|
Entrevista:
Geraldo Alckmin
"O Senado falhou"
O ex-governador diz
que os senadores estão
sendo lenientes no caso Renangate e conta como
prepara sua volta ao debate político nacional

Fábio Portela
|
Lailson Santos

|
"Não é
só o país que precisa
de uma oposição forte.
O próprio governo só se
legitima no embate com
uma oposição legítima" |
Depois
de perder a eleição para o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva no ano passado, o tucano Geraldo Alckmin submergiu.
Com a mulher, Lu, passou cinco meses estudando na Universidade
Harvard, nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, com 54 anos
e os poucos cabelos já esbranquiçados, ele retomou
sua vida. Desde os 20 anos, Alckmin sempre ocupou cargos eletivos.
É a primeira vez que fica sem mandato. Como se recusou
a receber aposentadoria das funções que exerceu,
precisa dar aulas e palestras para se manter. Nessa fase,
conta com o auxílio da filha Sophia, que organiza sua
agenda e prepara suas apresentações no computador.
O ex-governador paulista cultiva duas ambições:
fortalecer o PSDB como oposição e voltar a estudar
medicina. Alckmin, que é médico anestesista,
decidiu estudar acupuntura. "Leio compêndios de medicina
chinesa há algum tempo. Até já dou minhas
agulhadas", disse a VEJA. Quem se submete às suas experiências?
"Lu é a minha paciente-cobaia preferencial."
Veja O
PSDB está indo bem como oposição?
Alckmin Não
é fácil ser oposição no Brasil.
O PSDB está se esforçando, mas tem de falar
mais, cobrar, apontar os erros do governo. É vital
neste momento ser mais firme e aguerrido. Essa não
é uma tarefa dos governadores do PSDB. Governador tem
de governar. Fazer oposição é tarefa
do partido e dos parlamentares. Essa crítica vale para
todos nós, para mim também. Não é
só o país que precisa de uma oposição
forte. O próprio governo só se legitima no embate
com uma oposição legítima.
Veja Como
será sua reentrada no debate político nacional?
Alckmin
Pretendo ajudar a recompor a verdade no debate político.
O governo Lula se apropriou de uma série de conquistas
que foram do presidente Fernando Henrique. O PT votou contra
o Real, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, contra o
Fundef (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental).
O PT votou contra a maioria dos projetos que estão
dando frutos para o Brasil. É preciso mostrar isso.
Lula está sentado sobre os louros da estabilidade,
que são do Fernando Henrique. E o governo está
parado. O Brasil está marcando passo. O governo perdeu
metade deste ano e não fez nada.
Veja O
Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC,
não conta?
Alckmin O PAC é
a anti-reforma. O que ele faz pelas reformas estruturais?
Nada. O PAC lista obras que já existiam e outras que
eles pretendem iniciar. Ótimo, mas não vai resolver
o problema do país. Lula dispõe de uma equipe
enorme, mas não tem projeto. Estamos em junho e o governo
ainda nem acabou de ser formado. Foi nomeado agora o 37º
ministro. Atenção: são 37 ministros.
Já imaginou fazer uma reunião com toda essa
gente? Acho que nem o presidente sabe o nome de todos eles.
Veja O
governo acaba de criar 626 cargos de confiança. Como
o senhor analisa a medida?
Alckmin É
uma barbaridade. Já há 21 500 cargos comissionados.
Além disso, houve reajustes salariais que chegam a
139% para os cargos de confiança. Sem nenhuma vergonha,
o tesoureiro do PT disse que isso ajudará a resolver
o problema do caixa do partido, porque 10% do salário
dos petistas que estão nesses cargos, e eles são
muitos, vai para o caixa do partido. O atual governo não
trabalha para os cidadãos. Trabalha para os governantes.
Cria ministério para atender ao partido tal, divide
órgão público para abrigar companheiros,
inventa diretoria no Banco do Brasil para acomodar acordo
político. Isso não é correto.
Veja Quais
são as conseqüências dessas nomeações?
Alckmin O loteamento
que o PT faz da República tem vários reflexos.
O pior deles é a corrupção. Nenhum governo
está isento de ter casos de corrupção.
Mas hoje, no Brasil, ela se tornou sistêmica. Está
em todo lugar. No campo ético, vivemos um retrocesso.
