Geral Comportamento

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Ingleses querem monitorar risco de choque de asteróides
Fungos ameaçam exército de argila chinês
Os megatransatlânticos que navegam na costa brasileira
Sobe para 103 o número de vítimas do pneu com defeito
Um terço das crianças sofre de insônia e a culpa é dos pais
A dura vida das modelos em início de carreira
As fórmulas para prever que o divórcio está a caminho
As promessas do novo Windows
Chuva e prevenção reduzem as queimadas na Amazônia
Já se adotam crianças não-brancas e mais velhas
O maníaco da Universidade Federal de Minas
Indenização milionária por mala extraviada
Medalhas, celebridades e esperanças
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Fila para ser top

Enquanto esperam a sorte grande, as modelos
vivem com pouco dinheiro e tempo de sobra

Bel Moherdaui

 
Fotos Ricardo Benichio
RR
Modelos vão ao supermercado de ônibus, dividem o apartamento com colegas e almoçam no restaurante da agência Mega, em São Paulo, sempre lotado de homens: no começo, nem sinal da fama e da fortuna das top models

Quem bate os olhos nas fotos desta reportagem percebe imediatamente: estas meninas são modelos. Em nenhuma outra circunstância se encontrariam tantos biotipos como os delas reunidos no mesmo lugar. Para chegar lá – ou seja, ter contrato com uma agência importante –, cada uma venceu em média 1 000 garotas, considerando-se a massa de candidatas nos concursos mais conhecidos. Mas onde estão o glamour, o clima feérico, as roupas maravilhosas, os sinais explícitos de sucesso material associados à profissão? Certamente não entre jovens como elas, que estão se lançando. Enquanto os cachês fabulosos não chegam, e em muitos casos isso nunca acontece, elas passam apertado, como qualquer mortal em começo de carreira. No bolso de modelo iniciante, cada moedinha é contada (no domingo em que a reportagem as acompanhou num passeio no parque, as garotas tinham entre 20 reais e nada, literalmente). Cinema é luxo – no máximo, alugam uma fita de vídeo e racham a despesa. Táxi, nem pensar: andam a pé ou de ônibus. E a concorrência está sempre aumentando, especialmente nesta época do ano, quando as maiores agências fazem concursos para o que chamam de new faces (novos rostos) e a multidão de candidatas a Gisele Bündchen entra em polvorosa. Na Elite, que promoveu no fim de agosto a final de seu Model Look, inscreveram-se 32 000 meninas do Brasil inteiro (trinta entraram para o cobiçado elenco da agência). Em outubro, é a vez de a Ford fazer a final de seu Super Model of Brazil, que teve 52.000 inscrições e de onde sairão agenciadas vinte aspirantes a modelo.

Aos 13, 14 anos, as garotas aprovadas nesses concursos suspiram de alívio e pensam que estão com a vida feita. Longe disso. "De cada dez aprovadas, em dois anos só duas ainda estão na agência. Em cinco anos, só sobra uma", calcula a diretora do New Faces e do Elite Model Look, Liliana Gomes. Nesse universo de pura beleza, em que todas têm no mínimo 1,75 metro de altura, no máximo 90 centímetros de quadril e rostinho perfeito, os motivos de um fracasso são meio imponderáveis. "Tudo isso é uma loteria. Digo para as meninas e para os pais delas que eu não tenho uma bola de cristal para saber quem vai dar certo", avisa a diretora da Ford Brasil Denise Céspedes. Na loteria, a determinação da adolescente conta muito. Gisele, a top das tops, que hoje cobra 30.000 dólares por desfile, demorou oito meses para conseguir trabalhos razoavelmente rendosos. Antes disso, amargou muitos nãos, muito ônibus, muita fila por trabalho.

