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Edição
1 706 - 27 de junho de 2001 |

Artes e Espetáculos
Ensaio |
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arquivoVEJA
Crie
seu grupo

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Roberto
Pompeu de Toledo
A França conhece
outro Waterloo
Ei-la
empapada
daquilo
que
se
convencionou
chamar
de "TV
lixo".
Até
tu, doce França?
Não
chega a ser um maio de 68, mas quase. Maio de 2001 abalou as estruturas
da França não com passeatas, barricadas, greves, "a imaginação
no poder" e "é proibido proibir", mas com algo de potencial explosivo
comparável: a telinha de TV. O caso se deu, e se dá ainda,
em torno do programa intitulado Loft Story, que estreou em fins
de abril e estourou em maio, com recordes de audiência e outro tanto
de polêmicas. Trata-se da versão francesa do Big Brother,
conforme o título do original que, inventado na Holanda, se espalhou
pelo mundo, ou do No Limite levado no Brasil pela Rede Globo.
Na verdade,
é um No Limite mais radical: tranca-se um grupo num apartamento
e seja o que Deus quiser. No caso, são onze pessoas seis
homens e cinco mulheres. Durante setenta dias eles ficarão ali
claro que vigiados por 26 câmaras e 55 microfones, e claro
que até na cama e até no chuveiro. Um processo de eliminação
vai selecioná-los até que sobrem dois, um homem e uma mulher.
Estes mudarão para outro apartamento, no valor de 400.000
dólares. Caso consigam manter-se ali, trancados, por outros seis
meses, ganharão o imóvel.
O programa
é apresentado em três versões. A primeira, pelo canal
aberto M6, exibe trechos editados. A segunda, por TV a cabo, mostra o
grupo o tempo todo, 24 horas por dia. Uma terceira, pela internet, contém
as cenas mais fogosas. Uma tempestade de protestos desabou sobre o programa,
visto como a chegada à França, em grande estilo, da "télé
poubelle", como dizem por lá, ou "garbage TV", como dizem os americanos
a "TV lixo". "O único mérito desse programa é
nos fazer refletir sobre as razões que nos fizeram cair tão
baixo", disse o vice-ministro para o Ensino Profissional, Jean-Luc Mélenchon.
A ministra da Cultura, Catherine Tasca, lamentou o "cinismo" de Loft
Story. Mais dramático, Jérôme Clément,
diretor do canal de documentários Arte France, viu nele o sintoma
de um "fascismo montante" na Europa.
O público,
enquanto isso, respondia com entusiasmo. A modesta M6 jamais conheceu
picos semelhantes de audiência. De uma média de 5 ou 6 milhões
de espectadores, nas primeiras emissões da série, chegou-se
a 10,5 milhões às 22h45 da quinta-feira 17 de maio. De repente,
a M6 viu-se, nos horários do programa, à frente da TF1,
a líder de audiência na França, e seu faturamento
publicitário cresceu 64%. Ao canal a cabo que não larga
o grupo do apartamento aderiram 100.000 assinantes,
que pagam 70 francos, ou 25 reais, por mês. Pela internet, houve
em maio 2,3 milhões de acessos ao site respectivo. Em suma, trata-se
de uma história de sucesso e uma história de sucesso
que abate e envergonha a França. A França não é,
entre todos, o país que mais cultiva, e transmite, a idéia
de bom gosto e refinamento, arte e cultura? Pois ei-la afundada na TV
lixo como se fosse uma Itália qualquer (para lembrar de Silvio
Berlusconi, o magnata que saltou da TV lixo para o poder em Roma), uns
meros Estados Unidos, um pobre Brasil.
Bem pesadas
as coisas, a tradição da cultura tida como "lixo" é
na França tão forte quanto a da, digamos, "alta" cultura.
No século XVIII, a filosofia dos iluministas conviveu com uma forte
imprensa e uma forte literatura popularescas. Às vezes, ambas as
vertentes encarnavam-se na mesma pessoa. O prolífico escritor Nicolas
Restif de la Bretonne é considerado, ao mesmo tempo, um agudo crítico
da sociedade e um pornógrafo. O Marquês de Sade, outro personagem
desse magnífico período da história francesa, é
caso parecido. E que dizer, já mais perto de nós, da breguice
emplumada do Moulin Rouge ou do Lido, tão identificados com a França
quanto Proust e Flaubert?
Não
importa. Mais forte é a idéia de uma França empapada
de literatura, embriagada de arte, sôfrega de filosofia. Seria,
para usar o jargão do momento, o país-cabeça por
excelência. Na TV, para corroborar essa idéia, fez sucesso
por muitos anos um programa de livros (sim, livros), levado ao ar no horário
nobre (sim, horário nobre) pelo apresentador-intelectual Bernard
Pivot, uma celebridade no país. Eis que agora a França se
empapa com casais que se esfregam no tal apartamento, embriaga-se com
a visão da moça que entra no chuveiro, segue, sôfrega,
as crises de nervos dos participantes.
Alguns reagem
com humor. "Assistir ao Loft é se abandonar a uma regressão
deliciosa", disse o sociólogo Alain Touraine. Outros se indignam
contra os indignados. "Se há algo a denunciar, é o fato
de os novos inquisidores quererem impor seus julgamentos preestabelecidos",
escreveu outro sociólogo, Jean-Claude Kaufman. A França
não seria a França se o caso não rendesse uma boa
celeuma, e isso ainda a distingue. No mais, descobriu-se mais parecida
com o resto do mundo. Bem-vinda, doce França, ao planeta Terra,
versão século XXI. Até o nome do programa, Loft
Story, sugere, para um país tão cioso na defesa de seu
idioma contra a bárbara ofensiva do inglês, uma rendição.
Como sentencia um sagaz observador da cena francesa, "é um Waterloo".

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