Um presente chamado Bamerindus

Cinco meses depois de sua venda, descobre-se
que os ingleses do HSBC levaram o banco de graça

Franco Iacomini e Expedito Filho

O ex-banqueiro José Eduardo de Andrade Vieira: sem saber detalhes da venda de seu próprio negócio
Foto: Orlando Brito  

Pouca gente percebeu, mas o HSBC fez o melhor negócio de sua história ao comprar o Bamerindus, há cinco meses. O banco paranaense estava com as contas esburacadas, sob intervenção do Banco Central, que procurava uma maneira de evitar que 2,6 milhões de correntistas perdessem os seus depósitos. O banco inglês apareceu, desembolsou 381,6 milhões de reais pelas contas, agências, prédios e a marca comercial do Bamerindus, e evitou-se assim um naufrágio danoso para o sistema financeiro. "Queremos ser o maior banco comercial do Mercosul", declarou, na época, Michael Geoghegan, presidente do HSBC-Bamerindus. Essa história todos conhecem. Só que ela foi contada pela metade. A outra foi escondida porque cairia mal diante de um público que não consegue entender por que o governo gasta dinheiro com bancos falidos em vez de ajudar hospitais quebrados. A verdade, descobre-se agora, é que o HSBC não pagou sequer um dólar furado pelo Bamerindus. Não só não pagou, mas ainda recebeu alguns milhões para ficar com ele. Os números corretos foram escritos no documento que o BC enviou ao Senado para que aprovasse a venda. É um texto hermético, que nem banqueiro consegue entender. O Senado engoliu os números e ficou quieto. Para o público, ficou a história da carochinha.

Foto: Nelio Rodrigues
Geoghegan, do HSBC:
"Seremos o maior"

O Bamerindus foi doado da seguinte maneira: os ingleses darão os 381,6 milhões ao BC, em troca de 1 241 agências, ativos de mais de 10 bilhões de reais e uma das seguradoras mais rentáveis do país. Pagarão em sete anos, o que já é uma facilidade. Na surdina, o HSBC recebeu 431,8 milhões de reais do BC para reestruturar o Bamerindus e saldar reclamações trabalhistas. O dinheiro serve para comprar computadores novos, contratar consultores, fechar ou abrir agências. O HSBC já sacou esse dinheiro, em três parcelas. Não foi um empréstimo, já que o dinheiro não retornará ao BC. O cálculo aritmético fica bem simples. Além de agências, prédios, depósitos e perspectiva futura de lucro, o HSBC ainda recebeu um troco de 50,2 milhões.

O benevolente BC, para repassar o Bamerindus, concedeu outras vantagens. Primeiro, limpou a parte podre do banco paranaense, com recursos do Proer, no valor de 2,9 bilhões de reais. Tirou da barriga do Bamerindus a carteira imobiliária, um crédito problemático que ninguém queria receber. A carteira foi para a barriga da Caixa Econômica Federal, que recebeu mais 2,5 bilhões do Proer. Com isso, o Bamerindus, de instituição quebrada que era, virou um banco bom e foi esse banco que o HSBC "comprou". Ainda assim, exigiu do BC garantias de que não teria prejuízo com algum eventual rombo não descoberto. O generoso BC concordou. E fez outra operação que não revelou ao público. Obrigou o Bamerindus a comprar 1,27 bilhão de reais em títulos da dívida externa brasileira. Os títulos estão à disposição do HSBC como garantia. Se houver algum prejuízo, o banco vende os títulos para se ressarcir. Toda transação financeira envolve algum tipo de risco. Faz parte do mundo dos negócios. No caso do Bamerindus, para conforto de seus compradores, não houve risco algum.

Nenhuma dessas operações é ilegal. O problema é a maneira como elas foram feitas, às escondidas. O BC escondeu numa numeralha contratual incompreensível o fato de que estava doando 431,8 milhões. Usou o artifício da compra dos títulos da dívida externa para não mostrar que estava entregando uma garantia de 1,27 bilhão de reais ao HSBC. Esse é o pecado. No trato com o dinheiro público, agir com clareza é uma boa política. O BC diz que não ocultou coisa alguma. O ex-presidente do BC Gustavo Loyola, responsável pela negociação com o banco inglês, confirma a operação, mas nega a moita. "Todos os detalhes da operação estavam no relatório enviado ao Senado no dia 8 de abril", diz. Há também uma explicação para tantas facilidades. "A proposta do HSBC era a única que permitia resolver o problema do dia para a noite", conta Loyola.