Como a imensa maioria das modelos tem de sair da casa dos pais e se mudar para São Paulo, o centro das atividades relacionadas à moda, as agências costumam manter apartamentos coletivos onde congregam cinco, seis, até dez garotas, que pagam 250 reais por mês cada uma para viver semi-acampadas, entre beliches e, horror dos horrores, muitas vezes usando um único banheiro. O book, pasta cheia de fotos feitas por fotógrafo renomado, custa em média 500 reais, e o composit, uma espécie de cartão de visitas com uma ou duas fotos e as medidas da garota, 100 reais a centena. Ambos são refeitos a cada seis meses, mais ou menos. Além disso, elas gastam em torno de 300 reais por mês em alimentação, transporte e outras comprinhas – sem falar em escola (quando não largam os estudos), curso de inglês, roupas e horas de interurbano com a família. É costume a agência adiantar ao menos uma parte do valor das despesas, que as modelos pagam conforme forem trabalhando. Além disso, em torno de 30% de todos os cachês ficam para as agências. A quitação demora, já que uma iniciante ganha, em média, 300 reais por desfile e 50 reais por editorial de moda. Mais: contratos demoram uns três meses para começar a aparecer. Nas primeiras semanas, é só teste (os castings, nos quais se decide se aquele é o tipo desejado de modelo) e apresentação para clientes. "Nos primeiros meses, só fiz casting. No quarto mês, peguei um trabalho. Hoje, são mais ou menos cinco por mês e teste quase todo dia", conta Maria Angelina de Almeida, 15 anos, nascida no interior de São Paulo. E o que elas fazem quando não estão se mostrando? "A gente lava roupa, cozinha. Somos modelos e donas-de-casa", brinca a colega de apartamento Maria Cristina Jokoski, mato-grossense de 15 anos.

 
Priscila, Daniele, Paula, Thais e Maísa passeiam no parque no domingo e fazem fila para teste na segunda: dinheiro contado

Pagar as dívidas e começar a fazer algum dinheiro demora cerca de um ano. A paranaense Maísa Zandonai, 15 anos, modelo há sete meses, ainda depende dos pais. "Estou pagando minhas dívidas. Fiquei um mês parada. Na semana passada, voltei a conseguir um trabalho. Para ajudar, meus pais me mandam 50 reais toda semana", diz. Até as amenidades exigem retribuição – as agências têm acordos com restaurantes, academias, escolas e centros de estética, que as modelos freqüentam em troca de, nas festas e promoções, emprestarem sua beleza sem cobrar nada. "Hoje temos cerca de 250 vagas de cortesia distribuídas entre modelos, atletas e artistas. Com isso, trazemos um pessoal bonito e saudável para dentro da academia e, quando temos eventos ou fazemos fotos para nossa revista, eles participam", explica Gabriela Carrano, diretora de marketing da Fórmula, de São Paulo, que mantém permuta com quatro agências de modelos. Restaurantes badalados também oferecem às agências uma cota diária de vales, preenchida na base do "quem pedir primeiro leva". O esquema é mais sofisticado na agência Mega, que começou recentemente a explorar um novo filão: abriu um restaurante próprio, onde todas as suas modelos podem almoçar de graça. Vive lotado – de homens, naturalmente, e todos muito pouco interessados nas qualidades gastronômicas do lugar. "Nossas modelos levam vida de filhas de grandes executivos", exagera um dos donos da agência, Eli Hadid Wahbe – como se filhinha de papai começasse a trabalhar aos 13 anos e tivesse de economizar no xampu e no sabonete.

Shopping sem compras – Adolescentes atípicas, no supermercado seu carrinho leva filé de frango, verduras, frutas e só. Folgas são pouquíssimas. "Fui para casa, em Peruíbe, na semana em que ia fazer 15 anos. Na véspera do meu aniversário, tive de voltar para São Paulo, por causa de um teste. Acabei pegando o trabalho e só retornei tarde da noite. Minha mãe havia organizado uma festa-surpresa, mas, quando cheguei, todos os convidados já tinham ido embora", recorda-se Paula Guillen, que divide um apartamento em São Paulo com mais nove garotas. Pela manhã, só Daniele Giona, 16 anos, e outra garota vão para o colégio – as demais interromperam os estudos por causa do trabalho. Quando não têm testes para fazer, elas ficam em casa, assistindo à televisão – de preferência MTV, mas vale Eliana e Alegria também. Ao meio-dia, o grupo se arruma para ir a um dos restaurantes que têm permuta com a agência. Comem pouco, mas não resistem a uma sobremesa caprichada. Depois, com remorso, correm para a academia. Acabada a malhação real, é hora da Malhação fictícia, a primeira das várias novelas. No fim de semana, saem a pé ou de ônibus para ir ao shopping (passeio puro, sem compras) ou a um parque.

