O eleitor
é sábio
O presidente do Ibope diz que o brasileiro
sabe votar
muito bem e que o voto ideológico
está sendo substituído pelo da competência
Consuelo
Dieguez
Claudio Rossi
 |
"Ninguém
se
engana mais com inaugurações na reta final de
campanha" |
No próximo domingo, 110 milhões de eleitores escolherão
os prefeitos e vereadores dos 5 600 municípios brasileiros.
Mas, muito antes de essa multidão depositar o voto na urna,
Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, o maior instituto
de pesquisas do país, já terá previsto quais
os prováveis vitoriosos desta eleição. Radiografar
a vontade do eleitor é uma tarefa que tem rendido a Montenegro,
de 46 anos, muitos ódios e paixões. Quem está
na ponta nas pesquisas o aclama. Os políticos do pelotão
de trás o execram. Não importa. A cada dois anos,
lá está o Ibope apontando quem é o candidato
preferido do brasileiro. Nas pesquisas que realizou neste ano,
o instituto identificou que 80% dos atuais prefeitos que se candidataram
deverão ser reeleitos. Um sinal de aprovação
das atuais administrações dado por um eleitor em
transformação. "O voto ideológico está
sendo substituído pelo voto da competência", diz.
Montenegro considera um equívoco fazer projeções
para as eleições presidenciais de 2002 com base
no resultado das urnas deste ano. "Depois de computado o último
voto, volta tudo à estaca zero", afirma. Para analisar
as eleições municipais e o que pensa o eleitor brasileiro
na hora do voto, VEJA entrevistou Montenegro durante uma hora
e meia, na quarta-feira passada, na sede do Ibope.
Veja Esta é a primeira eleição municipal
depois da emenda da reeleição. As pesquisas indicam
que a maioria dos atuais prefeitos deverá ser reeleita.
Isso pode ser atribuído ao bom desempenho das administrações
municipais, ou o uso da máquina governamental favoreceu
os prefeitos-candidatos?
Montenegro
O eleitor já queria a reeleição desde a eleição
para prefeito de 1996. Os casos de São Paulo e Rio de Janeiro
foram bons exemplos desse desejo. Nessas duas cidades, tanto Paulo
Maluf como Cesar Maia eram reconhecidos como bons administradores,
mas não puderam candidatar-se. Seus candidatos, Celso Pitta
e Luiz Paulo Conde, que eram praticamente desconhecidos, foram
eleitos num sinal claro de que as pessoas queriam manter os governantes
de então. O cargo de prefeito está mais próximo
do cidadão. E é nessa função que o
eleitor tem condições de avaliar melhor o trabalho
do político. Por essa razão, quem se preparou e
fez uma boa administração durante os quatro anos
não vai ter dificuldade alguma de se reeleger.
Veja O senhor está negando que a máquina
administrativa seja um poderoso ingrediente para a reeleição?
Montenegro
A maior prova de que a máquina não decide
é o Pitta ter resolvido não ser candidato. Até
porque, se fosse, estaria com índices baixíssimos.
O que está sendo julgado é uma administração
dos quatro anos de prefeito. Nos 5 600 municípios brasileiros,
70% dos prefeitos se candidataram à reeleição.
Destes, mais de 80% deverão continuar na cadeira de prefeito,
porque os eleitores os estão considerando bons administradores.
Veja Isso indicaria falta de senso crítico do
eleitor?
Montenegro
Não. Hoje, o governante que bota na cabeça que não
vai fazer nada nos dois primeiros anos e guarda dinheiro para
realizar obras às vésperas das eleições
para garantir a reeleição será punido. O
brasileiro agora está avaliando os quatro anos do governante.
Ele não se engana mais com inaugurações na
reta final. O eleitor é sábio e, com o exercício
da democracia e eleições de dois em dois anos, sabe
votar muito bem. Consegue separar adequadamente o que é
problema local, problema estadual e problema federal. Nas eleições
municipais, ele julga a competência do administrador, independentemente
de qual seja sua ideologia.
Veja Não é um exagero afirmar que o voto
ideológico foi enterrado?
Montenegro
O
país se modificou muito nestes últimos dez anos
e o eleitor mudou com o Brasil. Hoje, ele sabe que, no caso do
Congresso, pode botar em prática sua ideologia. Do mesmo
modo, nas eleições presidenciais e para governador
de Estado a ideologia ainda é um componente importante.
Ainda assim, tem um peso cada vez menor na decisão do voto.
E esse não é apenas um fenômeno brasileiro.