Não é bem assim. O BC não divulga esses documentos, sob a alegação de que são protegidos pelo sigilo bancário. Uma acionista minoritária do Bamerindus só conseguiu recebê-los depois de uma ordem judicial, numa ação em curso em Curitiba. Nem o ex-dono do banco, o senador José Eduardo de Andrade Vieira, soube dos termos do contrato. Nem os outros 40.000 acionistas minoritários. Um grupo deles, dono de 30% das ações preferenciais do banco, contratou o advogado James Marins, de Curitiba, e um advogado paulista, Fernando Albino, para analisar as condições em que a venda foi feita. Também é estranha a afirmação de que o problema do Bamerindus teve de ser resolvido do dia para a noite. O governo sabia que o banco não estava bem antes mesmo de Fernando Henrique tomar posse no início do ano passado a situação ficou ainda mais grave. Um dos esportes prediletos do mercado financeiro, nessa época, era analisar os balancetes do Bamerindus a cada trimestre, constatar que a situação sempre piorava e tentar saber de quem era a culpa: de Andrade Vieira, o ministro? Da fábrica de papel que só dava prejuízo? Da queda da inflação?

O Banco Central, quando intervém numa instituição em dificuldades e lhe dá socorro financeiro, faz isso para que milhões de correntistas não percam seu dinheiro. A ajuda também tem a função de evitar uma quebradeira no sistema financeiro. Sempre que um grande banco quebra e as pessoas perdem, a tendência dos correntistas é sacar o seu depósito dos outros bancos. Por isso, todos os governos socorrem o sistema financeiro quando há perigo de uma crise de confiança. O BC desembolsou quase 17 bilhões para que o Nacional fosse comprado pelo Unibanco, o Econômico pelo Excel e o Bamerindus pelo HSBC. O dinheiro não foi para a mão dos banqueiros falidos, mas para garantir que os correntistas não seriam prejudicados. Até agora, imaginava-se que esses gastos tivessem sido feitos de maneira clara. No caso do Bamerindus, já não há tanta certeza.

Magoado, com vontade de sumir

Na última sexta-feira, o ministro Celso de Mello, presidente do Supremo Tribunal Federal, suspendeu a liminar do Tribunal Regional Federal que autorizava o ex-banqueiro José Eduardo de Andrade Vieira a sacar 1,1 milhão de reais de sua conta num banco paranaense bloqueada desde a intervenção no Bamerindus. O dinheiro seria uma bênção para o senador. Acostumado a usufruir uma fortuna estimada em 200 milhões de dólares, Vieira está tendo de se adaptar a novos padrões. Segue muito rico, com patrimônio pessoal de 4 milhões de dólares, mas não poderá tocar em um centavo até que se liquidem as contas do Bamerindus e os credores sejam pagos. As últimas economias do senador, cerca de 200.000 reais, evaporaram-se em apenas cinco meses, gastas, em grande parte, com advogados. Restou o seu salário do Senado, cerca de 8.000 reais ao mês, que o BC não pode bloquear, por lei. "Ainda estou gastando demais, mas a verdade é que empobreci", queixa-se. "Tenho vontade de juntar algum dinheiro e sumir do Brasil. Apostei e sofro esse tipo de ação por parte do governo", diz. A aposta foi no governo de seu amigo, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Vieira, que recolheu fundos para a campanha de FHC, confiava na amizade para reerguer o seu banco. Ganhou o Ministério da Agricultura, mas nenhum socorro para o Bamerindus. Agora, somente a amigos íntimos confidencia que é um homem magoado. Já contou, por exemplo, que foi o ministro da Fazenda, Pedro Malan, quem o convenceu a deixar o governo. A sugestão era que, fora do ministério, teria menos dificuldade em receber alguma forma de auxílio oficial para levantar o banco. "Chorar nos ombros do presidente não vai adiantar. Mas às vezes eu acho que devia ter insistido com o presidente em manter o banco. Eu nunca falei. O que eu recebi foi um castigo", diz Vieira.

A vida sem banco provocou mudança nos humores do ex-banqueiro. Ele está com saudade de Itamar Franco. "O Itamar foi um grande presidente. Fui ministro da Indústria e do Comércio de seu governo, e juntos baixamos os juros de 29% para 17%. Ele me dava o direito de participar das discussões econômicas como ministro que eu era." Se falência pudesse fazer bem a uma pessoa, seria possível dizer que o senador saiu ganhando em matéria de comportamento ficou mais humilde. Hoje ele anda cabisbaixo pelo Congresso, emociona-se quando fala do banco perdido, quase não sorri e atende a boa parte dos pedidos de audiência. Perdeu também o conforto de viajar em jatinhos tinha três Learjet, pertencentes à Araucária, sua empresa de aviação. As aeronaves estão bloqueadas pelo BC, e agora Vieira viaja num banco comum, de um Boeing. Mesmo assim, sua vida continua numa altitude de dar inveja. Mora numa casa, em Brasília, com nove cômodos e área construída de 600 metros quadrados, avaliada em 1 milhão de reais. Sobraram-lhe duas fazendas (2,5 milhões) e uma casa em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, que custa 200.000 reais. Esses bens, o senador pode vender. Os outros, que estavam em nome do Bamerindus, ele perdeu. "Coloquei todo o meu patrimônio dentro do banco e por isso estou pobre hoje", diz.




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