O fracasso das negociações
de Doha mostra
como o enriquecimento das nações pode criar
obstáculos à integração comercial
Julia Duailibi
Sergio Moraes/Reuters
A negociadora americana Susan
Schwab e o ministro Celso Amorim: bom humor antes do malogro
O comércio é o
principal motor da atual fase de prosperidade da economia
mundial. A gigante China absorve uma porção
significativa do que o mundo produz e devolve milhões
de toneladas de produtos fabricados a custo baixo. Há
mais ganhadores que perdedores nesse jogo. Prova disso é
que o mundo vive atualmente o momento de maior exuberância
econômica dos últimos trinta anos. Em 2006, o
crescimento global foi de 5,4%, puxado pela expansão
dos países emergentes, que chegou a 7,9%. Com mais
crescimento, avançam a demanda por bens e serviços
e a competitividade. Os preços caem. Foi assim que
o Brasil conseguiu controlar a inflação e reverter
a crise de 2002. Nesse contexto, seria óbvio que todos
os países estivessem dispostos a acelerar o processo
de liberalização comercial. Mas essa não
é a realidade. Na semana passada, o chamado G4, grupo
formado por Brasil, Índia, Estados Unidos e União
Européia, foi incapaz de destravar a chamada Rodada
Doha, o ciclo de negociações comerciais iniciado
em 2001, em Doha, no Catar, para avançar, principalmente,
na liberação do comércio de produtos
agrícolas.
Com o malogro, a Rodada Doha,
que já estava na UTI, segue para o crematório,
encalacrada em um beco no qual não se vê, ao
menos no momento, nenhuma saída possível. Embora
não exista prazo para o fim das negociações,
é improvável que elas sejam retomadas antes
da posse do futuro presidente americano, em 2009. A reunião
da semana passada, na cidade alemã de Potsdam, terminou
em meio a um cerrado tiroteio verbal. Brasil e Índia
abandonaram as conversas dois dias antes do previsto, alegando
que as propostas dos americanos e europeus eram tão
insuficientes que beiravam o escárnio. A resposta foi
dura. O presidente americano George W. Bush acusou os dois
países de negligenciar os interesses de outros emergentes
Brasil e Índia atuaram com representantes de
um bloco de vinte países em desenvolvimento, para os
quais as questões agrícolas são as preponderantes.
É péssima notícia
para o Brasil. Desde 2003, os donos da política externa
brasileira rejeitam sistematicamente quaisquer outros projetos
de acordos comerciais relevantes na esperança de que
Doha obrigasse os países ricos a derrubar suas barreiras
comerciais. Entre os acordos enterrados pela estratégia
petista estão a Área de Livre Comércio
das Américas (Alca) e o acordo entre o Mercosul e a
União Européia. Nos últimos dez anos,
o México optou pelo pragmatismo e fechou 44 acordos
bilaterais de livre-comércio, com os Estados Unidos,
a União Européia e o Japão, entre outros.
Agora, os negociadores brasileiros acenam afobadamente com
acordos bilaterais. Terão de suar para recuperar o
terreno perdido. Comparado ao Brasil, o México tem
o dobro de participação no comércio mundial
(veja quadro abaixo).
Segundo o diplomata Rubens Barbosa,
ex-embaixador nos Estados Unidos, a estratégia de negociação
do Brasil agora vai ter de mudar: "Devido a questões
ideológicas, políticas e a limites do próprio
Mercosul, o Brasil ficou parado". Isso significa que,
embora o comércio tenha crescido de maneira avassaladora
na última década, o Brasil tirou proveito pela
metade dessa bonança. Corre, agora, o risco de ficar
de fora da festa. Como destaca o economista Niall Ferguson
na entrevista ao lado, os sentimentos protecionistas estão
em alta no mundo. Isso ocorre porque, se de um lado a globalização
favorece a maioria, ela também traz perdedores que
tendem a se organizar em lobbies mais barulhentos. Existe
ainda uma acirrada disputa por recursos naturais, que pode
descambar para medidas protecionistas e até mesmo conflitos
armados. Foi o que levou à I Guerra Mundial e interrompeu
um período de globalização capaz de rivalizar
com o atual. A história, portanto, ensina um perigoso
paradoxo: a abertura comercial ajuda as nações
a prosperar, mas a prosperidade das nações não
é garantia de que a abertura se amplie nem sequer de
que se mantenha.
AS NUVENS SOBRE A GLOBALIZAÇÃO
A integração
econômica dos países não é
um processo inexorável, mas uma tendência
que pode ser revertida em períodos de conflitos
militares, por exemplo. Essa é a opinião
do historiador escocês Niall Ferguson, entrevistado
pelo editor Diogo Schelp. Ferguson é autor de
A Lógica do Dinheiro, que acaba de ser lançado
no país.
Em A Lógica do
Dinheiro, o senhor diz que há um risco de
a globalização entrar em declínio.
Por quê? A globalização é
um fenômeno mais frágil do que se imagina.
Períodos de conflitos mundiais intensos como
a I Guerra Mundial, em 1914, que provocou uma onda protecionista,
são mortais para a integração econômica.
Estamos num momento igualmente delicado, principalmente
no Oriente Médio, onde o potencial de violência
é o maior desde o final da II Guerra.
Que outros fatores são
capazes de interromper o processo de integração
da economia mundial? As crescentes rivalidades entre
China e Estados Unidos, ou entre Rússia e União
Européia, de certa maneira, assemelham-se ao
período pré-1914. A I Guerra foi antecedida
por uma intensa disputa pela África envolvendo
os países europeus. Algo parecido poderia acontecer
hoje, tendo como foco a competição por
recursos naturais entre a China e as principais economias
do mundo.
O fato de os países
estarem mais integrados não evita esse tipo de
disputa? A globalização, ao mesmo tempo
em que acentua a integração econômica,
pode também aumentar a desintegração
no campo político, pois a concorrência
entre estados é intensificada.
Como o "choque de
civilizações" entre o Ocidente e
o Islã afeta a globalização? Nos
últimos quinze anos, apenas uma minoria dos conflitos
que ocorreram no mundo opunha o Islã ao Ocidente.
A maioria aconteceu dentro das próprias civilizações.
Quem mais mata muçulmanos são outros muçulmanos.
É mais preocupante a desintegração
interna das civilizações do que o choque
entre elas.
Qual é a possibilidade
de os Estados Unidos e a China entrarem em choque pela
liderança econômica? Dá-se como
certo que todas as grandes potências acabam entrando
em conflito em algum ponto da história e que
uma nação em ascensão, mais cedo
ou mais tarde, torna-se uma ameaça à superpotência
reinante. Não é sempre assim. Quando os
Estados Unidos se tornaram uma grande potência,
no fim do século XIX e início do século
XX, isso poderia ter representado uma ameaça
ao poder do Reino Unido. A verdade, no entanto, é
que os dois países, historicamente, colaboraram
entre si. Há muito mais cooperação
do que competição entre Estados Unidos
e China. As relações sino-americanas,
hoje em dia, são marcadas pela simbiose. Mas
isso não deve durar para sempre. Há diversos
motivos para os dois países discordarem entre
si, particularmente na questão do equilíbrio
militar na Ásia.