Fila para ser
top
Enquanto
esperam a sorte grande, as modelos
vivem com pouco dinheiro e tempo de sobra
Bel
Moherdaui
Fotos Ricardo Benichio
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RR
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| Modelos
vão ao supermercado de ônibus, dividem o apartamento
com colegas e almoçam no restaurante da agência
Mega, em São Paulo, sempre lotado de homens: no começo,
nem sinal da fama e da fortuna das top models |
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Quem
bate os olhos nas fotos desta reportagem percebe imediatamente:
estas meninas são modelos. Em nenhuma outra circunstância
se encontrariam tantos biotipos como os delas reunidos no mesmo
lugar. Para chegar lá ou seja, ter contrato com uma
agência importante , cada uma venceu em média
1 000 garotas, considerando-se a massa de candidatas nos concursos
mais conhecidos. Mas onde estão o glamour, o clima feérico,
as roupas maravilhosas, os sinais explícitos de sucesso material
associados à profissão? Certamente não entre
jovens como elas, que estão se lançando. Enquanto
os cachês fabulosos não chegam, e em muitos casos isso
nunca acontece, elas passam apertado, como qualquer mortal em começo
de carreira. No bolso de modelo iniciante, cada moedinha é
contada (no domingo em que a reportagem as acompanhou num passeio
no parque, as garotas tinham entre 20 reais e nada, literalmente).
Cinema é luxo no máximo, alugam uma fita de
vídeo e racham a despesa. Táxi, nem pensar: andam
a pé ou de ônibus. E a concorrência está
sempre aumentando, especialmente nesta época do ano, quando
as maiores agências fazem concursos para o que chamam de new
faces (novos rostos) e a multidão de candidatas a Gisele
Bündchen entra em polvorosa. Na Elite, que promoveu no fim
de agosto a final de seu Model Look, inscreveram-se 32 000 meninas
do Brasil inteiro (trinta entraram para o cobiçado elenco
da agência). Em outubro, é a vez de a Ford fazer a
final de seu Super Model of Brazil, que teve 52.000
inscrições e de onde sairão agenciadas vinte
aspirantes a modelo.
Aos
13, 14 anos, as garotas aprovadas nesses concursos suspiram de alívio
e pensam que estão com a vida feita. Longe disso. "De cada
dez aprovadas, em dois anos só duas ainda estão na
agência. Em cinco anos, só sobra uma", calcula a diretora
do New Faces e do Elite Model Look, Liliana Gomes. Nesse universo
de pura beleza, em que todas têm no mínimo 1,75 metro
de altura, no máximo 90 centímetros de quadril e rostinho
perfeito, os motivos de um fracasso são meio imponderáveis.
"Tudo isso é uma loteria. Digo para as meninas e para os
pais delas que eu não tenho uma bola de cristal para saber
quem vai dar certo", avisa a diretora da Ford Brasil Denise Céspedes.
Na loteria, a determinação da adolescente conta muito.
Gisele, a top das tops, que hoje cobra 30.000
dólares por desfile, demorou oito meses para conseguir trabalhos
razoavelmente rendosos. Antes disso, amargou muitos nãos,
muito ônibus, muita fila por trabalho.
Como
a imensa maioria das modelos tem de sair da casa dos pais e se mudar
para São Paulo, o centro das atividades relacionadas à
moda, as agências costumam manter apartamentos coletivos onde
congregam cinco, seis, até dez garotas, que pagam 250 reais
por mês cada uma para viver semi-acampadas, entre beliches
e, horror dos horrores, muitas vezes usando um único banheiro.
O book, pasta cheia de fotos feitas por fotógrafo renomado,
custa em média 500 reais, e o composit, uma espécie
de cartão de visitas com uma ou duas fotos e as medidas da
garota, 100 reais a centena. Ambos são refeitos a cada seis
meses, mais ou menos. Além disso, elas gastam em torno de
300 reais por mês em alimentação, transporte
e outras comprinhas sem falar em escola (quando não
largam os estudos), curso de inglês, roupas e horas de interurbano
com a família. É costume a agência adiantar
ao menos uma parte do valor das despesas, que as modelos pagam conforme
forem trabalhando. Além disso, em torno de 30% de todos os
cachês ficam para as agências. A quitação
demora, já que uma iniciante ganha, em média, 300
reais por desfile e 50 reais por editorial de moda. Mais: contratos
demoram uns três meses para começar a aparecer. Nas
primeiras semanas, é só teste (os castings, nos
quais se decide se aquele é o tipo desejado de modelo) e
apresentação para clientes. "Nos primeiros meses,
só fiz casting. No quarto mês, peguei um trabalho.
Hoje, são mais ou menos cinco por mês e teste quase
todo dia", conta Maria Angelina de Almeida, 15 anos, nascida no
interior de São Paulo. E o que elas fazem quando não
estão se mostrando? "A gente lava roupa, cozinha. Somos modelos
e donas-de-casa", brinca a colega de apartamento Maria Cristina
Jokoski, mato-grossense de 15 anos.
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| Priscila,
Daniele, Paula, Thais e Maísa passeiam no parque no domingo
e fazem fila para teste na segunda: dinheiro contado |
Pagar
as dívidas e começar a fazer algum dinheiro demora
cerca de um ano. A paranaense Maísa Zandonai, 15 anos, modelo
há sete meses, ainda depende dos pais. "Estou pagando minhas
dívidas. Fiquei um mês parada. Na semana passada, voltei
a conseguir um trabalho. Para ajudar, meus pais me mandam 50 reais
toda semana", diz. Até as amenidades exigem retribuição
as agências têm acordos com restaurantes, academias,
escolas e centros de estética, que as modelos freqüentam
em troca de, nas festas e promoções, emprestarem sua
beleza sem cobrar nada. "Hoje temos cerca de 250 vagas de cortesia
distribuídas entre modelos, atletas e artistas. Com isso,
trazemos um pessoal bonito e saudável para dentro da academia
e, quando temos eventos ou fazemos fotos para nossa revista, eles
participam", explica Gabriela Carrano, diretora de marketing da
Fórmula, de São Paulo, que mantém permuta com
quatro agências de modelos. Restaurantes badalados também
oferecem às agências uma cota diária de vales,
preenchida na base do "quem pedir primeiro leva". O esquema é
mais sofisticado na agência Mega, que começou recentemente
a explorar um novo filão: abriu um restaurante próprio,
onde todas as suas modelos podem almoçar de graça.
