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Em
foco: Sérgio Abranches
A nossa guerra
"A
ação das Nações Unidas, conduzida por
Vieira de Mello, era a
esperança de uma
ordem civilizada e
justa para o Iraque"
Quando
Sérgio Vieira de Mello ligou de seu celular para dizer que
ainda estava vivo sob os escombros da sede da ONU, impedido de se
mover, com as pernas imobilizadas por pesadas vigas, e pedir um
pouco de água, o absurdo da guerra chegou ao Brasil com a
surpresa e o espanto com que as batalhas alcançam as populações
civis.
Guerras deveriam ser uma preocupação ativa de todo
cidadão com sentimentos morais. É um ato de violência
física de larga escala contra seres humanos, inevitavelmente
com perdas civis. Não há diferença entre a
morte de um soldado e a de um civil, em termos humanos. Porém,
os soldados estão ativamente engajados no esforço
militar, no mínimo mais alertas, enquanto os civis são
sempre vítimas passivas e, além de indefesas, quase
sempre surpreendidas pela erupção da violência
que reclama suas vidas.
Mas a guerra, para nós, é experiência longínqua.
Tornou-se concretamente brutal com a morte de Sérgio Vieira
de Mello, diplomata sério, dedicado às melhores causas
e com brilhante carreira na ONU. Passou a ser, também, coisa
nossa.
Ilustração Ale Setti
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Qual o sentido de uma operação militar que pode chegar
a custar 300 bilhões de dólares, segundo especialistas
da Brookings Institution? Ela começou com pretextos insustentáveis,
justificada com tese não comprovada de existência de
armas de destruição em massa no Iraque. O poderio
militar de Saddam Hussein foi grosseiramente superestimado pelas
autoridades militares da coalizão. Os problemas pós-ocupação
foram subestimados à raia da irresponsabilidade. De que o
regime de Saddam era tirânico e brutal, não há
dúvida alguma. O próprio Sérgio Vieira de Mello
contou a Sônia Araripe, do Jornal do Brasil, que foram
descobertas valas comuns, denunciando a violação em
massa dos direitos humanos.
Mas há hoje dúvida séria, entre analistas dos
mais diversos, de que o governo Bush realmente deseje a democracia
no Oriente Médio, em geral, e no Iraque, em particular. Se
o desejo for verdadeiro, são ainda mais fundas as dúvidas
sobre sua capacidade de patrocinar, implementar e comandar a democratização
do Iraque.
O governo Bush recebeu bem a resolução da ONU que
apoiou o estabelecimento do conselho iraquiano de governo. Mas entre
os especialistas há a convicção de que decidiu
não transferir nenhuma parcela de autoridade no Iraque às
Nações Unidas. Hoje, na imprensa mundial, há
generalizada concordância com Thomas Friedman, do jornal americano
The New York Times, de que quem bombardeou a sede da ONU
queria destruir a melhor chance de futuro para o Iraque. Vieira
de Mello tinha o propósito sincero de apoiar a refundação
da ordem iraquiana pelos iraquianos. Acreditava que os iraquianos
podiam construir um país melhor, se lhes fosse dada a chance.
Tinha mais trânsito, acesso, credibilidade e legitimidade
que o administrador escolhido por Bush, general Paul Bremer III.
Sua superioridade como interlocutor na negociação
para fazer do Iraque uma nação livre e soberana decorria
da rara combinação entre a autoridade conferida por
sua posição de representante das Nações
Unidas e a força de sua autoridade pessoal, nascida da coragem,
da firmeza de posições e do desprendimento pessoal.
Sua causa era a da paz mundial e da autodeterminação
de cada povo. O sucesso da missão em Timor Leste lhe deu
crédito, por ser uma das poucas experiências de administração
integral pela ONU que lograram a reordenação democrática
de um país inteiro. É reconhecido por todos os especialistas
sérios e isentos, sofrendo reparos apenas de setores inconseqüentes
e radicais.
A ocupação do Iraque vem colhendo insucessos, coroados
pela transformação da resistência à ocupação
em guerra de guerrilha, com os últimos atentados. Não
foi capaz de restaurar serviços básicos nem de conquistar
a confiança dos principais segmentos da sociedade iraquiana,
e é vista por muitos, dentro e fora do país, como
insensível ao sofrimento do povo. O principal líder
religioso xiita do Iraque, o aiatolá Sistani, interrompeu
seu afastamento voluntário da política, recusando-se
a receber Bremer e mantendo um cordial encontro com Vieira de Mello.
Na pauta, sua oposição à criação
de uma comissão constituinte, sob controle dos EUA, para
escrever uma nova Constituição para o país.
A ação das Nações Unidas, conduzida
por Vieira de Mello, era a esperança de uma ordem civilizada
e justa para o Iraque. Missão quase impossível numa
região sem vivência democrática, onde imperam
a tirania e a opressão. Ele era o general da guerra pela
autodeterminação, pela paz e pela democracia. A nossa
guerra. Esperemos que o inimigo, onde estiver, não a tenha
vencido, embora tenhamos perdido nosso melhor homem numa batalha.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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