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Edição 2075

27 de agosto de 2008
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Roberto Pompeu de Toledo
A história humana
no Ninho de Pássaro

"Os Jogos Olímpicos miram na Grécia e acertam
na pré-história. Ou melhor: uma parte dos Jogos.
Os esportes com bola lembram outro capítulo
da trajetória humana"

Os Jogos Olímpicos são um desafio ao bom senso. Tome-se o arremesso do martelo. Terem inventado que tal coisa é uma atividade digna de ser praticada, digna de ser chamada de "esporte" e, para culminar, digna de figurar entre as modalidades olímpicas mostra como são intrigantes os caminhos que a mente humana é capaz de percorrer. Hoje o martelo não é bem um martelo – é uma bola de ferro presa a um cabo, que o arremessador gira ao redor do corpo antes de liberá-la para sua esdrúxula viagem. Mas, se o nome é "arremesso do martelo", é porque na origem se arremessava um martelo mesmo. Só uma mente extravagante – além de imprudente – imaginaria que tal objeto, entre suas múltiplas utilidades, teria de ser arremessado longe, e quanto mais longe se pudesse fazê-lo mais meritório.

Tome-se o salto com vara. É a especialidade da russa Yelena Isinbayeva. Quem não viu a bonita Isinbayeva não sabe o que perdeu – uma performance que ela convida a platéia a acompanhar com palmas, e que inclui até uma solitária conversa consigo mesma, antes de partir em disparada. Além de ter conquistado a medalha de ouro e superado seu próprio recorde mundial em Pequim, essa magnífica russa pode se gabar de, se lhe der na telha, nem precisar tomar o elevador quando visita o namorado; pode entrar no apartamento pela janela. Mas o esporte que ela pratica, francamente… Por que saltar com vara? É outra invenção que só pode ser atribuída à tendência da mente humana em fugir do que é natural e razoável.

E a corrida com barreiras? E o salto triplo? A rigor até seria dispensável o trabalho de selecionar uma ou outra modalidade. O esporte como um todo, e em especial a mania de superação que contamina seus praticantes, já repousaria sobre a premissa absurda de contrariar o prazer do sossego e do repouso. Todo o universo atlético ganha um sentido, no entanto, quando nos damos conta de que ali se reencena a luta humana pela sobrevivência. A corrida tem sua origem na fuga das feras ou dos grupos rivais; a corrida com obstáculos, na dificuldade de superar os charcos, os barrancos e os espinheiros; o salto em distância, na ultrapassagem dos riachos; o salto em altura, na tentativa de alcançar os frutos no alto das árvores. Até o salto com vara ganha uma lógica: é o momento em que o homem primitivo se torna capaz de inventar ferramentas para superar os obstáculos impostos pela natureza. E o arremesso do martelo, assim como o do disco e o do dardo, visita a quadra em que o homem criou as armas para substituir os próprios punhos na caça e no enfrentamento dos inimigos.

Os Jogos Olímpicos miram na Grécia mas acertam na pré-história. São uma releitura da Idade da Pedra. Ou melhor: uma parte dos Jogos. Os esportes com bola pertencem a outro capítulo da história da humanidade. Se nossos ancestrais demoraram tanto para inventar a roda, demoraram ainda mais para chegar à bola. A bola tem como principal característica uma esplendorosa inutilidade. É um brinquedo. As modalidades do atletismo lembram as sofridas necessidades da subsistência, na era em que a espécie procurava se consolidar sobre o planeta – fugir, comer, enfrentar o inimigo, contornar os obstáculos, conquistar a fêmea. Já a bola se notabiliza pela ausência de função nas lides pela sobrevivência. Por isso mesmo representa a conquista de um novo patamar, de inestimável valor, na escala da evolução: o patamar da diversão. Consolidada e confiante em si mesma, a espécie permite-se o luxo de brincar.

O arremesso do martelo, mesmo não sendo mais com martelo, continua assustador. Haja músculo, para atirar aquela bola de ferro. Haja peso, para dar os rodopios que precedem seu lançamento. É uma atividade que pode causar admiração pela força, nunca pela astúcia. Já os passes no futebol ou as levantadas do vôlei mostram que, nos esportes com bola, a força é temperada, e às vezes até substituída, pela habilidade. O martelo pode até causar assombro, mas nunca provocará um sorriso. Já o drible, no futebol e no basquete, ou a "largada" no vôlei, manobras cujo objetivo é enganar o adversário, representam a intromissão do humor na competição. Do martelo à bola, desenha-se um percurso em cujo ponto de chegada a ênfase está menos nos músculos do que no uso da massa cinzenta alojada no cocuruto do animal humano.



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