Uma
decisão corajosa
Brasileiros começam a dar chance na
adoção a crianças não-brancas, doentes
e mais velhas
Silvio Ferraz
Fotos Selmy Yassuda
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A cineasta Tizuka Yamazaki com Ilya e o filho adotado, Fábio,
de 21 anos (à dir): "Valeu a pena" |
Uma
pesquisa inédita feita pela psicóloga Lídia
Weber, da Universidade Federal do Paraná, traz uma revelação
muito interessante. O número de casais que dizem adotar crianças
por "caridade, pena ou amor ao próximo" já ocupa a
segunda colocação entre os motivos que os levam a
buscar uma criança numa instituição de amparo.
Na prática, isso significa que os casais brasileiros começam
a ter um perfil semelhante ao dos estrangeiros. Ou seja, embora
o ideal ainda continue sendo o bebê branco, saudável,
de preferência louro e de olhos azuis, as crianças
com características antes consideradas indesejáveis
já estão sendo adotadas. As pesquisas mostram que
30% das crianças adotadas são negras ou mulatas, 25%
sofrem de alguma doença e 38% das adotadas já passaram
da fase considerada ideal ou seja, têm mais de 3 meses
de vida.
Segundo
dados do Juizado da Infância e Juventude do Rio de Janeiro,
casais brasileiros têm adotado crianças que antes só
eram desejadas por estrangeiros. A enfermeira Eliana Alves Vidal
e seu marido, Saulo Salgado Wanderley, engenheiro de Furnas Centrais
Elétricas, também optaram por uma adoção
pouco convencional. Com três filhos saudáveis, o casal
decidiu adotar Bárbara, com 3 meses de idade e uma lesão
cerebral. "Pensamos: se não a adotarmos, quanto tempo ela
passará presa a um leito de hospital? Além do mais,
eu não consigo ver criança perambulando pela rua",
emociona-se Eliana. Hoje, Bárbara é a alegria da casa.
"Meus filhos disputam o privilégio de dar banho, colocar
fraldas ou levá-la para dormir. Somos mais felizes", conta
Eliana. O casal Gisele e George Cardoso Campos, ela com 24 e ele
com 28 anos, enfrentou um maremoto emocional a partir de 1998, quando
se inscreveu para adotar. Apresentados a duas gêmeas com 40
dias na Maternidade Herculano Pinheiro, no Rio de Janeiro, encantaram-se
e receberam a guarda provisória, informados de que as meninas
gozavam de ótima saúde. Era falso. As meninas, rebatizadas
como Stefany e Tifany, eram portadoras de HIV. Stefany tem um extenso
coágulo cerebral e é epiléptica. Decidiram
reinternar as duas em uma instituição para pensar
no que iriam fazer, já que a adoção não
se encontrava formalizada. Ao final de 21 dias, não resistiram.
Resgataram as gêmeas. Hoje com 1 ano e 8 meses, recebem tratamento
gratuito contra o HIV no Hospital Universitário Clementino
Fraga Filho, mas a conta da farmácia gira em torno de 300
reais mensais. Apesar de tudo, Gisele não hesita em dizer
como se sente: "Muito mãe". Cleonice e Sérgio Bernardo
dos Santos, já avós, levaram para casa Karolyne, aos
9 meses, com inflamação generalizada, vítima
do excesso de antiabortivos tomados pela mãe biológica.
Segundo o pediatra, Karolyne driblou a morte várias vezes.
Hoje, passados dezoito meses, é absolutamente saudável.
O médico diagnosticou a cura: "O remédio foi o amor
que vocês foram capazes de dar".
Anteriormente, não fosse pelos 3% de estrangeiros que vêm
adotar no país, crianças maiores de 2 anos, negras
e mulatas ou doentes ficariam até a maioridade nas instituições.
Em outra trincheira, lutando para estimular adoções,
a secretária de Ação Social do Rio de Janeiro
e mulher do governador, Rosinha Matheus, lança logo após
as eleições um plano inédito no Brasil. Do
alto de sua experiência como mãe de nove filhos, cinco
dos quais adotados, Rosinha proporá que cada funcionário
público que adotar uma criança maior de 8 anos com
alguma enfermidade tenha uma ajuda de quatro salários mínimos
mensais em seu contracheque. No caso de criança com até
8 anos, saudável, o auxílio será de dois salários
mínimos.
Começa a se desfazer também outro nó que mantinha
as crianças longe de pais adotivos. O juiz Siro Darlan, da
Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, tornou-se
um exemplo dessa nova mentalidade. Em quatro anos conseguiu reduzir
de 11.000 para 5.400 o número de crianças internadas
em instituições sob sua guarda. De pé, diante
de uma pilha de processos, o juiz Darlan despacha sem preconceito.
Casados, solteiros, homossexuais e estrangeiros recebem acolhida
favorável, desde que vençam a extensa bateria de testes,
entrevistas e avaliações psicológicas.
A construção da nova família é empreitada
sempre delicada. A cineasta Tizuka Yamazaki tem uma história
para contar. Sua vida virou pelo avesso ao adotar Fábio,
então com 7 anos, hoje com 21. Em 1986, Tizuka já
era mãe do menino Ilya, na época com 4 anos. Ilya
a pressionava para ter um irmão. Resolveu adotar. "Não
queria passar pela gravidez de novo. Adotei Fábio apesar
de alertada sobre seu temperamento. O menino havia sido abandonado
três vezes: pela mãe, pela avó, pela madrinha.
Uma vez já é um trauma indescritível. Três,
nem se fala", lembra a cineasta. "Mas hoje tenho certeza de que
valeu a pena. Seria mais pobre sem ele."
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Um
refúgio para quem não consegue ser adotado
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| Crianças
no playground da Aldeia SOS Brasil |
A
obra Aldeia Infantil SOS, fundada em 1949, na Áustria,
pelo pedagogo Hermann Gmeiner, é uma das mais criativas
alternativas à adoção. Impressionado
com o número de viúvas e órfãos,
Gmeiner tratou de juntá-los. "Mães sociais"
passaram a tomar conta de "filhos sociais" como se fossem
sua família original. Hoje, a organização
se espalha por 131 países, atendendo 68 000 crianças.
No Brasil, são quinze aldeias, de norte a sul, abrigando
3.700 crianças, custeadas por doações
de empresas e pessoas. Nem um só níquel do governo.
Patrícia Sabina Siqueira, 34 anos, desde os 28 mãe
social, tem à sua volta oito filhos entre 6 e 17 anos.
Sua casa é construída em um aristocrático
bairro carioca com um projeto doado por Oscar Niemeyer. Recebe
125 reais mensais relativos a cada um dos filhos. Com esse
orçamento, Patrícia faz malabarismos. Na educação,
trata a família como se tivesse dado à luz cada
um dos filhos sociais. Pede, exige, disciplina. "Eles me vêem
como mãe. Isso, para um órfão, vale ouro."
Sinal do êxito: os portões estão sempre
abertos.
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