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27 de agosto de 2008
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Medicina
A química da esperança

O Avastin, uma terapia-alvo, e uma nova vacina
lideram a promissora frente de pesquisas contra
um dos tipos mais comuns e letais de tumor cerebral


Adriana Dias Lopes

Em verde, a imagem de um tumor no cérebro
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Há três meses, o senador americano Ted Kennedy, de 76 anos, foi internado às pressas depois de sofrer episódios seguidos de convulsão. O diagnóstico: glioma maligno, o tipo mais comum e letal de câncer cerebral. Imediatamente, ele foi submetido a uma cirurgia para extração do tumor, seguida de radioterapia e quimioterapia. É só o que há a ser feito num caso como esse. Pouco se avançou em novos tratamentos do câncer cerebral nos últimos dez anos. O diagnóstico do patriarca dos Kennedy, no entanto, se deu em um momento raro da oncologia, em que esse quadro começa a mudar. Está-se partindo do zero para a aposta em pelo menos duas frentes bastante promissoras de controle do câncer no cérebro. Na primeira delas, está o remédio Avastin, uma terapia-alvo que impede a proliferação das células tumorais sem afetar as células saudáveis. Já utilizada para tratar outros tipos de tumor, ela tem se revelado eficaz ao interromper o suprimento de nutrientes ao glioma, matando-o de fome. Na outra linha de estudos está uma vacina experimental que estimula o sistema imunológico do doente a combater o tumor. Os resultados preliminares com a vacina mostram que praticamente dobrou a taxa de sobrevida dos pacientes. Não por acaso, a equipe médica da Universidade Duke, escolhida pelo senador para assisti-lo, esteve envolvida em ambos os estudos. Muito provavelmente, Ted Kennedy está agora se tratando com o Avastin.

O câncer que acometeu o senador tem um dos prognósticos mais cruéis – a média de sobrevida dos pacientes depois do diagnóstico é de quinze meses. Apenas 25% das vítimas de glioma sobrevivem por mais de dois anos. As novas químicas são vitais na luta contra ele. Nem a cirurgia, nem a rádio ou a quimioterapia têm o poder de alcançar todas as células cancerosas, que se embrenham no cérebro pelas mais diversas estruturas. Por ser extremamente vascularizado, esse tipo de tumor necessita de grande quantidade de vasos para sobreviver e se desenvolver. O Avastin, do laboratório Roche, inibe uma das substâncias responsáveis pelo crescimento desordenado da malha de vasos sanguíneos ao redor do câncer, a proteína VEGF. Em 130 pacientes que receberam a medicação após a cirurgia, o tumor permaneceu estável ou regrediu consideravelmente. Pelos bons resultados do remédio, já há médicos, inclusive brasileiros, valendo-se dele antes mesmo da aprovação oficial para essa finalidade. "Há dois anos acrescentei a terapia-alvo à quimioterapia no tratamento dos meus pacientes com glioma, com resultados excelentes", diz Antonio Carlos Buzaid, diretor-geral de oncologia do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo.

As apostas da medicina voltam-se também para a vacina CDX-110, desenvolvida pelo laboratório Pfizer. Ela age contra uma proteína defeituosa produzida pelo tumor cerebral. Os estudos de fase 2 com a CDX-110, que atestam a sua segurança, foram recebidos com entusiasmo pelos médicos no último encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, em junho, em Chicago. A vacina foi testada em 23 pacientes, logo depois de eles serem submetidos à cirurgia e ao tratamento quimioterápico. Em média, o câncer voltou a crescer depois de 16,6 meses – tempo quase três vezes superior ao observado em pacientes que não receberam o medicamento. Os resultados fizeram com que a vacina entrasse em fast-track, mecanismo pelo qual um remédio considerado vital pode receber aprovação em menos de seis meses. Isso será possível assim que terminar a próxima fase de estudos, programada para começar ainda neste ano.

O momento promissor por que passa a neuroncologia se deve a pelo menos dois fatores. Nenhum passo teria sido dado não fossem os avanços recentes na compreensão dos mecanismos de formação e evolução do tumor. "Esse é um câncer de difícil alcance por causa da própria fisiologia cerebral", diz Auro Del Giglio, neurologista do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. O cérebro possui uma trincheira natural chamada barreira hematoencefálica, que serve para protegê-lo das toxinas que circulam pelo organismo. O problema é que ela impede também que a maioria dos medicamentos o alcance. Essa barreira, ao que tudo indica, começa a ser vencida. Além disso, por questões mercadológicas – mesmo cânceres raros são capazes de produzir vendas substanciais –, a indústria farmacêutica passou a investir mais em pesquisas de câncer no cérebro, considerado de incidência baixa. A cada ano, cerca de 20 000 novos pacientes são diagnosticados com a doença nos Estados Unidos (são 7 000 novos casos no Brasil) – é um nono da incidência do câncer de mama, um dos tumores mais estudados. À primeira vista, os meses de vida a mais prometidos pelas medicações em estudo podem não parecer muita coisa. "Mas para quem tem a doença fazem muita diferença", afirma Bernardo Garicochea, diretor do serviço de oncologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

 

 
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