Tanto aqui como no resto do mundo, o voto ideológico está
sendo substituído pelo da competência. Mas, no caso
do prefeito, o que se percebe é que a ideologia simplesmente
não é levada em consideração.
Veja O eleitor admira os políticos que tem?
Montenegro
A maioria dos brasileiros não gosta de política.
E não foi só a ditadura que contribuiu para esse
descaso. A corrupção, o voto obrigatório,
os programas partidários, a mudança nas regras do
jogo e a própria propaganda eleitoral acabaram afastando
o eleitor da política. Ainda vai levar um tempo para que
o sentimento político do brasileiro volte a ser despertado.
Depois de 21 anos de ditadura militar, todos nós eleitores,
institutos de pesquisa, imprensa e políticos estamos
aprendendo a exercitar e a compreender a democracia. Está
havendo naturalmente um processo de depuração até
se chegar ao país que a gente quer.
Veja Numa pesquisa feita recentemente pelo Ibope, 47%
das pessoas disseram que não se importariam em votar num
candidato desonesto, desde que ele fizesse uma boa administração.
Isso significa a perda de escrúpulos do brasileiro e um
incentivo ao político do estilo "rouba, mas faz".
Montenegro
O eleitor manifesta essa descrença e esse cinismo principalmente
por causa da impunidade. É comum as pessoas falarem "vou
votar no menos pior" ou "todos são farinha do mesmo saco",
ou "pode roubar desde que faça alguma coisa". São
frases que não são dignas da democracia, mas o eleitor
realmente as fala. Mas isso é só da boca para fora,
uma espécie de desabafo. No entanto, quando o eleitor age,
ele pune. Na urna, o eleitor reage ao "rouba, mas faz" e não
compactua com isso. Veja-se o caso específico da cidade
de São Paulo. O Collor, que já foi um presidente
da República e é candidato à prefeitura,
tem apenas 2% da preferência dos paulistanos. O próprio
Maluf, que já teve mais de 50% do eleitorado ao seu lado
na cidade, hoje está com índices perto de 10% de
intenção de voto. Ou seja, no fundo o eleitor está
punindo. Está dizendo, de alguma forma, que não
gostou do que eles fizeram. Estou convencido de que o Collor levará
pelo menos uns vinte anos para conseguir eleger-se para qualquer
cargo executivo.
Veja O que o resultado da eleição do próximo
domingo irá mostrar?
Montenegro
Ficará claro que os bons administradores, os bons prefeitos,
os que cuidaram de suas cidades durante os quatro anos continuarão
no governo e os maus governantes deverão sair e ponto final.
A eleição presidencial só começa em
2001.
Veja Mas as urnas de 2000 influenciarão em que
medida as eleições presidenciais?
Montenegro
Sob
o ponto de vista do eleitor, não existe chance alguma de
as eleições municipais terem conseqüência
em 2002. Ele sabe dividir as coisas, por mais que esteja passando
por um momento de descontentamento com o governo Fernando Henrique.
Eleição municipal é eleição
municipal. É óbvio que, com lideranças nacionais
participando deste processo, a própria imprensa trata de
rotular vitoriosos e fracassados. São os casos de Ciro
Gomes em Fortaleza, do Lula em algumas capitais importantes, do
Brizola e do Maluf disputando a eleição, e do candidato
do governador Mário Covas, Geraldo Alckmin. Todo mundo
tende a extrapolar isso para a esfera nacional. Mas, repito, o
eleitor não está ligando para isso. Ele só
vai começar a tratar de eleição presidencial
no ano que vem. E aí nós vamos ter dois anos pela
frente de uma eleição que promete ser muito interessante.
Veja Por quê?
Montenegro
A
pior herança da ditadura foi a aniquilação
de toda uma geração política. Existe um vácuo
grande entre os políticos pré-Revolução
de 64 e os novos que estão surgindo. Durante os 21 anos
do período militar, não surgiram lideranças.
O resultado é que todas as grandes lideranças nacionais
o presidente Fernando Henrique, o governador Mário Covas,
o ex-governador Leonel Brizola, o ex-governador Miguel Arraes,
o senador Antonio Carlos Magalhães, o governador Itamar
Franco, o ex-presidente José Sarney, para citar alguns
estão na casa dos 70 anos ou mais. O Lula é uma
exceção. Surgiu durante a luta contra a ditadura,
mas está aí há mais de vinte anos. No mais,
o que se tem são forças regionais. O Tarso Genro
no Rio Grande do Sul, Tasso Jereissati no Ceará, Cristovam
Buarque no Distrito Federal, Esperidião Amin em Santa Catarina,
Jarbas Vasconcelos em Pernambuco e Anthony Garotinho no Rio de
Janeiro. O Ciro Gomes tentou extrapolar os limites locais e já
se posicionou na última eleição presidencial.
