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Televisão Os métodos a que
os atores das novelas se submetem
Meses atrás, a preparação de Ana Paula Arosio para o papel de mãe de três moças em Ciranda de Pedra incluiu exercícios incomuns. Com 33 anos e sem filhos, a atriz passou por simulações de parto para captar a "essência" de sua personagem. Ela fingia que dava à luz e as atrizes que fazem suas filhas no folhetim a abraçavam como se fossem seus "bebês". Eis uma amostra do trabalho dos preparadores de atores, grupo que conquistou espaço nos bastidores da TV nos últimos anos. Na indústria das novelas, o autor escreve as histórias e o diretor supervisiona sua gravação e edição. Esses profissionais atuam no meio do caminho: ajudam os atores a compor seus personagens. O "parto criativo" foi idéia da preparadora Rossella Terranova. "Como Ana Paula não tinha a vivência da maternidade, eu falei: Meninas, nasçam. E ela se encontrou", diz. Nesse nicho destacam-se as instrutoras fixas da Globo, como Rossella e a colega Andrea Cavalcanti, especialista em atores novatos (a emissora recorre a Rosana Garcia, a Narizinho de sua primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo, para lidar com crianças). Há outras que, apesar de não ter vínculos com nenhuma rede, são muito requisitadas. A atriz Camilla Amado orientou a ex-big brother Grazi Massafera em sua estréia nas novelas. A psicanalista Katia Achcar também é referência. Em seu divã, Patrícia Pillar e Mariana Ximenes refletem, à luz de Freud, sobre a assassina Flora e a patricinha Lara, suas personagens em A Favorita. É no cinema nacional que se encontra o exemplo mais claro de como o trabalho de um preparador faz diferença. De Cidade de Deus a Tropa de Elite, é raro encontrar um filme de impacto dos últimos anos que não tenha o dedo de Fátima Toledo. Ela desenvolveu um método tão eficiente quanto controverso: o elenco não atua no sentido usual do termo, e sim reage a situações de stress e tensão, o que garante registros mais naturalistas. Como as novelas são gravadas em ritmo acelerado, é inviável aplicar o mesmo método a elas. Enquanto um profissional do cinema como Fátima faz suas experiências durante a própria filmagem, na televisão o preparador é uma espécie de personal trainer dos atores. É um trabalho com fins objetivos, como buscar o tom de voz e o gestual adequados. Mas também tem muito de vôo livre (e às vezes às cegas). Ex-bailarina de 67 anos, Rossella lida com a "consciência corporal". Andrea, atriz de 44 anos, trabalha com a "memória sensorial". Camilla, de 69, é atriz respeitada no teatro. Além das técnicas do ramo, envereda pela psicanálise. "O ator tem de superar sua personalidade e deixar o inconsciente fluir", afirma. Ex-mulher do veterano Reginaldo Faria (com quem teve dois filhos, entre os quais o ator Marcelo Faria), Katia nunca deixou de exercer a psicanálise. Já no fim dos anos 70, contudo, produzia "perfis psicológicos" de personagens para a Globo. As diferenças de método e formação produzem lá suas farpas. "Acho estranho um psicanalista trabalhar fora de suas atribuições", diz Camilla. "Camilla não conhece meu trabalho comecei em 1978", diz Katia. Para a Globo, os preparadores tornaram-se indispensáveis, por exemplo, para dar jeito nos atores novatos. Em Malhação, Andrea Cavalcanti trabalha duro para que os modelos-atores encontrem a "música" de seus personagens, como ela diz. Recentemente, teve a missão de monitorar Marjorie Estiano, revelação da novelinha, em sua estréia como protagonista de novela das 8. A Maria Paula de Duas Caras precisava demonstrar raiva do golpista Marconi Ferraço (Dalton Vigh). Andrea prescreveu então exercícios físicos para que Marjorie libertasse seus demônios (pelo que se viu no ar, a atriz gastou todo o seu fôlego nos ensaios). Sua empreitada atual é preparar outra protagonista estreante Grazi para a próxima novela das 6. Só que a tática será mais sutil. O cálculo é que mais vale Grazi ser ela mesma em cena do que se levar a sério como atriz. A intimidade entre preparadores e atores é como a dos analistas com seus pacientes. Como o que está em jogo nessa relação são suas inseguranças e deficiências, os dois lados não gostam de falar sobre o assunto em público. "O sucesso do trabalho vem da confiança e do pacto de silêncio com os atores", diz Andrea. Não à toa, uma lavagem de roupa suja envolvendo Katia Achcar e a atriz Claudia Raia causou mal-estar nos bastidores da Globo recentemente. As duas se desentenderam quanto ao valor cobrado por Katia por uma consultoria sobre Donatela, personagem de Claudia em A Favorita. Edson Celulari, marido da atriz, tomou suas dores e a polêmica foi parar na imprensa. Numa nota, Claudia demonstrou indignação: "Uma psicanalista que leva a relação com seus clientes para os jornais já sinaliza o tipo de decepção que tivemos". "Não quero botar lenha nessa fogueira", desconversa Katia. Alguns artistas, por outro lado, não se cansam de declarar sua admiração pelos preparadores. Dalton Vigh é paciente de Katia e também seu cliente como preparadora. Mariana Ximenes é entusiasta desse tipo de "imersão": já trabalhou com Camilla Amado e outros nomes, antes da parceria atual com Katia. Em sessões que às vezes vão das 11 da noite à 1 da madrugada, atriz e psicanalista debatem os traumas de infância de Lara. "A gente trabalha com os subtextos", diz Mariana. E explica: "Cada fala tem um raciocínio anterior e uma justificativa por causa desse raciocínio. Dá para entender?".
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