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Rápida e eficiente para defender o Palácio da Liberdade de inimigos que só existem na cabeça confusa do governador Itamar Franco, a polícia mineira enfiou os pés pelas mãos e se paralisou quando foi chamada a prevenir e resolver crimes que atemorizam de verdade a população mineira. O primeiro assassinato de mulher foi tratado como coisa corriqueira. O segundo, ocorrido dias depois em circunstâncias parecidas, também não chamou a atenção da polícia de forma especial. Quando o terceiro corpo de mulher com marcas de tortura e estrangulamento apareceu na mesma região, a polícia de Belo Horizonte se viu forçada a mostrar algum serviço. Os crimes misteriosos começaram no início do ano passado. Desde então, os registros de vítimas vão se somando nos arquivos das delegacias. Quinze mulheres desapareceram, das quais nove foram encontradas mortas. Sete com sinais de estrangulamento, uma degolada e outra abatida a tiros. Todas elas atacadas num misterioso Triângulo das Bermudas urbano, numa área de 10 quilômetros de raio em torno do campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na região da Pampulha, bairro residencial elegante da capital mineira. Até agora, as investigações não saíram do ponto zero.
"Os policiais estão sem pistas", diz o advogado Helvécio Pinheiro, presidente da Associação de Familiares e Amigos de Pessoas Desaparecidas de Minas Gerais. Helvécio é irmão da secretária Elizabeth de Souza Pinheiro, de 38 anos, que desapareceu em março do ano passado no campus da universidade, onde trabalhava. Há três semanas, a estudante de história Viviane Gonzaga, de 21 anos, foi atacada na mesma região por um agressor jovem que tentou estrangulá-la usando uma corda. Durante o ataque, a estudante desmaiou e o agressor fugiu, sem deixar pistas. "Ele estava bem-vestido, chorava copiosamente e falava palavrões", contou Viviane logo após se refazer do susto. "Pensei que iria ter o mesmo fim das outras mulheres." Os dois episódios ocorridos dentro do campus deixaram funcionários e alunos da UFMG em pânico. Os alunos já estavam alvoroçados com as notícias das mortes de mulheres nas proximidades. Quatro corpos apareceram numa mata nativa de aproximadamente 2 milhões de metros quadrados, que contorna a universidade. A reitoria mandou instalar um sistema de vigilância eletrônica nas vias de entrada do campus e doou duas viaturas para a Polícia Militar reforçar as rondas. Funcionários e clientes de um shopping center próximo à universidade também tiveram de alterar sua rotina com a seqüência de crimes insolúveis. "Está todo mundo assustado aqui, com medo de ser a próxima vítima", diz a vendedora Iara Pereira. O movimento de clientes à noite caiu em média 30%, forçando os lojistas a se cotizarem em cerca de 50.000 reais para aumentar a segurança externa do shopping. Os delegados não crêem na existência de uma versão mineira do "Maníaco do Parque" Francisco de Assis Pereira, o motoboy que dois anos atrás confessou ter matado nove mulheres em um parque em São Paulo. "Não acredito nessa hipótese. Os casos aqui não parecem ter conexão entre si", diz o delegado Edson Moreira, chefe da Divisão de Crimes contra a Vida. "Se não há um maníaco atuando na região, então há vários, o que é muito mais aterrorizante", comenta a dona-de-casa Wanda Miranda, irmã da bancária Elizabete da Silva Nogueira, de 36 anos, que desapareceu em maio do ano passado. Ao responder às críticas de familiares das mulheres desaparecidas, o secretário de Segurança Pública de Minas Gerais, Mauro Lopes, saiu-se recentemente com uma resposta estúpida. "Não é obrigação da polícia ficar caçando coisas no meio do mato", disse ele. O único caso solucionado pela polícia mineira até agora, o da morte da empregada doméstica Cleusilene Miranda, de 25 anos, teve um desfecho infeliz. O corpo dela foi encontrado, degolado, em uma galeria de esgoto nas proximidades da mata da universidade. A polícia culpou o traficante Leandro Ferreira de Carvalho, de 23 anos, o "Leco", que fora visto com a vítima no dia do crime, mas nunca conseguiu prendê-lo. Há suspeitas de que Leco tenha matado pelo menos mais duas mulheres na região.
Com reportagem de Neide Oliveira
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