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Roberto Pompeu de Toledo

A França conhece
outro Waterloo

Ei-la empapada daquilo que se
convencionou chamar de "TV lixo".
Até tu, doce França?

Não chega a ser um maio de 68, mas quase. Maio de 2001 abalou as estruturas da França não com passeatas, barricadas, greves, "a imaginação no poder" e "é proibido proibir", mas com algo de potencial explosivo comparável: a telinha de TV. O caso se deu, e se dá ainda, em torno do programa intitulado Loft Story, que estreou em fins de abril e estourou em maio, com recordes de audiência e outro tanto de polêmicas. Trata-se da versão francesa do Big Brother, conforme o título do original que, inventado na Holanda, se espalhou pelo mundo, ou do No Limite levado no Brasil pela Rede Globo.

Na verdade, é um No Limite mais radical: tranca-se um grupo num apartamento e seja o que Deus quiser. No caso, são onze pessoas – seis homens e cinco mulheres. Durante setenta dias eles ficarão ali – claro que vigiados por 26 câmaras e 55 microfones, e claro que até na cama e até no chuveiro. Um processo de eliminação vai selecioná-los até que sobrem dois, um homem e uma mulher. Estes mudarão para outro apartamento, no valor de 400.000 dólares. Caso consigam manter-se ali, trancados, por outros seis meses, ganharão o imóvel.

O programa é apresentado em três versões. A primeira, pelo canal aberto M6, exibe trechos editados. A segunda, por TV a cabo, mostra o grupo o tempo todo, 24 horas por dia. Uma terceira, pela internet, contém as cenas mais fogosas. Uma tempestade de protestos desabou sobre o programa, visto como a chegada à França, em grande estilo, da "télé poubelle", como dizem por lá, ou "garbage TV", como dizem os americanos – a "TV lixo". "O único mérito desse programa é nos fazer refletir sobre as razões que nos fizeram cair tão baixo", disse o vice-ministro para o Ensino Profissional, Jean-Luc Mélenchon. A ministra da Cultura, Catherine Tasca, lamentou o "cinismo" de Loft Story. Mais dramático, Jérôme Clément, diretor do canal de documentários Arte France, viu nele o sintoma de um "fascismo montante" na Europa.

O público, enquanto isso, respondia com entusiasmo. A modesta M6 jamais conheceu picos semelhantes de audiência. De uma média de 5 ou 6 milhões de espectadores, nas primeiras emissões da série, chegou-se a 10,5 milhões às 22h45 da quinta-feira 17 de maio. De repente, a M6 viu-se, nos horários do programa, à frente da TF1, a líder de audiência na França, e seu faturamento publicitário cresceu 64%. Ao canal a cabo que não larga o grupo do apartamento aderiram 100.000 assinantes, que pagam 70 francos, ou 25 reais, por mês. Pela internet, houve em maio 2,3 milhões de acessos ao site respectivo. Em suma, trata-se de uma história de sucesso – e uma história de sucesso que abate e envergonha a França. A França não é, entre todos, o país que mais cultiva, e transmite, a idéia de bom gosto e refinamento, arte e cultura? Pois ei-la afundada na TV lixo como se fosse uma Itália qualquer (para lembrar de Silvio Berlusconi, o magnata que saltou da TV lixo para o poder em Roma), uns meros Estados Unidos, um pobre Brasil.

Bem pesadas as coisas, a tradição da cultura tida como "lixo" é na França tão forte quanto a da, digamos, "alta" cultura. No século XVIII, a filosofia dos iluministas conviveu com uma forte imprensa e uma forte literatura popularescas. Às vezes, ambas as vertentes encarnavam-se na mesma pessoa. O prolífico escritor Nicolas Restif de la Bretonne é considerado, ao mesmo tempo, um agudo crítico da sociedade e um pornógrafo. O Marquês de Sade, outro personagem desse magnífico período da história francesa, é caso parecido. E que dizer, já mais perto de nós, da breguice emplumada do Moulin Rouge ou do Lido, tão identificados com a França quanto Proust e Flaubert?

Não importa. Mais forte é a idéia de uma França empapada de literatura, embriagada de arte, sôfrega de filosofia. Seria, para usar o jargão do momento, o país-cabeça por excelência. Na TV, para corroborar essa idéia, fez sucesso por muitos anos um programa de livros (sim, livros), levado ao ar no horário nobre (sim, horário nobre) pelo apresentador-intelectual Bernard Pivot, uma celebridade no país. Eis que agora a França se empapa com casais que se esfregam no tal apartamento, embriaga-se com a visão da moça que entra no chuveiro, segue, sôfrega, as crises de nervos dos participantes.

Alguns reagem com humor. "Assistir ao Loft é se abandonar a uma regressão deliciosa", disse o sociólogo Alain Touraine. Outros se indignam contra os indignados. "Se há algo a denunciar, é o fato de os novos inquisidores quererem impor seus julgamentos preestabelecidos", escreveu outro sociólogo, Jean-Claude Kaufman. A França não seria a França se o caso não rendesse uma boa celeuma, e isso ainda a distingue. No mais, descobriu-se mais parecida com o resto do mundo. Bem-vinda, doce França, ao planeta Terra, versão século XXI. Até o nome do programa, Loft Story, sugere, para um país tão cioso na defesa de seu idioma contra a bárbara ofensiva do inglês, uma rendição. Como sentencia um sagaz observador da cena francesa, "é um Waterloo".

 
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