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Edição 2075

27 de agosto de 2008
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PREMONIÇÃO

Cada um tem direito a sua opinião. Admito até, leitor, que você tenha a sua, não sou democrático? E daí dou minha opinião sobre a cobertura que a mídia tem feito sobre a Olimpíada. Pra empregar uma expressão muito usada hoje pelas mulheres: "Me enche o saco".

Nunca vi tanta patriotada colocada. Me lembra sempre o Dr. Johnson, que já sabia, no século XVIII, que "o Patriotismo é o último refúgio do canalha". Mas não poderia adivinhar que no Brasil seria a mais exibida qualidade na tevê por todos os idiotas do país.

A infinitamente repetida louvação das poucas e tristes medalhas de bronze que obtivemos nesta Olimpíada me lembra sempre o grande Assis Valente, que anteviu nossos dias numa de suas músicas mais populares: "Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor".

 

METÁFORA

Bem, podemos lamentar, podemos chorar, podemos tudo. Mas a realidade brasileira está aí, em todos os jornais, em mil fotos (hoje a fotografia é onipresente e milimétrica): Diego fazendo sua tão anunciada e esperada tentativa (?) de ganhar o tão anunciado, indiscutível – e antecipado até nos anúncios da Golden Cross – OURO. Pois não deu OURO, nem PRATA, nem mesmo bronze. Deu uma queda desclassificatória... de bunda. Nunca vi simbolismo maior, metáfora mais eloqüente de nosso país. Fiquei até esperando os gritos de Galvão Bueno, acompanhado pelo Bonner, berrando os dois, entusiasmados: "É o Brasil! É o Brasil! É o Brasil!".

Só Lula, que não sabia de nada, dizia lá no canto pros seus familiares: "Nunca antes na história deste país...".

 

DORIVAL

Arquivo pessoal


Tive a sorte existencial de nada ter me atrapalhado (pais, religiões, faculdades, essas coisas) e nunca ter sido obrigado a pensar no que ia ser quando crescesse. Pois, ainda menino, trabalhava na redação de O Cruzeiro (uma saleta de 20 metros quadrados que em dez anos seria a redação da maior revista do Brasil – 750 000 exemplares) com apenas três funcionários: Accioly Netto, diretor, Edgard de Almeida, paginador (hoje seria designer), e eu, contínuo, entregador, resenhador, colador, factótum, em suma.

Foi aí que vi entrar todo mundo e seu pai (Gago Coutinho, que tinha cruzado o Atlântico antes de Lindbergh, Manso de Paiva, assassino do candidato a ditador Pinheiro Machado, e um jovem mulato recém-chegado da Bahia).

Não encontrando quem procurava e vendo as figuras que eu recolava, esse jovem me disse: "Você ainda vai colar aí muito retrato meu".

Tempo depois ele, Caymmi, me diria que fui a primeira pessoa que ele conheceu ao chegar ao Rio – glória da qual não abro mão. A vida nos juntou longos anos, até que o tempo nos afastou, nos esgarçou. A foto testemunha quando estivemos juntos em Itapoã (quase intocada), pra onde ele voltava pela primeira vez depois de muitos anos.

Mas esta nota não é pra lembrar Dorival e sua existência incomparável. É para lembrar Stela Maris, sua sempiterna companheira. A voz extraordinária de Stela, que me chegava orvalhada pela neblina da madrugada, nas ondas da Rádio Tupi fechando seu programa. A voz tonitruante de Caymmi vinha acompanhada pela voz dela, pelo contracanto inesquecível de Stela, na emoção do acalanto que encerrava o dia: "Boi, boi, boi da cara preta...".

 



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