|
|
Entrevista:
Susan
Sontag
Imagens
da dor
A escritora americana discute
a maneira como vemos a guerra
e o sofrimento alheio em
fotos e na televisão

Carlos
Graieb
Quando precisa identificar-se, a americana Susan Sontag gosta de
usar apenas uma palavra: escritora. Mas, ao menos no Brasil, o termo
"intelectual" define melhor o tipo de personagem polivalente que
ela é alguém que tem no currículo ensaios,
romances e roteiros, além de ser referência em todo
tipo de debate político e cultural. Sua obra mais recente
chama-se Diante da Dor dos Outros, e acaba de ser lançada
no Brasil. Esse livro curto, que remete a um trabalho anterior,
Ensaios sobre Fotografia, de 1977, é uma reflexão
sobre a guerra e sobre a maneira como o sofrimento alheio é
enxergado em fotos e imagens de televisão. Susan Sontag começou
a redigir o livro nos primeiros meses de 2001, e os atentados terroristas
do 11 de Setembro, juntamente com as guerras travadas pelos Estados
Unidos no Afeganistão e no Iraque, tornaram o seu tema candente.
Sobre esses eventos, aliás, a autora é uma voz dissonante
em seu país. Ela critica de maneira acerba o governo George
W. Bush e o "imperialismo americano". Aos 70 anos, Susan Sontag
já travou duas batalhas contra o câncer: uma no fim
dos anos 70 e outra no fim dos anos 90. "Ainda faço controle
da doença, mas desde 2001 sinto-me perfeitamente bem", disse
ela, nesta entrevista a VEJA, de sua casa em Nova York.
Veja
Existe uma diferença na percepção
que homens e mulheres têm da guerra? A senhora aborda essa
questão no começo de seu novo livro, mas não
chega a responder a ela.
Susan
É verdade. Meu livro não responde de maneira conclusiva
a essa pergunta, e não creio que eu seja capaz de ir muito
além do que já disse. Penso, ou sinto, que existe
uma diferença na maneira como homens e mulheres vêem
a guerra. Não no sentido de que mulheres sejam pacifistas
naturais. Há cada vez mais soldados do sexo feminino nos
exércitos, e há mulheres que fazem a guerra
pense em Margaret Thatcher, ou em Condoleezza Rice. No entanto,
as motivações que levam alguém a querer o combate
parecem estar mais entranhadas no modo de ser masculino do que no
feminino. Os homens gostam da guerra. Ela exerce uma eterna sedução
sobre eles, pela intensidade da experiência, pela camaradagem
que ela propicia, pela oportunidade de parecer forte e decidido,
pela oportunidade de fugir do marasmo da vida familiar. Assim, imaginar
que haja antídotos para a sedução da guerra
é o tipo de reflexão que provavelmente ocorre com
mais facilidade às mulheres do que aos homens. Seja como
for, levantei essa questão no começo de meu livro
para abordar um outro ponto: nos discursos belicosos ou nos discursos
pacifistas, freqüentemente usamos um "nós" universal.
Mas talvez homens e mulheres não respondam da mesma maneira
à visão do sofrimento causado pela guerra. E há
outras diferenças, não só de sexo. Assim, ao
falar de dor, sobretudo da dor vivenciada pelos outros, nunca deveríamos
usar a palavra "nós" de maneira tão convicta. Esse
é um dos temas centrais de meu livro, que fala sobre a guerra
e sobre a experiência cotidiana de observar a dor alheia em
fotografias e na TV.
Veja
Qual foi o estímulo para escrever o livro?
Susan
Foi a experiência de estar numa zona conflagrada. Entre 1993
e 1995, passei diversos meses vivendo em Sarajevo, na Bósnia,
durante a guerra que arrasou o país. Desde então,
o problema de como as pessoas de hoje em dia, em sua sala de estar,
encaram a violência experimentada por outras que vivem distante
delas me tem feito pensar muito. Na época em que estive em
Sarajevo, as comunicações com o mundo exterior eram
precárias. Eu convivia com um monte de jornalistas, que mandavam
matérias todos os dias para suas redes de televisão
e jornais, mas mesmo eles não tinham a menor idéia
de como o seu trabalho vinha sendo apresentado. Quem estava lá
dentro simplesmente não sabia como a guerra era retratada.
Eu saía da cidade a intervalos regulares para tomar um banho
pois havia até falta de água por longos períodos
, para pegar dinheiro e comprar coisas, e sempre era uma enorme
surpresa descobrir qual era a visão que as pessoas de fora
tinham do conflito. Existe um abismo entre aquilo que as imagens
de guerra mostram e a vivência real do acontecimento.