Estamos voltando ao tempo das cavernas.
Veja O
senhor culpa o governo por isso?
Alckmin É
óbvio. Em todos os escândalos recentes de corrupção,
o cofre atingido é o do Executivo. O dinheiro sai dos
ministérios.
Veja
Mas a Polícia Federal tem combatido a corrupção
e isso tem sido usado como trunfo pelo governo Lula.
Alckmin O próprio
governo poderia dar menos trabalho à Polícia
Federal. Os policiais deveriam estar mais preocupados com
as fronteiras, com o narcotráfico, com o tráfico
de armas. Em vez disso, ficam tomando conta do governo. Há
outra questão: a impunidade. Corrupção
existe em todo lugar do mundo, não é um problema
exclusivo nosso. A diferença é que, aqui, ninguém
é punido.
Veja Como
enfrentar a corrupção e a impunidade?
Alckmin Enquanto
o mau exemplo continuar vindo de cima, não haverá
como enfrentar esses problemas. A exemplaridade na política
tem de ser regra. A política nacional está infestada
de maus exemplos.
Veja No
Senado vemos um esforço desmedido para enterrar a investigação
do caso Renan Calheiros. Esse é um dos maus exemplos
da política brasileira?
Alckmin Não
vou entrar em questões de família. Mas é
óbvio que precisa ser investigada a promiscuidade entre
o público e o privado, que envolve dinheiro, relações
de negócio. O que se percebe nitidamente é que
há um espírito de corpo para não apurar
nada, para encerrar o caso o mais rapidamente possível.
Estamos falando de uma das mais altas instituições
da República. É claro que isso leva a todo o
país essa sensação de impunidade. O Senado
falhou.
Veja No
ano passado, petistas foram presos negociando a compra de
um dossiê fajuto contra o PSDB. Sua campanha martelou
a pergunta "De onde veio o dinheiro?". Já descobriu
a resposta?
Alckmin Até
agora, não. Mas gostaria muito de saber. É o
único dinheiro de que se tem conhecimento que não
tem dono, foi apreendido e ninguém se apresentou para
buscá-lo. Sinal de que não deve ser um dinheiro
muito bom, não é? São coisas assim que
acabam com a política. Nós precisamos tomar
muito cuidado. A democracia tem de ser cultivada diariamente.
Veja
Sua estada em Harvard foi proveitosa?
Alckmin Fiz um curso
muito interessante sobre políticas públicas.
Nele, estudei as relações entre os países,
a economia global, temas ligados à saúde e à
segurança internacional. Também fiz um curso
chamado Leading Cities, que tratou do futuro de grandes metrópoles,
como São Paulo.
Veja O
senhor estudou inglês?
Alckmin Eu já
sabia inglês. Lia bem. Mas você tem dificuldade
para se comunicar se nunca morou fora do país. Lá
fora você é obrigado a falar. No meu curso, éramos
dezessete fellows de catorze países. Eu era
o único brasileiro. Meu inglês melhorou muito
por causa disso.
Veja Como
era a vida fora da sala de aula?
Alckmin Sair do
dia-a-dia da política foi muito bom. Esse período
sabático me ajudou a analisar as coisas com mais clareza.
Passei por um amadurecimento pessoal completo. E, do ponto
de vista familiar, aprendi até a passar roupa.
Veja O
senhor passava suas roupas?
Alckmin Lá
não tem empregada, não é? Por isso, eu
e a Lu dividíamos o serviço. Eu varria a casa
e passava a roupa. Minhas camisas, aliás, ficaram muito
bem passadas. O punho, o colarinho, tudo. A Lu cuidava da
comida. Acabou cozinhando muito bem.
Veja Quais
eram as especialidades dela?
Alckmin Estrogonofe
e macarronada. Uma delícia. O problema é que
ela sempre queria tirar fotos dos pratos e eles acabavam esfriando.
Veja Tirar
fotos para quê?
Alckmin Para provar
aos filhos que ela estava, de fato, cozinhando bem. Se não
tivesse foto, ninguém iria acreditar.
Veja Então
essa temporada também foi boa para o casamento?
Alckmin Foi ótima.
Quando chegamos lá, não conhecíamos ninguém.
Estávamos no meio do inverno, com 18 graus negativos.
