O aquecimento global
já altera um dos principais dogmas do mundo do vinho:
o de que os produtos de qualidade só podem ser produzidos
entre os paralelos 30 e 45. As linhas que cortam o planeta
horizontalmente delimitam duas faixas privilegiadas pelo clima,
uma no Hemisfério Norte e outra no Sul. Nelas ficam
as grandes regiões vinícolas, como Bordeaux,
na França, o Vale do Napa, nos Estados Unidos, e o
Vale do Hunter, na Austrália. Devido às alterações
climáticas, essa predestinação geográfica
está passando por uma lenta mudança que espalha
os vinhedos em direção a áreas mais frias.
Produtores franceses compram terrenos no sul da Inglaterra
e australianos impulsionam a produção na Ilha
da Tasmânia, ao sul. Países frios que eram impróprios
para o cultivo da uva, como Canadá, Dinamarca, Suécia
e Noruega, começam a aparecer no mapa. No Chile, duas
dezenas de produtores estão investindo em regiões
a 4 graus de latitude mais ao sul e em áreas próximas
ao Oceano Pacífico, que sofrem a influência da
gélida corrente marítima de Humboldt. "Para
fazer um vinho fino e elegante, o ideal é estar em
zonas frias, e estas estão cada vez mais difíceis
de encontrar", disse a VEJA o enólogo Adolfo Hurtado,
gerente-geral da Cono Sur, a segunda maior exportadora do
Chile.
O calor em excesso
prejudica a qualidade do vinho ao acelerar o amadurecimento
das uvas, que ficam mais açucaradas, com menos tanino
e menos acidez. A maior quantidade de açúcar
produz, depois da fermentação, um vinho com
teor alcoólico mais alto. No Vale do Napa, o nível
médio de álcool subiu de 12,5% para 14,8% em
trinta anos. A redução da acidez gera um vinho
aguado, e um desequilíbrio na quantidade de taninos
pode deixar a bebida amarga. Aparentemente sutis, essas alterações
podem produzir efeitos marcantes. "A diferença que
a elevação da temperatura causa no sabor é
a mesma que existe entre uma cereja fresca e uma geléia
de cereja", disse a VEJA o geógrafo americano Gregory
Jones, da Universidade Southern Oregon. Um estudo coordenado
por Jones mostrou que, em 27 regiões produtoras de
vinho, o aumento de temperatura deve ser, em média,
de 2 graus até 2049.
Além do
aumento das temperaturas, regiões produtoras tradicionais
podem enfrentar também secas mais intensas e prolongadas.
A alternativa para enfrentá-las seria a irrigação
com o conseqüente aumento de custos, em especial
na Europa. "Água mais cara certamente elevaria muito
o custo do vinho", diz a portuguesa Marta Agoas, enóloga
da vinícola Dão Sul, que tem vinhedos em Portugal
e no Brasil. A empresa está fazendo experimentos para
se adaptar às condições projetadas para
um futuro nada distante. Seus técnicos testam raízes
mais resistentes a secas e uvas que suportam melhor o calor,
como a syrah. Em outros países, produtores trocam a
pinot noir, adaptada a uma temperatura média de 15
graus, pela cabernet sauvignon, que suporta até 19
graus.
Entre as regiões
mais promissoras está a Tasmânia, na Austrália,
país que enfrenta a pior seca dos últimos 100
anos. A produção de vinhos começou na
região na década de 70. Hoje, há 82 vinícolas
na ilha, sendo que a grande maioria delas entrou no mercado
nos últimos dez anos. No sul da Inglaterra, país
não exatamente conhecido como produtor de vinhos, já
existem 23 vinícolas nas proximidades das cidades de
Kent e Sussex. Na Noruega, a produção de vinhos
tem apenas quinze anos. Em um período pouco maior,
o número de vinícolas na Holanda quintuplicou.
As novas fronteiras do vinho não são um resultado
benigno das mudanças climáticas, mas, sim, da
incrível capacidade de adaptação do ser
humano a novas condições. Onde houver terra
para plantar e truques para contornar os obstáculos
da natureza, algo será cultivado. Isso merece um brinde,
nem que seja com chardonnay da Tasmânia.