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Religião
Crença de outra galáxia
Criada por um autor de ficção científica
e auto-ajuda, a Igreja da Cientologia é
a fé das celebridades

Tania Menai, de Los Angeles
Imagine se o cineasta George Lucas criasse
uma religião com preceitos tão mirabolantes quanto
o enredo da série Guerra nas Estrelas. Ou se um guru
de auto-ajuda inventasse uma seita em que seus best-sellers seriam
elevados a escrituras sagradas. Imagine ainda uma junção
dessas duas coisas. Pois algo bem parecido existe: a Igreja da Cientologia,
crença que conquistou celebridades como os atores Tom Cruise,
John Travolta e Juliette Lewis, o cantor de soul Isaac Hayes e Lisa
Marie Presley, filha de Elvis. A cientologia foi fundada nos anos
50 pelo americano L. Ron Hubbard, autor de livros baratos de ficção
científica e de obras de aconselhamento que alardeiam os
poderes da mente. Morto em 1986, ele pregava que o homem é
um ser imortal com capacidades espirituais ilimitadas, mas precisa
"limpar" sua mente dos traumas que viveu nesta e em outras encarnações
para desenvolvê-la. A cientologia admite que seus adeptos
também sigam outras fés. Seu grande inimigo está
em outro campo: são as idéias de Sigmund Freud e da
psiquiatria moderna. Ela condena, por exemplo, o uso de remédios
como os antidepressivos. Volta e meia, a religião entra na
mira da imprensa e das autoridades americanas. Já foi acusada
de fazer lavagem cerebral e explorar os fiéis. Mas a igreja
conta com defensores em pontos tão estratégicos quanto
o mercado financeiro e o governo americano. Além, é
claro, de ter garotos-propaganda como Cruise. "A cientologia mostra
como mudar uma sociedade na qual as pessoas são ensinadas
a odiar", disse o ator a VEJA numa entrevista precedida por um tour
de cinco horas pela sede mundial da seita, em Hollywood.
A cientologia tem 8 milhões
de seguidores em 150 países, segundo seus líderes
há quem estime, contudo, que o número não
passa de 100.000. A maioria dos adeptos está nos Estados
Unidos, mas a igreja vem crescendo internacionalmente. Isso é
visível em eventos como a inauguração de sua
nova sede na Espanha, no ano passado, num grande edifício
de Madri. Ou nos 137 centros de recuperação de dependentes
de drogas que a igreja mantém em 37 países
inclusive na periferia de São Paulo, seu principal ponto
de referência no Brasil. "A cientologia tem pouco mais de
cinqüenta anos e não pára de crescer. Por isso
é atacada", diz Lee Anne DeVette, irmã mais velha
e relações-públicas de Tom Cruise.
Fred Prouser/Reuters
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Jim Ruymen/Reuters
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| Cruise com a irmã (à
esq.) e Travolta (à dir.): base da igreja
é em Hollywood |
O ator descobriu a igreja no começo
da carreira. Diagnosticado como disléxico na infância,
ele diz ter encontrado nela uma forma de superar o trauma. "É
errado rotular crianças com qualquer doença psicológica",
diz ele. Nos últimos tempos, Cruise tem pautado suas aparições
públicas pelo esforço de divulgar a cientologia
e levar adiante seus ataques sistemáticos a Freud e à
indústria farmacêutica. Já discutiu por causa
dela com dois repórteres da revista alemã Der Spiegel
e com o apresentador americano Matt Lauer. Numa entrevista,
condenou a atriz Brooke Shields por ter usado antidepressivos para
tratar da depressão pós-parto (ela deveria ter se
tratado à base de exercícios e vitaminas, sugeriu).
Recentemente, Cruise voltou à carga numa entrevista à
revista Entertainment Weekly. Sobre os livros de cientologia
se referirem à psiquiatria como uma "ciência nazista",
saiu-se com esta: "Basta olhar a história. Jung (teórico
da psicologia) foi editor de um jornal nazista durante a II
Guerra Mundial". A revista consultou um especialista na obra junguiana,
Aryeh Maidenbaum, que qualificou de absurda a afirmação.
A associação entre a psicologia e o nazismo tem mesmo
alto teor de ridículo. Freud, afinal, era judeu e teve de
fugir da Áustria para não cair nas mãos dos
seguidores de Hitler. Outro que já disse e fez bobagens por
causa de sua crença é John Travolta. Cinco anos atrás,
ele protagonizou A Reconquista, um dos filmes mais deprimentes
de todos os tempos. Ficção científica sobre
ETs que escravizam os humanos, ele se baseia nas idéias da
religião.