É um candidato importante, mas falta a ele um partido maior,
no qual tenha mais estrutura e tempo na televisão para
apresentar suas propostas.
Veja Mas esses políticos de força regional
vão conseguir ocupar o quadro político nacional
em 2002?
Montenegro
O
político que conseguir passar uma idéia de que está
preocupado com os problemas nacionais, e não só
com os de sua região, se sairá melhor. Esse vai
ser o jogo principal, o grande desafio dessas lideranças
locais de tentar se inserir no cenário nacional. Não
é uma tarefa fácil. O Brasil é um país
marcado por diferenças culturais e regionais. Além
disso, o brasileiro se acostumou a rotular os políticos.
Os eleitores do Sul e Sudeste consideram os políticos nordestinos
corruptos, enquanto os eleitores nordestinos olham para os políticos
do Sul como insensíveis aos problemas do Nordeste. Será
uma eleição muito particular porque há um
grande vazio. Esses políticos terão de se esforçar
para se transformar em líderes nacionais. Nesse processo,
a estrutura partidária ganhará enorme importância.
A política de alianças também será
fundamental. Vão aparecer novas lideranças. Será,
portanto, uma eleição diferente: pela primeira vez,
o país vai participar de uma campanha presidencial com
políticos pós-geração de 64.
Veja E essa corrida já tem favoritos?
Montenegro
Em todas as pesquisas, o Lula aparece como favorito. Considero
o Lula um fortíssimo candidato. Eu, inclusive, acho que
ele está acima do PT. E o partido tem o dever de ficar
à altura do Lula. O PT tem de romper com a imagem de radicalismo.
O eleitor brasileiro detesta radicalismo. Detesta extremos. O
PT tem de apostar nas suas propostas, e não no fracasso
deste governo, porque é impossível prever como o
país estará daqui a dois anos. Se o partido quer
ter chances de vencer a eleição, tem de trabalhar
para convencer o eleitor de que seu programa é o melhor,
e não que o do governo é o pior.
Veja O presidente Fernando Henrique está com a
popularidade em baixa, apesar de uma leve melhora nos últimos
sessenta dias. Isso pode tirar os candidatos do governo do páreo
nas eleições de 2002?
Montenegro
É impossível fazer qualquer previsão nesse
sentido. Se houver uma recuperação econômica,
se o desemprego e a pobreza diminuírem, se existir uma
percepção de que o país está realmente
melhorando, o candidato do governo poderá ser o grande
vencedor. Por essa razão, é um erro a oposição
fazer campanha apostando no fracasso da política econômica.
Veja Como se explica o caso de Ciro Gomes? Ele é
um político com uma abrangência nacional, é
inegavelmente uma poderosa liderança regional. No entanto,
apesar de todo o apoio que está dando a sua ex-mulher,
Patrícia Gomes, ela está praticamente fora das eleições
em Fortaleza. De que forma essa derrota pode influenciar nas eleições
de 2002?
Montenegro
Uma
derrota de Patrícia Gomes não vai alterar em nada
o desempenho dele no quadro nacional. Pode ser até uma
derrota pessoal para o Ciro, e ele poderá guardar uma mágoa
disso, mas o quadro nacional não muda. Como disse, o eleitor
não mistura eleição municipal com presidencial.
Vai ter muita gente em Fortaleza votando com prazer no atual prefeito,
Juraci Magalhães, por exemplo, e essas mesmas pessoas poderão
continuar votando no Ciro para presidente.
Veja O senhor acredita que um fracasso de Paulo Maluf
e Leonel Brizola nestas eleições municipais os impeça
de voltar à cena nacional nas eleições de
2002?
Montenegro
O Brizola errou na estratégia de campanha, porque não
entendeu que esta é uma eleição municipal.
Deflagrou uma bandeira fora de hora e tentou antecipar a eleição
de 2002 para agora. Tanto Brizola quanto Maluf são lideranças
que merecem consideração sempre. Eles terão
uma participação muito importante em 2002, não
como atores principais. Tanto Brizola como Itamar Franco, Maluf,
Antonio Carlos Magalhães, Miguel Arraes e o próprio
Fernando Henrique vão ter uma participação
importante. Seja na estratégia política, nas coligações,
seja na escolha dos candidatos. Agora, sinceramente, não
acredito em nenhum deles como protagonista das próximas
eleições para presidente.