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Música
Para entender o novo rock
As raízes musicais e as ambições
dos
grupos mais badalados da atualidade

Sérgio Martins
A banda americana The Strokes
é uma das atrações internacionais mais aguardadas
do calendário de shows no Brasil este ano. Em outubro, ela
fará apresentações em São Paulo, Rio
de Janeiro e Porto Alegre. Formado em Nova York no fim dos anos
90, o Strokes é a cara de uma tendência em alta: o
novo rock de garagem. São bandas que, assim como fizeram
Nirvana e companhia nos anos 90, recuperam aquele espírito
meio transgressor e despojado que de tempos em tempos emerge na
cena roqueira. Depois de um período de predomínio
do pop e da música eletrônica, elas recolocaram as
guitarras na ordem do dia. Ao lado do Strokes, o grupo mais bem-sucedido
do ramo é o White Stripes, dupla de Detroit que recentemente
divulgou seu novo disco no Brasil, numa passagem ruidosa pela Amazônia.
Lançado em junho, o CD Get Behind Me Satan entrou
direto no terceiro lugar das paradas americanas. O novo rock tem
outros expoentes. De tão caipira, o Kings of Leon é
uma banda que quase faz "rock de celeiro". Mas seus quatro integrantes,
todos da mesma família, saíram do interior americano
para tornar-se a banda de abertura de uma turnê do U2. Também
novatos, os Killers, de Las Vegas, venderam 2 milhões de
cópias de seu álbum de estréia tanto
quanto Mariah Carey obteve com seu último trabalho. A tendência
é engrossada ainda pelos americanos Bravery, Interpol e Yeah
Yeah Yeahs, pelo escocês Franz Ferdinand e pelo anglo-americano
The Kills que, aliás, também deverá
se apresentar em São Paulo, no começo de agosto.
Se há uma diferença
entre os roqueiros de garagem atuais e seus congêneres do
passado, é que se trata de uma geração que
já chega à cena sem ingenuidade. Os artistas primam
pela autoconsciência musical e comercial. Nenhum deles
tem a pretensão de reinventar o rock do zero. Pelo contrário:
são bandas com evidente apelo retrô, embora muitas
prefiram a morte a confessar suas fontes de inspiração
(veja
quadro). Algumas as melhores, obviamente
fazem releituras fortes da "tradição". É o
caso do White Stripes, que bebe do blues e da música country
de maneira excêntrica: os arranjos são minimalistas,
despidos de outros instrumentos que não bateria e a guitarra
pesada de Jack White. Outros grupos em especial aqueles que
se apegam à herança dos anos 80 lidam pior
com a angústia da influência. O Interpol é cópia
escarrada dos ingleses do Joy Division. Entre o Bravery e o Killers,
o páreo da falta de originalidade é duro mas
esse último pelo menos tem o mérito de ter feito sua
xerox do The Cure antes do concorrente.
Não é só
na música que se nota a falta de inocência das novas
bandas de garagem. Todas têm uma clara noção
de como o rock se mistura com a moda, por exemplo. O Franz Ferdinand
e o Strokes são casos emblemáticos. Os primeiros sobem
ao palco com ternos de corte imaculado, e os segundos são
mauricinhos que usam roupas cuidadosamente desarrumadas. Àqueles
que por acaso falte o necessário senso de estilo, as gravadoras
o providenciam. Como observou o crítico musical Alexis Petridis,
do jornal inglês The Guardian, qualquer banda de rock
de hoje em dia passa pela mesma preparação de uma
boy band os grupelhos fabricados pelas gravadoras
para fisgar as adolescentes. Os artistas contam com consultores
de imagem e aprendem a se portar nas entrevistas. Os matutos do
Kings of Leon, por exemplo, deixaram para trás recentemente
o visual ensebado e passaram a usar calças justíssimas
e cabelos escovados. Até editoriais de moda já andaram
fazendo.
Esse jogo com o marketing é
calculado mas tem seus perigos. É legítimo
especular sobre a persistência dessas bandas, talentosas na
maioria dos casos, mas que se entregam de boa vontade aos caprichos
de uma indústria musical afeita, por sua própria natureza,
a buscar uma novidade a cada dez minutos. Grupos como o White Stripes
e o The Kills dão mostras de ter fôlego, mas não
seria surpresa se o Bravery ou o The Killers sucumbissem na próxima
estação.
É curioso traçar
um paralelo entre o fã do novo rock e o pessoal que cultuava
as bandas "descoladas" de períodos como os anos 80. Naquela
época, não havia um canal como a MTV nem internet
e era complicado importar discos. Por isso, ouvir esse tipo de música
exigia garimpagem os fãs extraíam prazer da
sensação de pertencer à "elite" que tinha acesso
a esses artistas. Hoje, tudo ficou mais fácil. No fundo,
porém, a motivação é a mesma. Uma parcela
dos apreciadores dessas bandas, aliás, é de trintões
que viveram os anos 80 e encontram nas influências nostálgicas
dos novos roqueiros uma forma de resgatar a adolescência perdida.
Mas os adolescentes de hoje também buscam nelas o mesmo tipo
de consolo: a ilusão de pertencer a um grupo especial de
pessoas, que só ouve rock "esclarecido". Nem que seja feito
em laboratório.
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