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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Deu
no New York Times
O
atoleiro em que se meteu o governo
Bush, segundo o
que há de
melhor
no jornalismo americano
Nesta semana o titular desta página tira uma folga e cede
a palavra a colunistas, editorialistas e colaboradores do The
New York Times, o melhor e o mais influente jornal dos Estados
Unidos (e do mundo). O que se lerá a seguir, em tradução
livre, são trechos de artigos publicados quarta e quinta-feira
últimas, ao impacto do atentado terrorista que destruiu o
prédio ocupado pela ONU em Bagdá e matou, entre outros,
o brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
"A
turma de Bush acabou por criar o exato monstro que tinha invocado
para alarmar os americanos e induzi-los a apoiar a guerra no Iraque.
Na corrida para golpear o Iraque depois do 11 de setembro, membros
do governo carregaram nas tintas ao pintar as ligações
entre Saddam e a Al Qaeda. Eles davam a entender que combatentes
islâmicos, numa guerra santa contra a América, estavam
se arrastando até Bagdá, para juntar forças
com assassinos iraquianos. Havia escassa evidência disso na
época, mas agora está virando verdade. Desde que a
América começou sua ocupação, o Iraque
transformou-se numa meca para os extremistas que, loucos de raiva,
querem libertar o Oriente Médio das garras espoliadoras do
infiel. (...) Antes da guerra no Iraque, a turma de Bush inflacionava
as ameaças à América; depois da guerra, só
faz deflacionar as ameaças à América." (Maureen
Dowd, a mais atrevida e a mais divertida
colunista do jornal.)
"O
atentado contra o QG das Nações Unidas em Bagdá
é a mais recente evidência de que a América
pegou um país que não representava uma ameaça
terrorista e o transformou em um que representa. Naturalmente, é
causa de alegria que a guerra no Iraque tenha sido mais rápida
do que esperavam até seus promotores, e que um tirano cruel
tenha sido removido do poder. Mas o pós-guerra tem sido outra
história. A América criou não por maldade,
mas por negligência precisamente a situação
que o governo Bush descrevera como uma sementeira de terroristas:
um governo incapaz de defender suas fronteiras ou atender às
mais rudimentares necessidades da população." (Jessica
Stern, professora da Universidade Harvard, especializada em terrorismo,
em artigo na página de opinião.)
"O
ataque de ontem, o pior na história da ONU, foi outro sinal
de que o grosseiro, caótico pós-guerra no Iraque vem
se transformando num ímã para terroristas. Essa é
mais uma conseqüência da guerra no Iraque que o governo
Bush foi incapaz de prever, assim como os saques descontrolados
do pós-guerra, os atrasos em restaurar a água e a
eletricidade, as emboscadas contra soldados americanos e a sabotagem
da infra-estrutura. O surto de terrorismo, que começou com
o bombardeio da Embaixada da Jordânia em Bagdá, é
tanto mais alarmante quanto a lista de alvos potenciais parece quase
sem limites. Tal qual as coisas se apresentam, qualquer edifício
público não inteiramente cercado por um perímetro
de concreto fortificado e patrulhado parece vulnerável."
(Editorial do jornal, na quarta-feira.)
"Quanto
vai demorar para reconhecermos que a guerra que tão tolamente
começamos no Iraque é um fiasco uma guerra
trágica, profundamente desumana e definitivamente sem possibilidade
de vitória? Quanto tempo, quanto dinheiro e quantas vidas
desperdiçadas ela ainda vai levar? (...) Estamos agora empacados
no Iraque, no meio da mais volátil região do mundo,
e a ilusão de uma vitória rápida seguida pela
recepção de iraquianos de braços abertos desapareceu.
Em vez do florescimento da democracia no deserto, temos a realidade
de um contínuo banho de sangue e de um terror crescente
a recompensa por uma política tecida de fantasias e de mentiras."
(Bob Herbert, colunista do jornal especializado em temas sociais.)
Precisa dizer mais alguma coisa? Precisa. Os Estados Unidos, que
antes da guerra esnobaram a ONU quanto puderam, na semana passada
articulavam junto ao Conselho de Segurança uma resolução
que permitisse o envio de uma força internacional ao Iraque,
para ajudar na segurança do país. Antes da guerra
o governo Bush dizia que, o.k., se o Conselho de Segurança
aprovasse uma intervenção armada no Iraque, tanto
melhor, mas que, caso não aprovasse como não
aprovou , paciência, os Estados Unidos se encarregariam
do serviço sozinhos. Os EUA de George W. Bush faziam questão
de alardear que não estavam nem aí para a opinião
dos outros países nem para a lei internacional. Agora convidam
os soldados de outros países para morrer com os deles. Eles
estão brincando. Só podem estar brincando. Ainda mais
que acalentam a idéia de atrair tropas da ONU, mas manter
o comando sobre elas, assim como o monopólio das decisões
políticas e econômicas sobre o Iraque. À prepotência
e à incompetência, os Estados Unidos de Bush acrescentam
o escárnio.
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