Então, deu para namorar tranqüilo. O amor é
uma necessidade. O ser humano precisa de afeto, carinho. Não
há nada melhor do que o amor da esposa, da família
e dos filhos. A única coisa ruim foi ficar longe da
minha neta.
Veja O
senhor e sua mulher não fizeram amigos por lá?
Alckmin Depois
de um tempo, conhecemos muita gente. Em Boston, há
300 000 brasileiros. Havia dias em que eu tirava vinte retratos
nas ruas com eleitores. Nos Estados Unidos, tive 65% dos votos
dos imigrantes brasileiros. Aliás, ganhei do Lula quase
no mundo inteiro.
Veja Faltou
ganhar no Brasil.
Alckmin No Brasil,
ganhei em sete estados.
Veja
O que aconteceu nos outros vinte?
Alckmin Enfrentei
obstáculos muito difíceis. Em primeiro lugar,
o presidente estava no cargo. Fica muito mais fácil
disputar nessa situação. Já fui beneficiado
por esse sistema. Em 2002, era governador e me candidatei
à reeleição. É impressionante
a diferença. Além disso, é inegável
que o Bolsa Família teve um impacto grande. É
só pegar o mapa do Brasil e verificar que, nas regiões
de economia mais fraca, atendidas pelo programa, o Lula venceu.
Veja O
senhor cometeu erros na campanha?
Alckmin Muita gente
diz que falhei ao não defender as privatizações.
Vamos deixar claro: sou totalmente favorável às
privatizações. Sou tão favorável
que, quando era vice do governador Mario Covas, presidi o
Programa de Desestatização de São Paulo.
Também acho que as privatizações feitas
pelo presidente Fernando Henrique foram um sucesso. Veja o
caso das telecomunicações. Hoje, temos 105 milhões
de pessoas que usam telefone celular.
Veja Se
é assim, por que resistiu a defender as privatizações
na campanha?
Alckmin Naquele
momento, o que estava em discussão não era a
privatização, mas a mentira política.
O meu adversário dizia que eu privatizaria a Petrobras
e o Banco do Brasil se ganhasse a eleição. Era
mentira, e eu me coloquei contra a mentira. Disse que a minha
prioridade não seria vender ativos do estado. Só
isso. Mas, de fato, deveria ter explicitado isso melhor. Foi
um problema de comunicação.
Veja
As fotos que o senhor tirou com o ex-governador Anthony
Garotinho no início do segundo turno também
lhe renderam críticas. O senhor se arrepende?
Alckmin Não.
Garotinho me ofereceu apoio no segundo turno, não pediu
nada em troca. Não houve uma aliança. Eu sabia
que haveria exploração, mas falei: "Poxa vida,
vou me negar a tirar uma fotografia? O que isso vai mudar?
Não vai mudar nada". Infelizmente, deu margem a muita
exploração política. Hoje acho que, talvez,
não devesse ter feito isso logo depois de passar para
o segundo turno. Poderia ter esperado um pouco mais.
Veja E
do seu partido, o senhor recebeu todo o apoio que esperava?
Alckmin A solidariedade
na política não é alta. Mas não
vou ficar choramingando. Bola para a frente. E vale frisar:
a maior responsabilidade no processo eleitoral é do
próprio candidato.
Veja O
senhor será candidato a prefeito de São Paulo?
Alckmin É
como diz aquela música do Zeca Pagodinho: "Deixa a
vida me levar". Não excluo a possibilidade. Ser prefeito
de São Paulo não seria um passo atrás
na minha carreira. Mas não pretendo antecipar esse
debate.
Veja Uma
nova candidatura presidencial está descartada?
Alckmin Vejo as
coisas de forma clara. O PSDB tem o privilégio de ter,
pelo menos, dois ótimos candidatos a presidente para
2010: os governadores José Serra e Aécio Neves.
Eles estão muito bem posicionados, têm mais exposição
e melhores condições para se lançar.
Veja Qual
deles é o melhor candidato?
Alckmin O Serra
e o Aécio podem até formar uma chapa conjunta,
o que seria ótimo. Mas essa é uma questão
interna do partido e não há razão para
discuti-la agora. O que precisamos estabelecer já é
um critério para definir quem será o candidato.
Isso legitimará quem for escolhido, unirá o
partido e criará o dever moral de os derrotados participarem
da campanha.
|