Edição 1915 . 27 de julho de 2005

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Música
Para entender o novo rock

As raízes musicais e as ambições dos
grupos mais badalados da atualidade


Sérgio Martins

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Rock de garagem versão século XXI

A banda americana The Strokes é uma das atrações internacionais mais aguardadas do calendário de shows no Brasil este ano. Em outubro, ela fará apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Formado em Nova York no fim dos anos 90, o Strokes é a cara de uma tendência em alta: o novo rock de garagem. São bandas que, assim como fizeram Nirvana e companhia nos anos 90, recuperam aquele espírito meio transgressor e despojado que de tempos em tempos emerge na cena roqueira. Depois de um período de predomínio do pop e da música eletrônica, elas recolocaram as guitarras na ordem do dia. Ao lado do Strokes, o grupo mais bem-sucedido do ramo é o White Stripes, dupla de Detroit que recentemente divulgou seu novo disco no Brasil, numa passagem ruidosa pela Amazônia. Lançado em junho, o CD Get Behind Me Satan entrou direto no terceiro lugar das paradas americanas. O novo rock tem outros expoentes. De tão caipira, o Kings of Leon é uma banda que quase faz "rock de celeiro". Mas seus quatro integrantes, todos da mesma família, saíram do interior americano para tornar-se a banda de abertura de uma turnê do U2. Também novatos, os Killers, de Las Vegas, venderam 2 milhões de cópias de seu álbum de estréia – tanto quanto Mariah Carey obteve com seu último trabalho. A tendência é engrossada ainda pelos americanos Bravery, Interpol e Yeah Yeah Yeahs, pelo escocês Franz Ferdinand e pelo anglo-americano The Kills – que, aliás, também deverá se apresentar em São Paulo, no começo de agosto.

Se há uma diferença entre os roqueiros de garagem atuais e seus congêneres do passado, é que se trata de uma geração que já chega à cena sem ingenuidade. Os artistas primam pela autoconsciência – musical e comercial. Nenhum deles tem a pretensão de reinventar o rock do zero. Pelo contrário: são bandas com evidente apelo retrô, embora muitas prefiram a morte a confessar suas fontes de inspiração (veja quadro). Algumas – as melhores, obviamente – fazem releituras fortes da "tradição". É o caso do White Stripes, que bebe do blues e da música country de maneira excêntrica: os arranjos são minimalistas, despidos de outros instrumentos que não bateria e a guitarra pesada de Jack White. Outros grupos – em especial aqueles que se apegam à herança dos anos 80 – lidam pior com a angústia da influência. O Interpol é cópia escarrada dos ingleses do Joy Division. Entre o Bravery e o Killers, o páreo da falta de originalidade é duro – mas esse último pelo menos tem o mérito de ter feito sua xerox do The Cure antes do concorrente.

Não é só na música que se nota a falta de inocência das novas bandas de garagem. Todas têm uma clara noção de como o rock se mistura com a moda, por exemplo. O Franz Ferdinand e o Strokes são casos emblemáticos. Os primeiros sobem ao palco com ternos de corte imaculado, e os segundos são mauricinhos que usam roupas cuidadosamente desarrumadas. Àqueles que por acaso falte o necessário senso de estilo, as gravadoras o providenciam. Como observou o crítico musical Alexis Petridis, do jornal inglês The Guardian, qualquer banda de rock de hoje em dia passa pela mesma preparação de uma boy band – os grupelhos fabricados pelas gravadoras para fisgar as adolescentes. Os artistas contam com consultores de imagem e aprendem a se portar nas entrevistas. Os matutos do Kings of Leon, por exemplo, deixaram para trás recentemente o visual ensebado e passaram a usar calças justíssimas e cabelos escovados. Até editoriais de moda já andaram fazendo.

Esse jogo com o marketing é calculado – mas tem seus perigos. É legítimo especular sobre a persistência dessas bandas, talentosas na maioria dos casos, mas que se entregam de boa vontade aos caprichos de uma indústria musical afeita, por sua própria natureza, a buscar uma novidade a cada dez minutos. Grupos como o White Stripes e o The Kills dão mostras de ter fôlego, mas não seria surpresa se o Bravery ou o The Killers sucumbissem na próxima estação.

É curioso traçar um paralelo entre o fã do novo rock e o pessoal que cultuava as bandas "descoladas" de períodos como os anos 80. Naquela época, não havia um canal como a MTV nem internet e era complicado importar discos. Por isso, ouvir esse tipo de música exigia garimpagem – os fãs extraíam prazer da sensação de pertencer à "elite" que tinha acesso a esses artistas. Hoje, tudo ficou mais fácil. No fundo, porém, a motivação é a mesma. Uma parcela dos apreciadores dessas bandas, aliás, é de trintões que viveram os anos 80 e encontram nas influências nostálgicas dos novos roqueiros uma forma de resgatar a adolescência perdida. Mas os adolescentes de hoje também buscam nelas o mesmo tipo de consolo: a ilusão de pertencer a um grupo especial de pessoas, que só ouve rock "esclarecido". Nem que seja feito em laboratório.

 

 
 
 
 
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