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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Claudio de Moura Castro

A orangerie tropical

"Por que será que o país mais rico
do mundo vai às últimas conseqüências
para oferecer conforto com baixo consumo
de energia e nós muito mais pobres, jamais
pensamos nesse assunto?"



Ilustração Ale Setti


Fui visitar um castelo meio desmoronado na Borgonha, comprado por um amigo. Nos jardins, vi duas peças indefectíveis na arquitetura do século XIX, o pombal e a orangerie. Pombos e laranjas eram dois luxos culinários da França. Mas a laranja, nativa de climas tropicais, para ser cultivada em clima frio, exigia um avanço tecnológico para a época: um prédio totalmente envidraçado. Pelas leis da física, o calor radiante atravessa impávido o vidro e aquece o interior. Mas o vidro impede o calor de sair. É justamente o que chamamos de estufa.

Há um edifício totalmente envidraçado em Genebra onde apenas o efeito estufa é suficiente para dispensar totalmente os sistemas de calefação, mesmo quando neva.

A maioria dos nossos arquitetos aplica fielmente esse princípio em nossa casa e nos escritórios. Constroem com vidro, garantindo que a temperatura interior seja bem maior que a externa. Pena que o clima do Brasil seja tropical, e não gélido.

Lidar com clima quente não é proeza recente. Na época medieval, um iraniano rico mandava fazer uma chaminé com uma abertura do lado do vento. Cavava na base um poço vertical, que levava o ar até uma profundidade em que a terra é bem mais fresca. Nesse ponto, sai um longo corredor, onde o vento vai esfriando. Ao chegar à casa, passa pela água borrifada de um chafariz. Com um ventilador elétrico de baixo consumo, os palestinos de hoje arremedam o método, fazendo o ar atravessar uma cortina de água.

Nossos ricos calorentos, moradores de nossas orangeries tupiniquins, mandam instalar ar-condicionado em ambientes cujos coeficientes de isolamento térmico são catastróficos. A parede tem alta absortância, as janelas e as portas são cheias de frestas e não há vidro duplo. O conforto térmico desaparece no momento em que é desligado o compressor.

Lembro-me de reuniões em Brasília em que a opção era um calor hediondo (resultante das paredes de vidro) ou um ruído insuportável, fruto dos aparelhos de ar condicionado instalados nas paredes de vidro, que vibram, amplificando seu barulho.

E os telhados? Pergunte a um engenheiro civil qual o coeficiente térmico do último telhado que construiu. Poderá responder? Quantos construtores alternam superfícies de alta absortância com superfícies de alta refletância? Luis Schmutzler, da Unicamp, mostrou que, adicionando uma camada feita com embalagens descartadas de leite "longa vida", há redução de 9 graus na temperatura do ambiente interno. Não faltam iniciativa e criatividade, mas são esforços individuais, geralmente desdenhados.

O abençoado vento resfria ou torna o calor mais suportável. Mas, para o vento entrar, tem de haver entrada e caminho para sair. Quantas casas são hoje construídas de maneira a assegurar que os cômodos tenham entrada e saída de ar? Não vi nenhuma. Mas as velhas casas brasileiras tinham a chamada bandeira, acima da porta. Quando aberta, permitia a saída do vento que entrava pela janela.

Foram substituídas por casas com teto mais baixo e uma maldita janela de vidro, basculante pela metade, que faz a tripla proeza de deixar o calor radiante entrar, bloquear o vento e defletir para nosso quarto todos os ruídos da rua.

Após a crise do petróleo, as casas americanas ficaram mais eficientes. Comparadas com as do início dos anos 70, as casas de hoje consomem apenas 10% a 20% da energia para ser aquecidas (ou refrigeradas). Qualquer janela ou material de construção à venda têm claramente marcada sua eficiência térmica.

Por que será que o país mais rico do mundo vai às últimas conseqüências para oferecer conforto com baixo consumo de energia e nós, muito mais pobres, jamais pensamos nesse assunto? Aqui, calor se resolve com mais BTUs (unidades de medida de potência) no ar-condicionado – para os que podem tê-lo. Mas não culpemos só os construtores, eles são apenas um lado da equação da nossa sociedade perdulária.

Quem sabe a crise de energia poderia transformar-se em uma bênção para a construção brasileira, obrigando nossos arquitetos e construtores a pensar nas leis da física.

 
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Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)


 
 
   
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