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Garotos
pirados
Um retrato sombrio dos subúrbios
dos Estados Unidos e de sua
juventude para lá de transviada
Rubens Figueiredo*
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| Moody:
as mesmas experiências de seus personagens |
DE
CABEÇA
"
Foi coisa de uns dois minutos, talvez nem isso. Ele vacilou e pensou
no fim dos ideais, ou tentou pensar, e aí ficou imaginando
se cinco andares era alto o suficiente. Estava fazendo cálculos,
tanto quanto podia, sobre corpos em queda, e tinha ouvido dizer que
é melhor você se jogar de cabeça. Fez uns pedidos
de desculpas rápidos para a família, explicando
"
Foi coisa de uns dois minutos, talvez nem isso. Ele vacilou e pensou
no fim dos ideais, ou tentou pensar, e aí ficou imaginando
se cinco andares era alto o suficiente. Estava fazendo cálculos,
tanto quanto podia, sobre corpos em queda, e tinha ouvido dizer que
é melhor você se jogar de cabeça. Fez uns pedidos
de desculpas rápidos para a família, explicando
na realidade sussurrando para si mesmo que aquilo não
era conseqüência do tratamento que recebia deles, e agradecendo
em especial ao pai. Aí agarrou-se na mureta
e subiu, cambaleando, apagando."
Trecho
de O Estado Jardim |
Não
é difícil, em romances de autores americanos consagrados,
tropeçar em indícios de um patriotismo pueril. Mesmo escritores
considerados críticos daquela sociedade costumam deixar-se embriagar
pelo poder que os cerca e, bem ou mal, lhes confere vantagens. Por contrastar
com isso, torna-se ainda maior a potência de O Estado Jardim
(tradução de Paulo Reis; Rocco; 199 páginas;
25 reais), primeiro romance de Rick Moody, autor de Tempestade de Gelo
(filmado por Ang Lee) e América Púrpura, já
publicados no Brasil. Numa sociedade em que a ambição e
o sucesso pessoal se tornaram obsessivos, nada pode ser mais "estranho"
e ameaçador do que uma juventude mergulhada em fantasias suicidas
e em variadas formas de autodestruição. "Havia os escapamentos
em garagens fechadas, as batidas de carro, as overdoses de drogas, as
eviscerações ritualísticas, os disparos de armas
e a auto-imolação." Esse é o ar e a fumaça
que respiram os heróis de O Estado Jardim.
Moody
fala de jovens de classe média que largam a escola e reduzem sua
ambição a qualquer emprego inferior. Nos intervalos, recorrem
a pequenos furtos ou ao tráfico. Ingerem todo tipo de bebida e
drogas, às vezes desde a infância, até chegarem ao
colapso: "A garotada tombava feito um bando de moscas, em furiosas explosões
de mortalidade". Os sobreviventes deságuam em clínicas psiquiátricas.
O cenário é marcado por silhuetas de usinas nucleares, indústrias
em ruínas, estradas coalhadas de destroços de carros batidos.
As pessoas vão à varanda sentir o cheiro que vem da fábrica
de revólveres e, se cai algo do céu, tanto pode ser chuva
como cinzas. Contra a face impassível do progresso, o único
protesto viável é o que se pratica em prejuízo próprio.
Jovens incapazes de articular frases coerentes só conseguem exprimir
o que sentem quando ateiam fogo às roupas, embebidas em gasolina,
e por um minuto caminham em chamas pela rodovia principal, com as palmas
das mãos voltadas para cima. Em casa, vivem às turras com
as mães, já que os pais se foram. Sem vigor para realizar
seus projetos, formam e desmancham bandas de rock, buscando na música
a voz que lhes falta: "um som sujo e ameaçador como uma derrapagem
na estrada, solos rápidos como armas automáticas".
O próprio Rick Moody diz no prefácio que "a música
me ensinou como a prosa deve soar". Isso ajuda a entender o magnífico
efeito desse romance, menos escrito do que composto com os movimentos
livres de um improviso, entremeados por um refrão. Em lugar de
um enredo, com sua progressão e desenlace, há um episódio
central um dos heróis cai de um terraço , rodeado
por fragmentos da vida da periferia. Rick Moody veste a camisa e a pele
de seus personagens porque ainda é um deles. Seus problemas com
drogas e bebidas, sua internação em uma clínica e
a lembrança do destino dos amigos de adolescência estavam
frescos na memória quando escreveu O Estado Jardim, no final
dos anos 80. E desse ângulo se vê melhor o que as mãos
hábeis do jardineiro tentam trabalhar.
* Rubens Figueiredo é escritor, autor de Barco a
Seco, entre outros livros
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