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Incêndio apagado

Um pouco de chuva e muita prevenção reduzem
o número de queimadas na Amazônia

Christian Schwartz, de Belém


Desde a década de 80, e mais ainda de dois anos para cá, era fácil prever que a partir do mês de julho milhares de quilômetros quadrados da Amazônia seriam destruídos pelo fogo. Neste ano, quem apostou assim perdeu, para sorte de uma população de 20 milhões de pessoas nas principais áreas atingidas pela fumaça das queimadas, a técnica rudimentar de preparar o solo para o plantio ou abrir novos pastos sobre a mata. Em 1998, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou uma média diária de 900 focos de calor na Amazônia. No ano seguinte, a média ficou acima de 800 focos. Diante desse retrospecto, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, disse em maio que 2000 poderia ser o "ano do fogo".

As imagens colhidas nos últimos dias pelo satélite NOAA12, usado nas medições de focos de calor, mostram um cenário diferente. No período crítico das queimadas, o total de focos detectados diariamente reduziu-se a pouco mais de 500 – 45% abaixo do índice de 1998. Em algumas das cidades mais afetadas pelo problema, como Guarantã do Norte, a 700 quilômetros de Cuiabá, a redução chegou a 80%. Em parte, a diminuição de incêndios se deve às chuvas, que chegaram um pouco mais cedo. Mas o que fez mesmo diferença foram os trabalhos de prevenção do Ministério da Agricultura e da organização não governamental Amigos da Terra e a fiscalização mais rígida.

Nas sessenta cidades mais atingidas pelas queimadas, recrutaram-se 400 pessoas transformadas em técnicos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Até churrascos foram organizados para que esses multiplicadores informassem agricultores sobre métodos alternativos de preparo do solo. "Antes os agricultores eram vistos como bandidos porque faziam queimadas", diz o chefe do serviço de monitoramento da Embrapa, Evaristo Eduardo de Miranda. Em toda a Amazônia, o total de fiscais envolvidos na repressão a queimadas saltou de 170 para 700 homens.


Oscar Cabral
Alta Floresta há dois anos: ar pior que o de Cubatão


Para os 60.000 moradores de Alta Floresta, município 800 quilômetros ao norte de Cuiabá, a redução da fumaça era imprescindível. Medidores da qualidade do ar instalados na cidade pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) marcaram nos últimos anos médias de poluição piores até do que as verificadas em Cubatão (SP) no período em que a fumaça local se tornou notícia internacional. Mesmo livre de resíduos industriais, o ar de Alta Floresta ficava carregado de substâncias como potássio, cloro e componentes do carbono, num processo que levou ao registro de 421 casos de infecção respiratória em 1999 – e menos de um quarto disso neste ano. "Os resíduos inaláveis em Alta Floresta foram reduzidos em 60%", informa o professor Paulo Artaxo, coordenador do grupo de estudos de poluição do ar do Instituto de Física da USP. "Só nós sabemos o que sofremos nos últimos dez ou quinze anos", diz a secretária de Saúde do município, Vania Nishioka.

 

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