Veja
Um tema interessante de seu livro é a demonstração
de que nem sempre as imagens de guerra e sofrimento foram usadas
como meio de provocar a indignação de seus espectadores.
Susan
Creio que o primeiro artista importante a representar a dor
alheia com o objetivo de abalar as pessoas foi o pintor espanhol
Francisco Goya. Foi um gesto de extrema ousadia, que colabora para
firmar a reputação de Goya como um dos maiores artistas
que jamais existiram. Eu acho que hoje em dia as imagens de guerra
tendem a ser vistas dessa maneira por um determinado tipo de observador
um observador que eu chamaria de informado e cosmopolita.
Nós, eu, você e, provavelmente, os leitores de sua
revista, tendemos a reagir com indignação moral às
imagens de horror da guerra. Mas essa não é a única
maneira de encarar as imagens, e aqui eu volto ao começo
de nossa conversa, quando disse que é preciso tomar cuidado
ao empregar o "nós". Mude o contexto político e ideológico
em que as imagens são vistas e tudo pode ser diferente. O
público árabe que assiste à TV Al Jazira raramente
interpreta as cenas de guerra que vê ali como um protesto
contra a violência. Naquele contexto, as cenas são,
antes de tudo, um chamado para a mobilização, para
odiar e resistir mais ao inimigo.
Veja
Uma tese muito em voga hoje em dia é que o excesso
de imagens com que somos bombardeados diariamente afogou a realidade
e nos mergulhou numa "sociedade do espetáculo". A senhora
discorda dessa idéia. Por quê?
Susan
Essa
é uma idéia corrompida e corrompedora. É algo
em que somente uma pessoa que vive amparada por todas as benesses
da vida moderna pode pensar. Mas nós, que vivemos amparados
por essas benesses, somos uma ínfima parcela da população
mundial. Pessoas que não têm geladeira em casa não
pensam que a realidade é um espetáculo, e muito menos
que a realidade não existe. E a guerra, sobretudo, não
é um espetáculo. Sempre que escrevo um ensaio acabo
descobrindo que tinha algum alvo intelectual em mente. No meio desse
livro, percebi que estava mirando em filósofos como Jean
Baudrillard e seus colegas franceses. Em livro após livro,
eles defendem a idéia de que não existe realidade
de que tudo é espetáculo, ou simulacro, ou
seja lá que conceito for. Só pessoas que nunca ouviram
um tiro, e que vêem a guerra de sua sala de visitas, podem
criar uma teoria tão fátua.
Veja Exposição demais à violência
por meio de fotos e imagens de televisão pode levar as pessoas
à indiferença e à passividade?
Susan
Essa foi uma idéia que comecei a discutir nos anos 70, quando
escrevi meu primeiro ensaio sobre fotografia, e que senti a necessidade
de retomar agora. Naquela época eu disse de maneira um tanto
forte que as imagens poderiam, sim, nos tornar passivos. Hoje eu
acredito que isso não é necessariamente verdade. As
coisas só acontecem dessa maneira se a mensagem que acompanha
a imagem for a de que nada pode ser feito. Se a mensagem subliminar
for "sim, tudo é horrível, mas interferir está
fora de nossas possibilidades", aí ela leva você à
passividade. E é preciso estar alerta também para
a compaixão e a simpatia fácil que as imagens de sofrimento
nos provocam. No ano passado, eu estava visitando o Rio de Janeiro
quando o filme Cidade de Deus estreou, e vi muita gente surpresa
com a realidade exibida pelo filme. Esse tipo de surpresa é
uma espécie de clamor de inocência, um álibi.
É uma forma de dizer "eu não sabia que esse horror
acontecia ao meu lado" e de não pensar que o sofrimento dos
outros pode estar perversamente conectado com o seu bem-estar. Precisamos
sempre questionar o papel da compaixão quando vemos algo
terrível que está acontecendo longe de nós.
Se não carregar consigo a idéia de que as coisas podem
mudar, talvez então você se torne realmente passivo
e comece a pensar na realidade como um espetáculo.
Veja A senhora sempre foi uma admiradora do fotógrafo
brasileiro Sebastião Salgado, mas o critica no novo livro.
O que passou a incomodá-la em seu trabalho?
