Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Deu no New York Times

O atoleiro em que se meteu o governo
Bush, segundo
o que há de melhor
no jornalismo americano

Nesta semana o titular desta página tira uma folga e cede a palavra a colunistas, editorialistas e colaboradores do The New York Times, o melhor e o mais influente jornal dos Estados Unidos (e do mundo). O que se lerá a seguir, em tradução livre, são trechos de artigos publicados quarta e quinta-feira últimas, ao impacto do atentado terrorista que destruiu o prédio ocupado pela ONU em Bagdá e matou, entre outros, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

"A turma de Bush acabou por criar o exato monstro que tinha invocado para alarmar os americanos e induzi-los a apoiar a guerra no Iraque. Na corrida para golpear o Iraque depois do 11 de setembro, membros do governo carregaram nas tintas ao pintar as ligações entre Saddam e a Al Qaeda. Eles davam a entender que combatentes islâmicos, numa guerra santa contra a América, estavam se arrastando até Bagdá, para juntar forças com assassinos iraquianos. Havia escassa evidência disso na época, mas agora está virando verdade. Desde que a América começou sua ocupação, o Iraque transformou-se numa meca para os extremistas que, loucos de raiva, querem libertar o Oriente Médio das garras espoliadoras do infiel. (...) Antes da guerra no Iraque, a turma de Bush inflacionava as ameaças à América; depois da guerra, só faz deflacionar as ameaças à América." (Maureen Dowd, a mais atrevida e a mais divertida colunista do jornal.)

"O atentado contra o QG das Nações Unidas em Bagdá é a mais recente evidência de que a América pegou um país que não representava uma ameaça terrorista e o transformou em um que representa. Naturalmente, é causa de alegria que a guerra no Iraque tenha sido mais rápida do que esperavam até seus promotores, e que um tirano cruel tenha sido removido do poder. Mas o pós-guerra tem sido outra história. A América criou – não por maldade, mas por negligência – precisamente a situação que o governo Bush descrevera como uma sementeira de terroristas: um governo incapaz de defender suas fronteiras ou atender às mais rudimentares necessidades da população." (Jessica Stern, professora da Universidade Harvard, especializada em terrorismo, em artigo na página de opinião.)

"O ataque de ontem, o pior na história da ONU, foi outro sinal de que o grosseiro, caótico pós-guerra no Iraque vem se transformando num ímã para terroristas. Essa é mais uma conseqüência da guerra no Iraque que o governo Bush foi incapaz de prever, assim como os saques descontrolados do pós-guerra, os atrasos em restaurar a água e a eletricidade, as emboscadas contra soldados americanos e a sabotagem da infra-estrutura. O surto de terrorismo, que começou com o bombardeio da Embaixada da Jordânia em Bagdá, é tanto mais alarmante quanto a lista de alvos potenciais parece quase sem limites. Tal qual as coisas se apresentam, qualquer edifício público não inteiramente cercado por um perímetro de concreto fortificado e patrulhado parece vulnerável." (Editorial do jornal, na quarta-feira.)

"Quanto vai demorar para reconhecermos que a guerra que tão tolamente começamos no Iraque é um fiasco – uma guerra trágica, profundamente desumana e definitivamente sem possibilidade de vitória? Quanto tempo, quanto dinheiro e quantas vidas desperdiçadas ela ainda vai levar? (...) Estamos agora empacados no Iraque, no meio da mais volátil região do mundo, e a ilusão de uma vitória rápida seguida pela recepção de iraquianos de braços abertos desapareceu. Em vez do florescimento da democracia no deserto, temos a realidade de um contínuo banho de sangue e de um terror crescente – a recompensa por uma política tecida de fantasias e de mentiras." (Bob Herbert, colunista do jornal especializado em temas sociais.)

Precisa dizer mais alguma coisa? Precisa. Os Estados Unidos, que antes da guerra esnobaram a ONU quanto puderam, na semana passada articulavam junto ao Conselho de Segurança uma resolução que permitisse o envio de uma força internacional ao Iraque, para ajudar na segurança do país. Antes da guerra o governo Bush dizia que, o.k., se o Conselho de Segurança aprovasse uma intervenção armada no Iraque, tanto melhor, mas que, caso não aprovasse – como não aprovou –, paciência, os Estados Unidos se encarregariam do serviço sozinhos. Os EUA de George W. Bush faziam questão de alardear que não estavam nem aí para a opinião dos outros países nem para a lei internacional. Agora convidam os soldados de outros países para morrer com os deles. Eles estão brincando. Só podem estar brincando. Ainda mais que acalentam a idéia de atrair tropas da ONU, mas manter o comando sobre elas, assim como o monopólio das decisões políticas e econômicas sobre o Iraque. À prepotência e à incompetência, os Estados Unidos de Bush acrescentam o escárnio.

 
 
 
 
topo voltar