Vale a pena tanto sacrifício? É difícil, quase impossível, resistir ao sonho da fortuna rápida, que transforma em milionárias garotas mal saídas da adolescência. Mas às vezes bate uma pontinha de dúvida. Priscila Viecili, 15 anos, de Ijuí, Rio Grande do Sul, se dá um prazo: "Se eu não pegar nada no próximo MorumbiFashion, volto para casa, retomo os estudos e só venho a São Paulo nas férias, para tentar algum trabalho". A colega de apartamento Daniele, que chegou há um mês de Umuarama, Paraná, concorda. "Só não vou para casa agora porque entrei na escola aqui", reclama. Pouco depois, atende ao telefone, recebe a resposta de dois testes, abre um sorriso e pronto – esquece a ameaça e vai se arrumar. A sorte grande pode estar ali, a poucos passos de suas pernas de gazela.

 

"Vítimas da síndrome do quadril 90"

Contratado por duas grandes agências, o psicólogo paulista Marco Antonio De Tommaso, 50 anos, é uma espécie de confidente e conselheiro das modelos. Ele alerta: a profissão não é adequada para meninas muito novas.

Veja – Como é a cabeça das garotas que o senhor atende?
Tommaso – São na maioria crianças obrigadas, de repente, a ter comportamento de adulto. Em outras carreiras, primeiro a pessoa investe em formação e depois vai para o mercado. Com as modelos é o contrário: começam muito cedo, sem preparação, enfrentam a competição e os desafios precocemente e aos 20 anos se aposentam. Isso gera uma ansiedade muito grande. Não há carreira mais imprevisível e cruel.

Veja – As mulheres costumam se espelhar nas modelos em busca do corpo ideal. Como as modelos vêem o próprio corpo?
Tommaso – A insatisfação é geral. Estou concluindo uma pesquisa que mostra que 100% delas querem emagrecer. Tornaram-se todas reféns da fita métrica e da balança, vítimas da síndrome do quadril 90.

Veja – O que é isso?
Tommaso – É outra obsessão do mundo da moda. Atualmente não basta ser alta, é preciso ter pelo menos 1,75 metro. Não basta ser magra, tem de ser magérrima. E, se o quadril tiver mais de 90 centímetros, a modelo é descartada. Para chegar a esses valores, biologicamente incompatíveis com o corpo de adolescentes normais, as modelos são capazes de tudo.

Veja – Do quê, por exemplo?
Tommaso – Umas fazem jejum durante dias, outras comem só alface. Já vi casos de meninas que pediam para ser trancadas no apartamento sem comida. Muitas chegam a tomar detergente para forçar o vômito. Cada dia tem uma novidade. Recentemente, uma delas ouviu falar, nos Estados Unidos, de uma cápsula que vem com um parasita dentro, para desencadear uma verminose.

Veja – O senhor concluiu um estudo sobre as principais queixas das modelos iniciantes. Do que elas reclamam?
Tommaso – Em primeiro lugar, da ansiedade. Depois, dos problemas de adaptação a São Paulo, da pressão para emagrecer e do sentimento de culpa por ainda ser sustentadas pelos pais. O medo de não dar certo é também muito freqüente. Elas não estão preparadas para ouvir "não", e os índices de depressão são altíssimos. Esse mundo não foi feito para crianças.

Rachel Verano

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco