Gustavo
Franco
Tratamento
pela metade
"Como
explicar que, em nome
do crescimento, estacionamos
o processo de
remoção dos entraves ao
crescimento?"
Ilustração Ale Setti
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Depois de eletrocutado várias vezes por planos econômicos
fracassados, o brasileiro tornou-se uma espécie de "fundamentalista"
em matéria de inflação. Tomou horror a tratamentos
alternativos e passou a acreditar que a inflação
era um tipo de febre que até podia ceder temporariamente
com banhos frios, mas que, na ausência de antibióticos,
ou de uma verdadeira cirurgia, acabaria voltando ainda pior. Os
economistas das variedades mais convencionais diziam que era preciso
ordenar os "fundamentos macroeconômicos", e as pessoas comuns
corretamente entendiam que as verdadeiras causas do problema,
quaisquer que fossem, não estavam sendo atacadas.
O tempo passou, o Plano Real trouxe a inflação para
níveis civilizados, e como acontece a todo doente contrariado
em ver-se nesta condição, o sucesso na cura produziu
uma significativa redução no rigor do tratamento.
O paciente sente-se bem e torna-se impaciente. Cumpre ainda o
manual, embora com alguma má vontade, mas se irrita freqüentemente
com o médico e já acha que pode suspender as injeções,
voltar para a homeopatia e cair na gandaia.
Parece inegável que cresceu bastante a complacência
com relação a tratamentos até então
considerados essenciais para recompor a nossa capacidade de crescer.
As reformas, antes tão inadiáveis, parecem migrar
para a sala de espera das lideranças políticas.
O sistema tributário, a legislação trabalhista,
a Previdência, o Judiciário, a privatização,
tudo continua mais ou menos do mesmo tamanho ou pior. Como explicar
que, em nome do crescimento, estacionamos o processo de remoção
dos entraves ao crescimento?
Como indicação dessa crescente complacência,
já são muitos os que acreditam que o Brasil se encontra
pronto para o crescimento sustentado, bastando apenas manifestar-se
a vontade política de confrontar os pendores ortodoxos
dos xiitas da área econômica. É daí
que vem a resistência aos tratamentos convencionais e a
ilusão de que os obstáculos ao crescimento estão
nos juros e no câmbio, ou seja, que o problema é
com a terapia e não com a doença.
Em oposição direta, encontram-se os adeptos da medicina
convencional, que acham que não será uma desvalorização
e algumas canetadas que vão criar um novo milagre econômico
numa economia que teve sua saúde tão seriamente
debilitada durante tanto tempo. A doença era séria,
tanto que vivemos uma hiperinflação sem ter passado
por nenhuma revolução ou guerra civil, como nos
outros casos desta rara patologia. É claro que a infecção
não desapareceu da noite para o dia, como resultado de
decisão política ou regressão espontânea.
O tratamento está pela metade e se não for retomado
vamos ter problemas mais à frente.
Durante um bom tempo os adeptos da medicina convencional tiveram
sucesso em persuadir o paciente a se tratar, pois, de propósito,
misturavam a agenda da estabilização com a do crescimento.
Para consolidar a estabilização, seriam necessárias
reformas para consertar partes importantes do organismo econômico,
ainda muito machucadas. Para crescer, não seria necessário
focar em nada muito diferente. A abertura, por exemplo, servia
tanto para impor constrangimentos à inflação
quanto para incentivar condutas empresariais que levavam ao aumento
de produtividade. A privatização, na mesma linha,
ajudava o ajuste fiscal, que consolidava a estabilização,
melhorava a produtividade e a capacidade de investir das empresas
privatizadas.
A medicina convencional não enxerga, de fato, contradição
entre estabilidade e crescimento. Mas, infelizmente, o paciente
é rebelde e não se cansa de solicitar a segunda,
a terceira e a quarta opinião, todas contrárias
à primeira. Como não consegue conciliar diagnósticos
contraditórios, o doente termina sem tomar remédio
e achando que a culpa é dos economistas que não
se entendem mesmo.
Parece claro que, no Brasil, a medicina alternativa em questões
econômicas tem uma importância muito maior do que
em qualquer outra parte.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.inf.br)