O nenê
não dorme
Pesquisas
mostram que 35% das crianças
têm insônia e a culpa quase sempre é dos pais
Bia
Barbosa
Claudio Rossi
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| As
irmãs Marcela e Andréa: noites em claro por mais
de cinco anos |
Os
pais estão com olheiras e com vontade de se divorciar. A
babá está quase pedindo demissão. E o menino?
Para desgosto de toda a família, continua animado e dormindo
pouquíssimo. É comum que nos primeiros anos de vida
as crianças tenham dificuldade para iniciar o sono sozinhas,
despertem muitas vezes à noite, acordem com qualquer ruído
e durmam menos horas que o esperado. Tão comum que a maioria
dos pais acha que não é preciso tomar providências,
pois acreditam que isso passa com a idade. Nem sempre é assim.
Estudos mostram que a insônia infantil atinge 35% das crianças
com menos de 5 anos e, se não é cuidada, pode tornar-se
um problema para toda a vida. A partir do terceiro mês, o
bebê começa a dormir mais à noite do que durante
o dia. Uma criança entre 1 e 2 anos dorme normalmente em
torno de treze horas por dia. Aos 4 e 5 anos, o período de
sono é de onze horas. Quantidades menores de horas dormidas
devem ser encaradas como sinal de alerta.
Ricardo Benichio
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| Exame
no Instituto do Sono: só 5% de problemas fisiológicos
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O distúrbio do sono infantil pode ter causas físicas,
como dor ou dificuldades respiratórias. Ou psicológicas,
incluindo aí o sonambulismo e pesadelos. O mais freqüente,
contudo, é que a culpa seja dos pais. "Mais de 95% das crianças
que recebemos não dormem devido ao condicionamento errado",
diz Márcia Pradella-Hallinan, do Instituto do Sono da Escola
Paulista de Medicina. Há crianças cujo relógio
biológico é um pouco preguiçoso. Elas realmente
precisam que alguém as ensine a dormir sozinhas. Só
que se isso é feito de modo errado acaba perpetuando as razões
que as levam a acordar no meio da noite. "Os pais pegam no colo,
acariciam, amamentam e assim condicionam o filho a dormir somente
nessas condições", diz o espanhol Eduard Estivill,
diretor da Unidade de Alterações do Sono do Institut
Dexeus de Barcelona e autor do livro Nana, Nenê, lançado
recentemente no Brasil. "Quando elas faltam, a criança não
consegue cair no sono." Estivill aconselha aos pais angustiados
que fiquem com a criança até que ela esteja sonolenta,
mas saiam do quarto antes que pegue no sono.
Há
outros conselhos, todos na contramão do comportamento habitual
dos pais. Não se deve cantar para a criança dormir,
embalá-la no berço ou no colo, levá-la a passear
de carrinho, dar uma volta de carro. Um bom modo de reeducação
para o sono é criar um ritual em torno do ato de ir para
a cama. Contar uma história pode levar a criança a
associar a hora de dormir a um momento agradável. Em caso
de choro, vale entrar no quarto para inspirar confiança,
mas nada de deitar na mesma cama. O importante é que o distúrbio
do sono seja resolvido logo. Primeiro, porque uma criança
que sofre de insônia se torna irritada, insegura, hiperativa,
com baixo rendimento de aprendizado e problemas de crescimento.
Segundo, porque a vida conjugal fica prejudicada pelo cansaço
e pelo nervosismo. "Para o casal, acaba sendo um método anticoncepcional",
diz Flávio Alóe, neurologista do Centro do Sono do
Hospital das Clínicas, em São Paulo. Foi o que aconteceu
com Carmem e Heller Trench. As duas filhas tiveram problemas de
insônia desde pequenas e adoravam pular para a cama dos pais.
"Entrei em stress profundo e, depois de tanto tempo, acordava antes
mesmo de elas despertarem", conta Carmem. Andréa, hoje com
8 anos, não dormiu bem até os 6, e Marcela, com 5,
ainda acorda várias vezes durante a noite. A mãe torce
os dedos para que melhore com a idade.
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