O sonho que virou pesadelo

A Encol me
tomou mais de
100 000 reais
em troca de um
apartamento
que nunca
ficou pronto

Depois de anos de doce irresponsabilidade financeira, 1991 marcou o começo de minha maturidade patrimonial. Foi naquele ano que decidi comprar um apartamento em São Paulo, para nele viver com minha mulher e nossas duas filhas. A Encol, então a maior construtora do Brasil, e com uma imagem de empresa inovadora e ágil, foi escolhida por nós como caminho mais curto entre o sonho e a materialização da casa própria. Em menos de uma hora, o contrato foi redigido, impresso e assinado. À noite, comemoramos com amigos. Brindando com champanhe, eles lembraram que as pesadas prestações seriam, na pior das hipóteses, uma poupança forçada. Visando a um futuro mais sólido, passamos a ter férias mais curtas e mais perto, natais com presentes apenas simbólicos, e um aperto orçamentário que garrotearia todas as decisões que implicassem gastos maiores da escola das meninas ao aluguel.

Nos tempos de inflação destampada, muitas vezes os reajustes de salário entravam em descompasso com o aumento das prestações, e a Encol praticamente engolia todo o holerite. Estóicas, minha mulher e minhas filhas aceitavam as contingências. Para pagar a Encol, nada era sacrifício. Afinal, o dinheiro voltaria na forma de um lugar para morar e sermos felizes juntos. Até as árduas madrugadas de fechamento de VEJA pareciam um pouco mais leves depois de assinado o contrato com a construtora.

Quando nos mudamos para Nova York, em 1994, acertei com a Encol a anualização das prestações. Em meados daquele ano, fui alertado por amigos para o desastre iminente da Encol. Procurei a construtora. Um diretor, muito amável e sereno, anotou os dados e disse que meu caso era simples. Reconheceu as dificuldades da empresa e se prontificou a resolver o problema de uma tacada: em vez de esperar meu apartamento ficar pronto, em dezembro de 1996, a Encol me entregaria dentro de um mês um apartamento pronto, no valor do que eu já havia pago.

Foto: Antonio Milena
O prédio inacabado

Mentira. O que se seguiu foi um jogo de enrolação, adiamentos e despistes. A Encol me tomou mais de 100.000 reais em troca de uma promessa que nunca se cumpriu. Meu apartamento é um esqueleto de concreto abandonado, e o diretor saiu da empresa. Seu sucessor marcou uma reunião comigo. No dia aprazado, ele e todos os funcionários estavam na Avenida Paulista fazendo um protesto para pressionar o governo a ajudar a construtora. Fui atendido por uma senhora que cuidava da limpeza. Insisti dezenas de vezes pelo telefone. As secretárias mal escondiam a ironia em suas negaças. Meu maior constrangimento é em casa. Como dizer às minhas filhas que a Encol, nome tantas vezes repetido como sinônimo de futuro e solidez, é uma fraude? Como contar que não teremos um apartamento nosso? Que ensinamentos tirar do episódio? Sejamos práticos, uma única vez. Espero que elas aprendam a lição fundamental da vida adulta: ninguém vai investir e administrar melhor o dinheiro delas do que elas próprias.

Eurípedes Alcântara é correspondente de VEJA em Nova York




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