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Entre dois mundos

A segunda geração de autores
"étnicos" de língua inglesa tem
uma estrela: Jhumpa Lahiri

Ana Maria Machado*


Entre as décadas de 70 e 80, um time de romancistas saídos da "periferia" tomou de assalto a Inglaterra e os Estados Unidos. Indianos, africanos, caribenhos – oriundos, enfim, de antigas possessões britânicas –, eles tiraram proveito do fato de que o colonialismo os fizera bilíngües e com acesso direto aos maiores mercados editoriais do mundo. Autores talentosos como V.S. Naipaul ou Salman Rushdie ganharam respeito, prêmios e fama ao levar novos temas e um novo olhar para a ficção em língua inglesa. A partir dos anos 90, uma segunda geração de autores se apresentou para ocupar esse filão "étnico". Eles já não eram imigrantes, mas filhos de imigrantes. Carregam marcas de tradições ancestrais, mas sua pátria é a nova terra. Dentre todos, aquela com maior destaque no momento é Jhumpa Lahiri. Apesar do nome indiano, essa jovem e bela contista nasceu na Inglaterra e foi criada nos Estados Unidos. No ano passado, ganhou com seu livro de estréia, Intérprete de Males (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 224 páginas; 25 reais), o prestigioso Prêmio Pulitzer, já conferido a autores do porte de William Faulkner e Ernest Hemingway. Não se pode compará-la a esses clássicos. Mas também não é o caso de pensar que a consciência politicamente correta de um júri primeiro-mundista foi a única razão para a sua consagração.

A história do conto que dá título ao volume se passa na Índia e tem como protagonista um homem que trabalha como intérprete num consultório médico. Ele traduz as línguas locais (no Parlamento do país há quase duas dezenas de idiomas oficiais) para que o doutor se comunique com os pacientes. Esse argumento pode ser visto como uma metáfora dos autores que, de certa forma, traduzem o mal-estar de uma cultura para outra. As narrativas de Jhumpa, ambientadas ora na Índia ora nos Estados Unidos, são muito mais interessantes do que a maioria dos contos americanos atuais, em geral apenas frutos assépticos de cursos de "escrita criativa". Jhumpa freqüentou esse tipo de aula e aprendeu a lição. Mas suas histórias têm alma. Apesar dos altos e baixos, garantem ao leitor uma leitura agradável.


* Ana Maria Machado é escritora, autora de
Para Sempre, entre outros livros


   
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