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27 de junho de 2007
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Economia
O paradoxo da prosperidade

O fracasso das negociações de Doha mostra
como o enriquecimento das nações pode criar
obstáculos à integração comercial


Julia Duailibi

Sergio Moraes/Reuters
A negociadora americana Susan Schwab e o ministro Celso Amorim: bom humor antes do malogro

O comércio é o principal motor da atual fase de prosperidade da economia mundial. A gigante China absorve uma porção significativa do que o mundo produz e devolve milhões de toneladas de produtos fabricados a custo baixo. Há mais ganhadores que perdedores nesse jogo. Prova disso é que o mundo vive atualmente o momento de maior exuberância econômica dos últimos trinta anos. Em 2006, o crescimento global foi de 5,4%, puxado pela expansão dos países emergentes, que chegou a 7,9%. Com mais crescimento, avançam a demanda por bens e serviços e a competitividade. Os preços caem. Foi assim que o Brasil conseguiu controlar a inflação e reverter a crise de 2002. Nesse contexto, seria óbvio que todos os países estivessem dispostos a acelerar o processo de liberalização comercial. Mas essa não é a realidade. Na semana passada, o chamado G4, grupo formado por Brasil, Índia, Estados Unidos e União Européia, foi incapaz de destravar a chamada Rodada Doha, o ciclo de negociações comerciais iniciado em 2001, em Doha, no Catar, para avançar, principalmente, na liberação do comércio de produtos agrícolas.

Com o malogro, a Rodada Doha, que já estava na UTI, segue para o crematório, encalacrada em um beco no qual não se vê, ao menos no momento, nenhuma saída possível. Embora não exista prazo para o fim das negociações, é improvável que elas sejam retomadas antes da posse do futuro presidente americano, em 2009. A reunião da semana passada, na cidade alemã de Potsdam, terminou em meio a um cerrado tiroteio verbal. Brasil e Índia abandonaram as conversas dois dias antes do previsto, alegando que as propostas dos americanos e europeus eram tão insuficientes que beiravam o escárnio. A resposta foi dura. O presidente americano George W. Bush acusou os dois países de negligenciar os interesses de outros emergentes – Brasil e Índia atuaram com representantes de um bloco de vinte países em desenvolvimento, para os quais as questões agrícolas são as preponderantes.

É péssima notícia para o Brasil. Desde 2003, os donos da política externa brasileira rejeitam sistematicamente quaisquer outros projetos de acordos comerciais relevantes na esperança de que Doha obrigasse os países ricos a derrubar suas barreiras comerciais. Entre os acordos enterrados pela estratégia petista estão a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e o acordo entre o Mercosul e a União Européia. Nos últimos dez anos, o México optou pelo pragmatismo e fechou 44 acordos bilaterais de livre-comércio, com os Estados Unidos, a União Européia e o Japão, entre outros. Agora, os negociadores brasileiros acenam afobadamente com acordos bilaterais. Terão de suar para recuperar o terreno perdido. Comparado ao Brasil, o México tem o dobro de participação no comércio mundial (veja quadro abaixo).

Segundo o diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador nos Estados Unidos, a estratégia de negociação do Brasil agora vai ter de mudar: "Devido a questões ideológicas, políticas e a limites do próprio Mercosul, o Brasil ficou parado". Isso significa que, embora o comércio tenha crescido de maneira avassaladora na última década, o Brasil tirou proveito pela metade dessa bonança. Corre, agora, o risco de ficar de fora da festa. Como destaca o economista Niall Ferguson na entrevista ao lado, os sentimentos protecionistas estão em alta no mundo. Isso ocorre porque, se de um lado a globalização favorece a maioria, ela também traz perdedores que tendem a se organizar em lobbies mais barulhentos. Existe ainda uma acirrada disputa por recursos naturais, que pode descambar para medidas protecionistas e até mesmo conflitos armados. Foi o que levou à I Guerra Mundial e interrompeu um período de globalização capaz de rivalizar com o atual. A história, portanto, ensina um perigoso paradoxo: a abertura comercial ajuda as nações a prosperar, mas a prosperidade das nações não é garantia de que a abertura se amplie nem sequer de que se mantenha.

 

AS NUVENS SOBRE A GLOBALIZAÇÃO

A integração econômica dos países não é um processo inexorável, mas uma tendência que pode ser revertida em períodos de conflitos militares, por exemplo. Essa é a opinião do historiador escocês Niall Ferguson, entrevistado pelo editor Diogo Schelp. Ferguson é autor de A Lógica do Dinheiro, que acaba de ser lançado no país.

Em A Lógica do Dinheiro, o senhor diz que há um risco de a globalização entrar em declínio. Por quê? A globalização é um fenômeno mais frágil do que se imagina. Períodos de conflitos mundiais intensos como a I Guerra Mundial, em 1914, que provocou uma onda protecionista, são mortais para a integração econômica. Estamos num momento igualmente delicado, principalmente no Oriente Médio, onde o potencial de violência é o maior desde o final da II Guerra.

Que outros fatores são capazes de interromper o processo de integração da economia mundial? As crescentes rivalidades entre China e Estados Unidos, ou entre Rússia e União Européia, de certa maneira, assemelham-se ao período pré-1914. A I Guerra foi antecedida por uma intensa disputa pela África envolvendo os países europeus. Algo parecido poderia acontecer hoje, tendo como foco a competição por recursos naturais entre a China e as principais economias do mundo.

O fato de os países estarem mais integrados não evita esse tipo de disputa? A globalização, ao mesmo tempo em que acentua a integração econômica, pode também aumentar a desintegração no campo político, pois a concorrência entre estados é intensificada.

Como o "choque de civilizações" entre o Ocidente e o Islã afeta a globalização? Nos últimos quinze anos, apenas uma minoria dos conflitos que ocorreram no mundo opunha o Islã ao Ocidente. A maioria aconteceu dentro das próprias civilizações. Quem mais mata muçulmanos são outros muçulmanos. É mais preocupante a desintegração interna das civilizações do que o choque entre elas.

Qual é a possibilidade de os Estados Unidos e a China entrarem em choque pela liderança econômica? Dá-se como certo que todas as grandes potências acabam entrando em conflito em algum ponto da história e que uma nação em ascensão, mais cedo ou mais tarde, torna-se uma ameaça à superpotência reinante. Não é sempre assim. Quando os Estados Unidos se tornaram uma grande potência, no fim do século XIX e início do século XX, isso poderia ter representado uma ameaça ao poder do Reino Unido. A verdade, no entanto, é que os dois países, historicamente, colaboraram entre si. Há muito mais cooperação do que competição entre Estados Unidos e China. As relações sino-americanas, hoje em dia, são marcadas pela simbiose. Mas isso não deve durar para sempre. Há diversos motivos para os dois países discordarem entre si, particularmente na questão do equilíbrio militar na Ásia.

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