Alexandre
Sette e Câmara sumiu num vôo da Vasp da ponte aérea
RioSão Paulo. Na capital paulista, ele embarcou para
o Canadá sem uma peça de roupa além das que
trazia no corpo. Agora, move uma ação contra a empresa.
"Perdi as minhas melhores roupas de frio", diz. Onde, afinal, terá
ido parar a bagagem de Câmara? Somou-se, provavelmente, às
malas não identificadas que as companhias aéreas guardam
por algum tempo (três meses, no caso das brasileiras) num
depósito com nome e sobrenome Lost Luggage ("bagagem
perdida"), ou LL que fica dentro de suas dependências,
no aeroporto. Passado o prazo de busca do dono, as companhias abrem
a mala e juram que distribuem tudo entre pessoas carentes. A Varig
encaminha os objetos para os escritórios da Fundação
Rubem Berta. Roupas mais leves vão para o Nordeste, casacos
pesados, para o Sul. A TAM admite: artigos como baterias de celular
e acessório de computador sem dono podem ser incorporados
ao patrimônio da empresa. Roupas vão para instituições
beneficentes, que no próximo ano também vão
usufruir dos lucros de um bazar de objetos sem dono. "Já
apareceram coisas como pranchas de surfe e berimbau, sem identificação",
diz seu gerente de tráfego, Marco Barbosa.
Não há resquício nem pretensão de beneficência
no destino das bagagens sem dono nos Estados Unidos: são
todas passadas nos cobres. É costume, entre as companhias
aéreas, vender a preço de banana o conteúdo
das malas e pacotes para o Unclaimed Baggage Center (UBC), loja
fundada em 1970, que ocupa um quarteirão inteiro na minúscula
Scottsboro, Estado de Alabama, onde é atração
turística. No UBC, lotado de computadores, jóias,
CDs e quilômetros de livros (quem viaja sem pelo menos um?),
máquinas fotográficas de todas as marcas custam 25
dólares e um paletó de cashmere Armani, 85 dólares.
Um tubo de creme de barbear, aberto e usado, sai por 1 dólar.
Já pensou chegar lá e dar de cara com roupas e lembrancinhas
perdidas numa viagem infeliz? Não, é melhor nem pensar
numa hipótese tão horripilante.
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