Susan
Sebastião Salgado é um fotógrafo imensamente
talentoso e maduro, que se especializou num tema difícil,
a exibição da miséria. Mas creio que em seus
trabalhos mais recentes, da série chamada Êxodos,
ele se perdeu um pouco. São fotos que não ajudam realmente
a compreender o fenômeno do sofrimento causado pela pobreza,
porque o projeto não tem a especificidade e a concretude
que precisaria ter. Quando põe num mesmo livro pessoas que
estão fugindo da guerra e pessoas que estão saindo
de regiões muito pobres em direção à
cidade, você não está contribuindo para nenhum
tipo de compreensão política e histórica daqueles
fatos. As circunstâncias são muito diferentes, e provavelmente
requerem olhares diferentes. Acho que esse é o principal
problema. Além disso, há o contexto comercial da exibição
de seus trabalhos. Salgado tornou-se um profissional extremamente
bem-sucedido cujas fotos são exibidas em revistas num certo
tipo de contexto e com certo tipo de legenda que enfraquecem mais
do que reforçam aquilo que as fotos dizem.
Veja
Há quem diga que Salgado estetiza a miséria.
Essa crítica é justa?
Susan
Não é a crítica que eu faço. Acho que
é da natureza das fotografias estetizar a realidade. Talvez
Salgado faça isso um pouco mais. Há gente que se esforça
para diminuir esse efeito, como Gilles Peress, por exemplo, que
sempre foi muito sensível a essa crítica. Mas a realidade
é que as fotos que nos marcam quase sempre são aquelas
que têm alguma qualidade estética. Uma das fotos de
Peress que vêm à minha mente com freqüência
é um close-up de centenas e centenas de facões utilizados
como armas em Ruanda, no genocídio da etnia tutsi. É
uma foto poderosa e parte desse poder deve-se, sem dúvida,
à sua estética.
Veja
Recentemente a senhora esteve envolvida numa polêmica
com o escritor colombiano Gabriel García Márquez a
respeito de Cuba.
Susan
Eu estava em Bogotá, convidada para uma palestra sobre o
tema clássico da responsabilidade dos intelectuais. Durante
a conferência, fiz as seguintes observações:
primeiro, a obrigação primária de um intelectual
é falar a verdade. Em segundo lugar, não acredito
que um intelectual tenha obrigatoriamente de se engajar em discussões
políticas. Mas, se o escritor tem o hábito de falar
sobre determinados temas, então, ficar em silêncio
quando um desses temas está em pauta é um gesto político
por si só, que deve ser interpretado e julgado. São
situações em que o silêncio é eloqüente.
Minha intenção inicial não era criticar García
Márquez, mas, nesse ponto, as palavras saíram sozinhas
de minha boca. Eu disse que o seu silêncio sobre o que havia
acontecido em Cuba pouco antes a execução sumária
de três homens e o aprisionamento de quase oitenta pessoas
que não se alinhavam com o regime castrista era inadmissível,
uma vez que ele já se havia declarado um amigo de Cuba e
se pronunciado inúmeras vezes a respeito do regime de Fidel
Castro. O curioso é que Márquez resolveu responder
pela imprensa, pouco depois. Ele o fez de maneira patética.
Disse que era contra a pena capital e que já havia ajudado
muita gente a sair de Cuba por baixo do pano. É uma resposta
ridícula, porque ser contra a pena de morte não confere
distinção a ninguém, é apenas um indício
de que você está familiarizado com as idéias
básicas da civilização. Além disso,
ao dizer que ajudou dissidentes a fugir de Cuba, Márquez
reconheceu que o regime é repressivo. Ele se contradisse
e expôs sua hipocrisia. Considero Gabriel García Márquez
um dos grandes escritores de nosso tempo e não creio
que haja mais que dez que mereçam ser qualificados assim.
Mas sua história põe em evidência o perigo de
aproximar-se demais do poder e ficar amigo dos poderosos. Ao fazer
isso, o escritor corre um grande risco: o de não poder mais
dizer que é intelectualmente independente.
Veja
Por que Fidel Castro exerce fascínio sobre tantos
intelectuais?
Susan
Talvez isso tenha sido verdade no passado, mas acho que o fascínio
deixou de existir. Cada vez mais, a reação dos intelectuais
que conheço a respeito de Cuba é de lástima
e de embaraço. Veja só, até mesmo José
Saramago, que insiste em declarar-se um comunista, já disse
que a repressão é mais do que ele pode aceitar. Infelizmente,
o que virá depois da morte de Castro não é
muito melhor: os cubanos que emigraram para Miami fugindo de Castro
vão tomar o poder e, com isso, os Estados Unidos transformarão
Cuba numa colônia novamente. Esse é um fato a deplorar.
Mas você não pode apoiar a crueldade em Cuba simplesmente
por temer o imperialismo americano. O mesmo vale para o caso iraquiano.
Ser contra a invasão e a colonização do Iraque
pelo poder americano não me torna uma partidária de
Saddam Hussein. São duas coisas diferentes.
|