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Livros A despeito de sua
fama de onipotência, o serviço secreto
Muita gente acredita que a CIA, a agência central de espionagem americana, esteve por trás de todos os golpes de estado, assassinatos políticos e eleições manipuladas das últimas décadas. Agentes secretos e espiões americanos estariam em toda parte, manipulando as cordas da política internacional. Trocando em miúdos, a história contemporânea se resumiria num texto escrito pela Casa Branca com a caneta da CIA. Esse mito da importância e da infalibilidade da agência americana é desmascarado por Tim Weiner, jornalista do New York Times especializado no assunto e ganhador do Prêmio Pulitzer, em seu Legado de Cinzas (tradução de Bruno Casotti; Record; 742 páginas; 65 reais), que chega nesta semana às livrarias brasileiras. A obra mostra que o serviço secreto do país mais rico e poderoso do planeta não oferece mais do que uma crônica entre ridícula e trágica de erros, fracassos e desastres. Malgrado seu suposto poder, a CIA é relativamente nova. Sem grande interesse pelo restante do mundo e protegidos por dois oceanos, os Estados Unidos acreditavam não precisar se informar sobre o que se passava muito além de suas fronteiras. Foi apenas durante a II Guerra que tal necessidade se fez sentir. No decorrer do conflito, suas Forças Armadas desenvolveram um serviço de informações, o OSS, do qual surgiria a CIA, em 1947, já no início da Guerra Fria. Segundo Weiner, além de ser, entre as potências relevantes, a última a criar uma organização similar (séculos após ingleses, franceses e russos), os EUA eram igualmente aquela menos preparada para fazê-lo, pois o funcionamento efetivo dos serviços secretos se contrapõe ao modo como vive e opera uma democracia moderna e avessa ao sigilo. A ficha corrida da agência, em seus sessenta anos de existência, é negra, não porque tenha jogado sujo ou aplicado golpes baixos (as rivais fizeram o mesmo), mas porque não promoveu como se esperava os interesses do país. O nome do livro é tirado de uma altercação entre Eisenhower e o diretor da CIA Allen Dulles, na qual o presidente, no fim de seu segundo mandato e frustrado por ter falhado na reforma da agência, afirmou irritado que deixaria ao sucessor um "legado de cinzas". O que o título sugere é o que o texto oferece: um compêndio de asneiras, mal-entendidos e fiascos acompanhados freqüentemente da tentativa de ocultá-los tanto dos sucessivos presidentes e do Congresso como da imprensa e do público. A organização estreou tateando no escuro e, ao que consta, nunca achou um interruptor decente. Dedicada em seus primórdios a depor os regimes comunistas do Leste Europeu infiltrando opositores exilados, armando guerrilheiros potenciais (e sem pudor de recorrer a antigos colaboradores dos nazistas e membros da SS), ela desperdiçou tempo, dinheiro e esforço mandando gente despreparada para a morte certa em lugares como a Ucrânia, a Albânia, a Polônia e, do lado oposto da Eurásia, a China e a Coréia do Norte , até coroar essas iniciativas com o desastre que foi o desembarque de cerca de 1 500 exilados cubanos na Baía dos Porcos em 1961, uma tentativa de derrubar o governo que o exército local neutralizou em menos de três dias. Dotada de recursos quase ilimitados, a CIA usou-os na aquisição de informação falsa ou de desinformação cuidadosamente fornecida pelos inimigos. Contra-inteligência não era o seu forte, e agentes duplos como Aldrich Ames operaram anos sem ser detectados, comprometendo os poucos espiões de que a CIA dispunha na União Soviética (Ames só seria descoberto e preso em 1994, três anos depois da dissolução do império inimigo ao qual vendera segredos cruciais). O primeiro teste nuclear russo pegou a CIA de surpresa em 1949, assim como, um ano depois, a agressão norte-coreana que deflagrou a guerra na península asiática e, logo em seguida, a intervenção chinesa. A agência só soube dos mísseis soviéticos apontados para Washington quando estes estavam firmemente instalados em Cuba, em 1962. Nunca entendeu a estratégia do Vietnã do Norte e de seus clientes vietcongues, e deixou o país perder um aliado importantíssimo, o xá do Irã, em 1979, sem ter idéia do regime hostil que o sucederia. Tampouco previu, na mesma época, a invasão russa do Afeganistão. Ignorando a natureza profunda da União Soviética e de sua economia decrépita, ela não esperava a queda do Muro de Berlim. Incapaz de achar seu lugar num mundo posterior à Guerra Fria e posta de lado por um presidente como Clinton, que julgava as questões geopolíticas coisa do passado, não avaliou direito os novos perigos que ameaçavam os Estados Unidos nem deu ao terror islâmico a atenção que merecia antes dos megaatentados que a colheram despreparada. Quanto aos golpes de estado que a CIA deu ou encorajou nos quatro cantos do globo, da Guatemala e Irã nos anos 50 ao Brasil nos anos 60, Chile nos anos 70 e assim por diante, o autor os vê como imorais, contraproducentes e, em geral, desnecessários. Algumas vezes, a agência achou conveniente eliminar gente que apoiara, como o presidente sul-vietnamita Ngo Dinh Diem (deposto em 1963), um católico místico que, em vez de se opor aos comunistas do norte, pôs-se a hostilizar a maioria budista do país. Outras vezes, seus tiros saíram pela culatra: a conseqüência da derrubada do nacionalista iraniano Mosaddeq, em 1953, seria, dois decênios mais tarde, a ascensão dos aiatolás, e os guerrilheiros islâmicos apoiados pela agência na luta contra a ocupação soviética do Afeganistão se tornariam os futuros integrantes do Talibã e da Al Qaeda. A tese que o autor promove não o deixa, porém, esclarecer os parâmetros segundo os quais avalia a agência. Será que, por exemplo, a KGB, incapaz de convencer os ocupantes do Kremlin de que o capitalismo não estava prestes a falir, ou o Mossad e os demais serviços israelenses, que não previram o ataque sírio-egípcio de 1973 (Guerra do Yom Kipur), tiveram um desempenho tão melhor? Afinal, os Estados Unidos ganharam a Guerra Fria, e desafia a imaginação pensar que todos os recursos tecnológicos desenvolvidos pela CIA, todas as informações que coletou e analisou, todas as suas intervenções não serviram para nada. Weiner encerra sua narrativa, datada do ano passado, pintando com tintas negras o cenário do recente fiasco americano: a Guerra do Iraque. Ocorre que, desde então, mesmo a imprensa liberal do país parece disposta a admitir ao menos a possibilidade de uma vitória. Seja como for, esta história seletiva da CIA dá, entre outras coisas, um panorama sério dos anos da Guerra Fria e posteriores ao descrever a trajetória de um serviço de inteligência que jamais andou longe do centro dos acontecimentos. Mais do que isso, o livro mostra, por meio de um caso exemplar, como qualquer organização estatal, especialmente se conta com muita verba e supervisão mínima, acaba desenvolvendo uma viciosa cultura interna e passa a se dedicar sobretudo à autopreservação. Essa dinâmica, quando acomete os serviços secretos, representa um perigo grave para a liberdade. Que sejam as instâncias representativas e eleitas que, nos Estados Unidos, mandem neles, e não (como sucede ainda hoje na Rússia de Putin, não por acaso um ex-agente da KGB) o contrário, é uma notícia reconfortante para os que apostam na democracia.
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