Vive lotado de homens, naturalmente, e todos muito pouco
interessados nas qualidades gastronômicas do lugar. "Nossas
modelos levam vida de filhas de grandes executivos", exagera um
dos donos da agência, Eli Hadid Wahbe como se filhinha
de papai começasse a trabalhar aos 13 anos e tivesse de economizar
no xampu e no sabonete.
Shopping
sem compras Adolescentes atípicas, no supermercado
seu carrinho leva filé de frango, verduras, frutas e só.
Folgas são pouquíssimas. "Fui para casa, em Peruíbe,
na semana em que ia fazer 15 anos. Na véspera do meu aniversário,
tive de voltar para São Paulo, por causa de um teste. Acabei
pegando o trabalho e só retornei tarde da noite. Minha mãe
havia organizado uma festa-surpresa, mas, quando cheguei, todos
os convidados já tinham ido embora", recorda-se Paula Guillen,
que divide um apartamento em São Paulo com mais nove garotas.
Pela manhã, só Daniele Giona, 16 anos, e outra garota
vão para o colégio as demais interromperam
os estudos por causa do trabalho. Quando não têm testes
para fazer, elas ficam em casa, assistindo à televisão
de preferência MTV, mas vale Eliana e Alegria
também. Ao meio-dia, o grupo se arruma para ir a um dos restaurantes
que têm permuta com a agência. Comem pouco, mas não
resistem a uma sobremesa caprichada. Depois, com remorso, correm
para a academia. Acabada a malhação real, é
hora da Malhação fictícia, a primeira
das várias novelas. No fim de semana, saem a pé ou
de ônibus para ir ao shopping (passeio puro, sem compras)
ou a um parque.
Vale
a pena tanto sacrifício? É difícil, quase impossível,
resistir ao sonho da fortuna rápida, que transforma em milionárias
garotas mal saídas da adolescência. Mas às vezes
bate uma pontinha de dúvida. Priscila Viecili, 15 anos, de
Ijuí, Rio Grande do Sul, se dá um prazo: "Se eu não
pegar nada no próximo MorumbiFashion, volto para casa, retomo
os estudos e só venho a São Paulo nas férias,
para tentar algum trabalho". A colega de apartamento Daniele, que
chegou há um mês de Umuarama, Paraná, concorda.
"Só não vou para casa agora porque entrei na escola
aqui", reclama. Pouco depois, atende ao telefone, recebe a resposta
de dois testes, abre um sorriso e pronto esquece a ameaça
e vai se arrumar. A sorte grande pode estar ali, a poucos passos
de suas pernas de gazela.
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"Vítimas
da síndrome do quadril 90"
Contratado por duas grandes agências, o psicólogo
paulista Marco Antonio De Tommaso, 50 anos, é uma espécie
de confidente e conselheiro das modelos. Ele alerta: a profissão
não é adequada para meninas muito novas.
Veja
Como é a cabeça das garotas que
o senhor atende?
Tommaso São na maioria crianças
obrigadas, de repente, a ter comportamento de adulto. Em outras
carreiras, primeiro a pessoa investe em formação
e depois vai para o mercado. Com as modelos é o contrário:
começam muito cedo, sem preparação, enfrentam
a competição e os desafios precocemente e aos
20 anos se aposentam. Isso gera uma ansiedade muito grande.
Não há carreira mais imprevisível e cruel.
Veja
As mulheres costumam se espelhar nas modelos
em busca do corpo ideal. Como as modelos vêem o próprio
corpo?
Tommaso A insatisfação é
geral. Estou concluindo uma pesquisa que mostra que 100% delas
querem emagrecer. Tornaram-se todas reféns da fita
métrica e da balança, vítimas da síndrome
do quadril 90.
Veja
O que é isso?
Tommaso É outra obsessão do mundo
da moda. Atualmente não basta ser alta, é preciso
ter pelo menos 1,75 metro. Não basta ser magra, tem
de ser magérrima. E, se o quadril tiver mais de 90
centímetros, a modelo é descartada. Para chegar
a esses valores, biologicamente incompatíveis com o
corpo de adolescentes normais, as modelos são capazes
de tudo.
Veja
Do quê, por exemplo?
Tommaso Umas fazem jejum durante dias, outras
comem só alface. Já vi casos de meninas que
pediam para ser trancadas no apartamento sem comida. Muitas
chegam a tomar detergente para forçar o vômito.
Cada dia tem uma novidade. Recentemente, uma delas ouviu falar,
nos Estados Unidos, de uma cápsula que vem com um parasita
dentro, para desencadear uma verminose.
Veja
O senhor concluiu um estudo sobre as principais
queixas das modelos iniciantes. Do que elas reclamam?
Tommaso Em primeiro lugar, da ansiedade. Depois,
dos problemas de adaptação a São Paulo,
da pressão para emagrecer e do sentimento de culpa
por ainda ser sustentadas pelos pais. O medo de não
dar certo é também muito freqüente. Elas
não estão preparadas para ouvir "não",
e os índices de depressão são altíssimos.
Esse mundo não foi feito para crianças.
Rachel
Verano
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