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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
O
lucro de nossas empresas
"O
Brasil não cresce porque as empresas
não têm lucro suficiente para reinvestir
e
aumentar a
produção"
Qual é a porcentagem de lucro embutida em tudo o que você
compra no Brasil? (Dica: entre 1% e 50%.) Se um produto custa, digamos,
100 reais, quantos reais correspondem ao lucro da empresa que produziu
o que você queria e quanto é o custo efetivo do produto?
Qual, em sua opinião, é o nível de "espoliação"
capitalista, tão enfatizada pelos nossos intelectuais? Responda
antes de prosseguir. Sua resposta dirá muito sobre você
e sobre o futuro de nossa economia.
Ilustração Ale Setti
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Numa pesquisa que realizei anos atrás, 200 operários
de fábrica e donas-de-casa achavam que o lucro do patrão
era de 49%, quase a metade do preço do produto. Essa idéia
equivocada do lucro talvez explique nossa visão negativa
de empresas, administradores e empresários em geral. Por
isso, temos uma visão de mundo contrária à
geração de lucros e, por conseqüência,
à geração de empregos e de crescimento. Nossos
jovens pensam que todo empresário é ladrão,
algo enfatizado constantemente pela classe pensante.
A maioria de nossos jovens estudantes não lê os balanços
das companhias publicados nos jornais, prefere acreditar no que
os outros dizem. Se tivessem um pouco mais de senso crítico
e de observação, descobririam que a realidade é
bem diferente.
O lucro médio das 500 maiores empresas do país nos
últimos dez anos foi de 2,3% sobre as receitas, segundo a
última edição de Melhores e Maiores,
da revista Exame.
São as grandes companhias do país, aquelas que têm
contatos, tecnologia de ponta e agências de propaganda de
primeira e por isso obtêm lucros bem maiores que as médias
e as pequenas empresas. É óbvio que, como toda média,
algumas companhias conseguem margens muito mais elevadas, mas, por
outro lado, quase uma de cada quatro empresas das 500 maiores teve
prejuízo em 2002.
Tirar 2,3% de lucro do consumidor e do trabalhador está longe
de ser uma "espoliação capitalista", como nos ensinam
na universidade. Afinal, 97,7% de tudo o que você compra dessas
companhias é custo do produto, que continuará em qualquer
regime político que vier a ser implantado no Brasil por radicais
ou pelo MST. Se o Brasil eliminar o capitalismo, os preços
cairão 2,3%, nada de espetacular. Mesmo supondo que haja
mais 1% escondido no caixa dois, continua um valor não exorbitante.
Há quem argumente que 2,3% é uma remuneração
aceitável para compensar o risco que o empreendedor assumiu
de perder tudo, de usar seu capital a serviço da sociedade
em vez de gastá-lo egoisticamente consigo mesmo. Mas nossa
classe pensante ensina que temos aqui um capitalismo selvagem, que
espolia a todos, esquecendo-se deliberadamente de mencionar que
52% desses custos que pagamos são impostos.
Tirar 52% do consumidor como imposto para devolver muito pouco à
sociedade é considerado justo, mas tirar 2,3% para oferecer
o produto que você está comprando é um crime
social a ser eliminado. Percebam a crise política que nos
espera nos próximos anos, porque a maioria da população
não sabe nada disso.
Embora edições como Melhores e Maiores sejam
publicadas anualmente, nada do que elas revelam é ensinado
aos nossos jovens universitários. Eles têm uma falsa
consciência do que está realmente acontecendo no Brasil.
Se nossos alunos aprendessem a ler os balanços das empresas,
poderiam verificar isso por si mesmos e, de quebra, descobrir quais
são as melhores empresas para trabalhar. Aliás, não
acreditem em mim, leiam os balanços publicados por aí
e decidam vocês mesmos.
Hoje o Brasil não cresce porque as empresas não têm
lucro suficiente para reinvestir e aumentar a produção,
com exceção dos bancos, que financiam prioritariamente
os déficits do governo. Não temos mais jovens administradores
e empreendedores, porque ninguém quer ser xingado de ladrão.
É preferível comprar títulos do governo, que
paga juros altíssimos para poder ficar com nosso investimento.
Se acabarmos com esse "capitalismo selvagem", teremos 2,3% a mais
de renda para gastar. Se um dia implantarmos no Brasil o capitalismo
moderno, o capitalismo socialmente responsável que muitos
já estão praticando, e se reduzirmos esses impostos
escravizantes, teremos muito, mas muito mais.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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