Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Em foco: Sérgio Abranches
A nossa guerra

"A ação das Nações Unidas, conduzida por
Vieira de Mello, era
a esperança de uma
ordem civilizada
e justa para o Iraque"

Quando Sérgio Vieira de Mello ligou de seu celular para dizer que ainda estava vivo sob os escombros da sede da ONU, impedido de se mover, com as pernas imobilizadas por pesadas vigas, e pedir um pouco de água, o absurdo da guerra chegou ao Brasil com a surpresa e o espanto com que as batalhas alcançam as populações civis.

Guerras deveriam ser uma preocupação ativa de todo cidadão com sentimentos morais. É um ato de violência física de larga escala contra seres humanos, inevitavelmente com perdas civis. Não há diferença entre a morte de um soldado e a de um civil, em termos humanos. Porém, os soldados estão ativamente engajados no esforço militar, no mínimo mais alertas, enquanto os civis são sempre vítimas passivas e, além de indefesas, quase sempre surpreendidas pela erupção da violência que reclama suas vidas.

Mas a guerra, para nós, é experiência longínqua. Tornou-se concretamente brutal com a morte de Sérgio Vieira de Mello, diplomata sério, dedicado às melhores causas e com brilhante carreira na ONU. Passou a ser, também, coisa nossa.

 Ilustração Ale Setti


Qual o sentido de uma operação militar que pode chegar a custar 300 bilhões de dólares, segundo especialistas da Brookings Institution? Ela começou com pretextos insustentáveis, justificada com tese não comprovada de existência de armas de destruição em massa no Iraque. O poderio militar de Saddam Hussein foi grosseiramente superestimado pelas autoridades militares da coalizão. Os problemas pós-ocupação foram subestimados à raia da irresponsabilidade. De que o regime de Saddam era tirânico e brutal, não há dúvida alguma. O próprio Sérgio Vieira de Mello contou a Sônia Araripe, do Jornal do Brasil, que foram descobertas valas comuns, denunciando a violação em massa dos direitos humanos.

Mas há hoje dúvida séria, entre analistas dos mais diversos, de que o governo Bush realmente deseje a democracia no Oriente Médio, em geral, e no Iraque, em particular. Se o desejo for verdadeiro, são ainda mais fundas as dúvidas sobre sua capacidade de patrocinar, implementar e comandar a democratização do Iraque.

O governo Bush recebeu bem a resolução da ONU que apoiou o estabelecimento do conselho iraquiano de governo. Mas entre os especialistas há a convicção de que decidiu não transferir nenhuma parcela de autoridade no Iraque às Nações Unidas. Hoje, na imprensa mundial, há generalizada concordância com Thomas Friedman, do jornal americano The New York Times, de que quem bombardeou a sede da ONU queria destruir a melhor chance de futuro para o Iraque. Vieira de Mello tinha o propósito sincero de apoiar a refundação da ordem iraquiana pelos iraquianos. Acreditava que os iraquianos podiam construir um país melhor, se lhes fosse dada a chance. Tinha mais trânsito, acesso, credibilidade e legitimidade que o administrador escolhido por Bush, general Paul Bremer III. Sua superioridade como interlocutor na negociação para fazer do Iraque uma nação livre e soberana decorria da rara combinação entre a autoridade conferida por sua posição de representante das Nações Unidas e a força de sua autoridade pessoal, nascida da coragem, da firmeza de posições e do desprendimento pessoal. Sua causa era a da paz mundial e da autodeterminação de cada povo. O sucesso da missão em Timor Leste lhe deu crédito, por ser uma das poucas experiências de administração integral pela ONU que lograram a reordenação democrática de um país inteiro. É reconhecido por todos os especialistas sérios e isentos, sofrendo reparos apenas de setores inconseqüentes e radicais.

A ocupação do Iraque vem colhendo insucessos, coroados pela transformação da resistência à ocupação em guerra de guerrilha, com os últimos atentados. Não foi capaz de restaurar serviços básicos nem de conquistar a confiança dos principais segmentos da sociedade iraquiana, e é vista por muitos, dentro e fora do país, como insensível ao sofrimento do povo. O principal líder religioso xiita do Iraque, o aiatolá Sistani, interrompeu seu afastamento voluntário da política, recusando-se a receber Bremer e mantendo um cordial encontro com Vieira de Mello. Na pauta, sua oposição à criação de uma comissão constituinte, sob controle dos EUA, para escrever uma nova Constituição para o país.

A ação das Nações Unidas, conduzida por Vieira de Mello, era a esperança de uma ordem civilizada e justa para o Iraque. Missão quase impossível numa região sem vivência democrática, onde imperam a tirania e a opressão. Ele era o general da guerra pela autodeterminação, pela paz e pela democracia. A nossa guerra. Esperemos que o inimigo, onde estiver, não a tenha vencido, embora tenhamos perdido nosso melhor homem numa batalha.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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