A
cor da pobreza
Seis anos de governo negro na África do
Sul
criam
nova categoria de pobres: os brancos
Cristiano
Dias
Sempre houve dois países dentro da África do Sul.
Um país dos 38 milhões de negros e mestiços,
a maioria pobres, e outro dos 5 milhões de brancos, inventores
do apartheid, o regime de segregação racial, que levam
a vida como se estivessem numa Europa tropical. Muita gente botou
fé em que a posse de Nelson Mandela como presidente, em 1994,
colocaria uma pedra sobre meio século de exclusão
social e melhoraria a qualidade de vida da maioria da população.
Após seis anos de transição, não só
a esmagadora maioria dos negros continua em estado de penúria
como parte da população branca começa a ser
arrastada para o fundo do poço. A taxa de desemprego entre
os brancos pulou de 3% para 7%. Hoje, já é possível
cruzar com um mendigo loiro de olhos azuis nas ruas da Cidade do
Cabo ou constatar o grande aumento de acampamentos improvisados
para famílias de brancos sem-teto nos arredores de Johanesburgo.
Desde que tiveram de dividir sua pequena Europa com o resto da população,
os brancos estão percebendo cada vez mais que vivem mergulhados
nos mesmos problemas de qualquer outro país africano.
É
verdade que a minoria branca continua dona de quase todas as terras
aráveis do país e ainda domina o comércio e
a indústria sul-africana. Durante cinco décadas, eles
guardaram tudo para si e ocuparam os melhores empregos do setor
público e privado. A segregação racial era
total e odiosa. Um branco podia ir para a cadeia se fizesse sexo
com uma negra. Os negros não votavam nem podiam circular
livremente pelo país. O regime de minoria branca tornou-se
um símbolo da perversidade do racismo e foi punido com o
ostracismo internacional. As coisas mudaram desde que se realizaram
eleições democráticas. A nova Constituição,
aprovada em 1996, proibiu qualquer tipo de discriminação
racial. Mas havia o fosso social aberto por meio século de
injustiça, e o novo governo agiu com truculência, tentando
incluir à força os negros na sociedade branca, chamando
o gesto de "ação positiva". Mesmo sem qualificação
profissional, negros começaram a substituir brancos no funcionalismo
público. Executivos negros, com bons contatos políticos,
passaram a ser fundamentais para as empresas privadas. Mesmo os
trabalhos braçais que o regime de apartheid reservava para
os brancos menos qualificados hoje pertencem aos negros. No sistema
de ensino, o governo estabeleceu um mecanismo de cotas que obriga
as melhores universidades a aceitar um determinado número
de estudantes negros. O resultado foi desastroso. A invasão
de funcionários mal treinados fez a qualidade do serviço
público despencar juntamente com o nível do ensino
de várias universidades sul-africanas, antes exclusivas dos
brancos e respeitadas fora do país. O radicalismo do governo
negro atingiu o ápice quando o Comitê Olímpico
Sul-Africano proibiu a equipe nacional de hóquei sobre a
grama de ir às Olimpíadas de Sydney por ter maioria
de jogadores brancos.
O sentimento de que as oportunidades serão cada vez mais
escassas e o brutal aumento da criminalidade levaram milhares de
brancos a fazer as malas e tomar o rumo dos aeroportos. Entre 1989
e 1997, 233.000 sul-africanos brancos deixaram o país. O
fluxo migratório privou a África do Sul de mão-de-obra
qualificada, principalmente no setor de saúde e educação.
Os que ficaram se trancafiaram em condomínios fechados ao
estilo brasileiro, protegidos por muros e cercas eletrificadas,
tudo para tentar sobreviver num país onde a taxa de assassinatos
já atingiu o patamar de sessenta pessoas por 100.000 habitantes
no Brasil são 28 por 100.000. As ruas da região
central de Johanesburgo, capital econômica do país
e símbolo do império branco, foram completamente tomadas
por hordas de camelôs, imigrantes ilegais e desocupados. Os
arranha-céus ainda estão de pé, mas o centro
financeiro já não pulsa mais ali. Durante os anos
de opressão do apartheid, ser branco na África do
Sul significou um bom emprego, casa própria, carro do ano
e uma vida mansa. Hoje, não garante nem mesmo a própria
segurança.
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