Alcir N. da Silva
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| Teste do eletropsicômetro: fisgado,
o fiel gasta uma fortuna em cursos |
Lee Anne ciceroneia pessoalmente
os jornalistas que visitam o Celebrity Centre International
o centro que ocupa um palacete que nos anos 30 foi um hotel que
abrigava estrelas de Hollywood. "Nossa intenção é
mostrar a verdade sobre a cientologia, já que a imprensa
mundial tem nos interpretado mal", diz ela. Lá, os convidados
têm de assistir a um DVD contendo um discurso do principal
líder da seita, David Miscavige. Miscavige fala da importância
das ações da igreja na educação, filantropia
e direitos humanos. Discorre ainda sobre seu trabalho com presidiários
e suas guerras contra a indústria farmacêutica e as
drogas. A excursão pela sede da igreja inclui refeições
agradáveis e conversas idem com seus ministros. A
certa altura, o jornalista é convidado a avaliar seu nível
de stress. Ao fim do teste, um voluntário de plantão
pergunta se a pessoa deseja "se abrir" sobre seus problemas.
A cientologia ostenta uma cruz
como símbolo, mas esta nada tem a ver com o ícone
cristão. Sua versão do mito da criação
também destoa das que foram consagradas pelas religiões
tradicionais ela faz jus, e como, à imaginação
de autor de ficção científica de Hubbard (veja
quadro). Resumidamente (a história tem detalhes
obscuros, guardados como "revelações" pela igreja),
cada pessoa abrigaria em seu corpo uma espécie de conglomerado
de espíritos alienígenas parte de uma população
de bilhões deles que teriam sido transportados para a Terra
75 milhões de anos atrás, a mando de um líder
intergaláctico maligno, Xenu. Essas entidades, que Hubbard
batizou de "thetans", teriam perdido consciência de sua imortalidade
ao ganhar um invólucro indesejado o corpo. A cientologia
prega que só por meio do aperfeiçoamento oferecido
pela religião se podem retirar as travas que impedem a evolução
do espírito até sua plenitude quando seria
possível ter controle absoluto sobre a mente.
Hubbard afirmava que tudo o que
ocorre de ruim na vida das pessoas fica arquivado naquilo que ele
denominou de mente reativa. Para a cientologia, essa é a
fonte de problemas como stress, ansiedade, depressão, agressividade
e pessimismo. Uma das maneiras de a religião ganhar adeptos
é o uso do eletropsicômetro, ou e-meter, aparelho que
mede o stress com base numa tecnologia também usada em detectores
de mentiras. O usuário segura duas barras de ferro ligadas
ao aparelho. Em tese, o ponteiro do e-meter vai para a direita ao
detectar pensamentos estressantes. Caso contrário, vai para
a esquerda. O teste é aplicado diariamente em passantes desavisados
em lugares como a estação de metrô de Times
Square, em Nova York. Uma vez fisgados, os fiéis têm
de vencer uma série de etapas de aperfeiçoamento
a primeira é a desintoxicação química
do corpo. Ocorre que os métodos da cientologia são
patenteados como se fossem segredos industriais. Para evoluir, o
fiel tem de fazer mais e mais cursos que chegam a custar milhares
de dólares. A igreja ameaça com processos quem divulga
o conteúdo desses cursos. E avisa que conhecer essas "revelações"
de forma inadequada pode levar os incautos à morte por pneumonia.
Melhor ficar longe.
Proliferam histórias de
gente que teve de vender a própria casa para satisfazer sua
necessidade de freqüentar os cursos da seita. Registram-se
episódios trágicos, como o do jovem americano Noah
Lottick, que cometeu suicídio aos 24 anos, na década
de 1990. Ele mergulhou do 10º andar de um hotel de Nova York
sobre uma limusine, tendo nas mãos 171 dólares
toda a quantia que lhe restou depois de doar sua conta bancária
à igreja. A seita é acusada de falsear dados para
se promover. Os cientologistas afirmam que Dianética,
um manual de auto-ajuda de Hubbard, foi best-seller durante
quatro décadas. Há indícios, porém,
de que a própria igreja comprava a obra em grandes quantidades
para mantê-la nas listas dos mais vendidos. Descrito como
um homem brilhante e iluminado, Hubbard na verdade obteve um diploma
falso de doutorado e teria concebido parte de suas teorias sob o
efeito de drogas e álcool. Depois de sua morte, ele foi submetido
a uma autópsia. Havia uma alta dose de calmante em seu sangue.
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No
princípio, éramos ETs
O mito da criação
segundo o fundador da Igreja da Cientologia, o guru
americano L. Ron Hubbard (1911-1986).
Há 75 milhões
de anos, dezenas de planetas se reuniam numa espécie
de "confederação das galáxias",
governada por um líder maligno, Xenu.
Para sanar o problema
do superpovoamento nesses planetas, Xenu teria segregado
bilhões de seus habitantes na Terra. Eles foram
mortos com bombas de hidrogênio e seus espíritos
os "thetans" passaram a vagar pelo planeta.
Depois disso, os
thetans foram submetidos a um processo que os tornou
inaptos a tomar decisões. Cada habitante da Terra
atual seria uma reencarnação desses espíritos.
Com seus infindáveis
e caríssimos cursos de aperfeiçoamento,
a cientologia promete aos adeptos a possibilidade de
despertar seus poderes espirituais adormecidos, por
meio da desintoxicação física e
de exercícios mentais.
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