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Deus existe. E é italiano

Ilustração Pepe Casals


Aqui na Itália há uma revista de filosofia chamada MicroMega. Em geral, cada edição vende 20.000 exemplares. No último número, surpreendentemente, vendeu 100.000. Sabe como? Fizeram a seguinte perguntinha a filósofos e teólogos: Deus existe? Entre os filósofos, havia gente como Norberto Bobbio. Entre os teólogos, Joseph Ratzinger. Norberto Bobbio aproveitou a oportunidade para fazer um apanhado dos principais temas do catolicismo. Ele não é religioso. Questiona a maior parte dos dogmas da Igreja. O pecado original, em sua opinião, é inaceitável, porque a culpa não é coletiva, mas individual, e não pode ser transmitida de uma geração a outra. A culpa coletiva é um conceito tribal. Bobbio também acha difícil acreditar no Deus do Antigo Testamento, que pede um sacrifício tão cruel a Abraão. E não se satisfaz com as tentativas dos teólogos de explicar o paradoxo proposto por Voltaire: por que um Deus onipotente e infinitamente bom provocaria um terremoto, por exemplo? De fato, o papa pode condenar a guerra, não um terremoto. A única resposta que a religião oferece para a existência da maldade é que o juízo de Deus é imperscrutável. Ou seja, não uma resposta, mas um ato de fé. A essa altura, Bobbio interrompe o raciocínio, dizendo que prefere não continuar a análise, pois se impôs uma regra de vida: jamais provocar escândalo.

Bobbio diz outra coisa. Para ele, a verdadeira diferença não é entre quem tem fé e quem não tem, mas entre quem se contenta com respostas fáceis e quem não se contenta. Se você acompanha esta coluna, deve achar que sou daqueles que não se contentam. Afinal, volta e meia importuno os leitores com assuntos religiosos. Mas não é assim. Sou do time das respostas fáceis. Até hoje, não perdi mais de dez minutos pensando sobre Deus ou o problema do bem e do mal. Falo tanto de religião simplesmente porque moro na Itália. Você não tem idéia do que isso significa. Veja as três primeiras notícias dos telejornais do dia 13 de setembro: 1) Missa pelas vítimas de uma enchente na Calábria. O padre criticou os políticos locais. 2) Pronunciamento do papa João Paulo II contra a condenação à morte de um americano de origem italiana no Estado americano da Virgínia. 3) Entrevista com o cardeal de Bolonha, que censurou o governo por permitir a entrada de imigrantes muçulmanos no país, quando deveria permitir apenas a dos católicos.

No dia seguinte, o líder de um partido regional de direita, a Liga Lombarda, deu inteira razão ao cardeal de Bolonha, acrescentando que o candidato de centro-esquerda às próximas eleições não pode ser bem-visto pela Igreja, pois defende os homossexuais e sua família não é "certa", já que ele adotou um filho negro. Esse é somente um exemplo de como a religião ocupa espaços no dia-a-dia dos italianos, invadindo todos os campos, dos desastres naturais aos grandes temas éticos, da economia globalizada à política. Não é um acaso que a revista MicroMega tenha vendido 100 000 exemplares. A religião substituiu todo o resto. Porque Deus existe e é italiano.

 

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